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Um pouco sobre mim

Cineas das Chagas Santos nasceu em Campo Formoso, município de Caracol (PI), em setembro de 48. Vive em Teresina desde 65. Professor, editor e livreiro, fundou, com alguns companheiros de geração, o jornal alternativo “Chapada do Corisco” (76/77). É proprietário da Oficina da Palavra e coordena o grupo A Cara Alegre do Piauí. Publicou: Miudezas em Geral (poesia); Tinha que Acontecer (contos); ABC da Ecologia (cordel); Aldeia Grande (humor) e o Menino que Descobriu as Palavras (infantil).

 


O Salão das Crianças

cineasantos@hotmail.com


           Como já afirmei em outras oportunidades, o Salão do Livro do Piauí já nasceu grande. A primeira edição, realizada em julho de 2003, atraiu milhares de pessoas e a programação atendeu às expectativas do público presente. Ainda assim, faltava alguma coisa: o oxigênio da alegria que só as crianças possuem em doses elevadas. Como o Salipi se realizou em julho, mês de férias, os alunos da rede pública de ensino não se fizeram presentes. Por sugestão nossa, mudamos a data para a primeira semana de junho e, graças a uma parceria costurada com o SETUT, levamos a meninada para adonar-se do Salão.

 

            Uma tarde, enquanto os ônibus despejavam mais uma enxurrada de crianças no Centro de Convenções de Teresina, uma cidadã bem-nascida fez o seguinte comentário: “Só podia mesmo ter saído da cabeça de jerico do Cineas a ideia de encher o Salipi de meninos sujos e  barulhentos que malinam em tudo e não compram nada”. Como esse tipo de comentário anda velozmente, cinco minutos depois, lá estava eu tomando satisfação com a madame. Fui exato e preciso: Minha senhora, desculpe o mau jeito. Convidamos essas crianças da periferia por uma razão de ordem sentimental, digamos. É que fui um menino exatamente assim: pobre, feio, estudante de escola pública, que, por falta de uma biblioteca pública na cidadezinha onde nasceu só pôde ler o primeiro romance aos 17 anos de idade. Isso, como a senhora pode ver, não o  impediu de estar à frente de um evento como este. Tenho certeza de que muitas dessas crianças, se tiverem acesso ao livro na hora certa, chegarão bem mais longe do que eu. E mais não disse porque a cidadã já se desmanchava em desculpas e salamaleques.

 

            Por oportuno, vale lembrar que o principal objetivo do Salipi é formar novos leitores. Não por acaso, trabalhamos os dois polos mais visíveis da educação formal: os professores a quem oferecemos o seminário Língua Viva e os estudantes aos quais propiciamos uma programação rica e variada. Parece-nos que a estratégia vem surtindo os efeitos desejados.

 

            Fazer o SALIPI é sempre um desafio que nos deixa esgotados, mas felizes. Ver crianças, aos milhares, ocupando cada espaço do Salão é algo que nos anima a continuar tentando. Vale lembrar aqui um comentário do escritor Moacir Scliar, que já esteve conosco: “Filho de família muito pobre, a única oportunidade  em que minha mãe me permitia gastar o que não tínhamos era no dia da visita à Feira do Livro de Porto Alegre. Eu passava o ano inteiro contando os dias que faltavam para  a visita à Feira”, afirmou. É possível que pelo menos uma dessas crianças que visitam o Salipi venha a tornar-se  um(a) grande escritor(a). Se isso não acontecer, não tem a menor importância. Basta que se torne um bom leitor: Nação agradece.

           

Cineas Santos

Professor

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Está coluna é de inteira responsabilidade do colunista Cineas Santos