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Sempre que faz referência ao Salão
do Livro do Piauí, o escritor
Edmílson Caminha, citando autor que
desconheço, afirma: “Se os meninos
soubessem que era impossível, não
teriam feito”. Exagero à parte, a
sentença contém muita verdade.
Quando, em 2003, os professores
Wellington Soares, Luiz Romero e
Nilson Ferreira me propuseram
participar do que, à época, me
pareceu uma aventura
errante, fui taxativo: Estou
fora! Eu tinha as minhas razões.
Durante cinco anos, a duras penas,
realizei, praticamente sozinho,
cinco edições do seminário
Língua Viva, tarefa para
Hércules nenhum botar defeito. Por
minha conta e risco, eu convidava
grandes autores (Celso Pedro Luft,
Antônio Houaiss, Evanildo Bechara,
Napoleão Mendes de Almeida, Celso
Cunha, entre outros), alugava
espaço, contratava som e, como um
camelô, saía pelos colégios de
Teresina tentando convencer os
diretores das escolas a liberarem
(na verdade, libertarem) os
professores para que pudessem
participar do evento. Colecionei
toneladas de nãos. Eu estava
farto daquilo.
Os três mosqueteiros
voltaram à carga e, desta feita, já
me trouxeram um projeto formatado,
muito embora nenhum deles tivesse a
menor ideia do custo de um salão e,
menos ainda, de onde sairiam os
recursos para bancá-lo. A bem da
verdade, nenhum de nós tinha
qualquer experiência na realização
de grandes eventos. Não bastasse
isso, éramos (somos ainda) apenas
um punhado de duros. Mas o
Wellington é movido a desafios e
acabou me arrastando para a
empreitada. Assim, na primeira
semana de julho de 2003, realizamos
a primeira edição do SALIPI no
velho Centro de Convenções de
Teresina. De todas as dificuldades,
a maior foi convencer os livreiros
a participar. Com a colaboração de
alguns parceiros – Governo do
Estado e Prefeitura de Teresina,
desde a primeira hora – realizamos
o que, aos olhos de muitos, parecia
impossível: um grande e belo salão.
Eu não teria a menor dúvida em
afirmar que o SALIPI só se
viabilizou porque os teresinenses
adonaram-se dele. Aspiração antiga,
o público compareceu em peso,
obrigando os incrédulos a prestarem
atenção nele. A mídia piauiense,
por seu turno, acreditou no Salão e
deu-lhe a necessária visibilidade.
Ao longo desses anos,
tivemos muitas decepções e grandes
alegrias. Para mim, a maior delas
foi receber de uma cidadã do povo
um cofrinho de barro com um punhado
de moedas e o pedido de desculpas:
“O senhor me desculpe, mas espero
que dê para pagar o almoço de um
dos convidados”. Não deu porque
aquele cofrinho continua fechado:
tornou-se uma espécie de amuleto.
Como um objeto sagrado, é
inviolável.
Impossível saber aonde
essa aventura vai dar, mas parece
que até a grande mídia já descobriu
que a SALIPI existe. Para mim, que
ultimamente tenho participado
pouco, ver milhares de crianças da
periferia da cidade adentrarem o
espaço do Salão, como gralhas
felizes, já me diz que valeu a
pena. O Poeta tem razão: “Tudo vale
a pena/ se a alma não é pequena”. A
nossa é do tamanho do universo.
Cineas Santos
Professor |