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Como
já afirmei em outras oportunidades,
o Salão do Livro do Piauí já nasceu
grande. A primeira edição,
realizada em julho de 2003, atraiu
milhares de pessoas e a programação
atendeu às expectativas do público
presente. Ainda assim, faltava
alguma coisa: o oxigênio da
alegria que só as crianças
possuem em doses elevadas. Como o
Salipi se realizou em julho, mês de
férias, os alunos da rede pública
de ensino não se fizeram presentes.
Por sugestão nossa, mudamos a data
para a primeira semana de junho e,
graças a uma parceria costurada com
o SETUT, levamos a meninada para
adonar-se do Salão.
Uma tarde, enquanto os
ônibus despejavam mais uma
enxurrada de crianças no Centro de
Convenções de Teresina, uma cidadã
bem-nascida fez o seguinte
comentário: “Só podia mesmo ter
saído da cabeça de jerico do Cineas
a ideia de encher o Salipi de
meninos sujos e barulhentos que
malinam em tudo e não compram
nada”. Como esse tipo de comentário
anda velozmente, cinco minutos
depois, lá estava eu tomando
satisfação com a madame. Fui exato
e preciso: Minha senhora,
desculpe o mau jeito. Convidamos
essas crianças da periferia por uma
razão de ordem sentimental,
digamos. É que fui um menino
exatamente assim: pobre, feio,
estudante de escola pública, que,
por falta de uma biblioteca pública
na cidadezinha onde nasceu só pôde
ler o primeiro romance aos 17 anos
de idade. Isso, como a senhora pode
ver, não o impediu de estar à
frente de um evento como este.
Tenho certeza de que muitas dessas
crianças, se tiverem acesso ao
livro na hora certa, chegarão bem
mais longe do que eu. E mais
não disse porque a cidadã já se
desmanchava em desculpas e
salamaleques.
Por oportuno, vale
lembrar que o principal objetivo do
Salipi é formar novos leitores. Não
por acaso, trabalhamos os dois
polos mais visíveis da educação
formal: os professores a
quem oferecemos o seminário Língua
Viva e os estudantes aos
quais propiciamos uma programação
rica e variada. Parece-nos que a
estratégia vem surtindo os efeitos
desejados.
Fazer o SALIPI é sempre
um desafio que nos deixa esgotados,
mas felizes. Ver crianças, aos
milhares, ocupando cada espaço do
Salão é algo que nos anima a
continuar tentando. Vale lembrar
aqui um comentário do escritor
Moacir Scliar, que já esteve
conosco: “Filho de família muito
pobre, a única oportunidade em que
minha mãe me permitia gastar o que
não tínhamos era no dia da visita à
Feira do Livro de Porto Alegre. Eu
passava o ano inteiro contando os
dias que faltavam para a visita à
Feira”, afirmou. É possível que
pelo menos uma dessas crianças que
visitam o Salipi venha a tornar-se
um(a) grande escritor(a). Se isso
não acontecer, não tem a menor
importância. Basta que se torne um
bom leitor: Nação agradece.
Cineas Santos
Professor |