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Parte 4
Novembro chegou e com ele, as
primeiras chuvas. Com as chuvas,
vieram a alegria e o Zé Sanfoneiro.
Passageiro do vento, nada conduzia.
Nunca se soube de onde vinha. Não
tinha destino certo nem prazo para
chegar. Teria pouco mais de 30 anos
de idade, estatura mediana, cabelos
ruivos e barba rala. Tinha um quê
de Jackson Antunes. Por causa dos
dentes proeminentes, parecia estar
sempre sorrindo. Falava pouco e
tocava o tempo inteiro.
Curiosamente, não tinha sanfona,
melhor dizendo, tinha uma
sanfona imaginária. As costelas
funcionavam como um teclado que os
dedos ágeis, nervosos, percorriam
num frenesi sem termo. Com a mão
esquerda, fazia o movimento de
abrir e fechar o fole do
instrumento invisível. Com a boca,
emitia uma infinidade de sons.
Tocava basicamente baiões,
xotes, cocos, forrós e frevos. O
repertório contemplava Luiz
Gonzaga, Jackson do Pandeiro,
Sivuca, Pedro Sertanejo e outras
feras nordestinas. Tocava bem: era
afinado e não saía do ritmo. Em
curtíssimo espaço de tempo,
conquistou a todos nós.
Como
já afirmei em outras oportunidades,
dona Purcina tinha o condão de
atrair loucos de todas as
versidades. Zé Sanfoneiro era
mais um. Chegou num final de
tarde, sentou-se na calçada alta e,
sem se fazer de rogado, começou a
tocar. Minha mãe ouviu as músicas,
cantou uma delas e entrou na casa.
Ao retornar, trazia um taco de
rapadura, um pouco de farinha e uma
caneca d’água. Como naquela
propaganda do uísque, pensei
comigo: “entrou para o clube”. A
comida e a água eram uma espécie de
senha: a partir daquele instante, o
Zé Sanfoneiro passava a integrar a
grei dos “loucos da tia Purcina”.
Em
nossa casa havia uma lei que se
cumpria à risca: só comia quem
trabalhasse. Assim, entre uma
“sanfonada” e outra, o Zé cortava
lenha, dava ração aos bichos,
capinava. Não causava espécie vê-lo
interromper um quefazer para solar
um frevo. Lá de dentro, dona
Purcina berrava: “Primeiro a
obrigação; depois, a devoção”. O Zé
entendia e voltava ao batente. Até
seu Liberato, que não apreciava os
hóspedes da matriarca,
encheu-se de afeição pelo
Sanfoneiro. Às vezes, acendia um
cigarro e pedia: “Zé, toca aquela
do pássaro cego”. O Zé
empertigava-se, respirava fundo, e
sapecava “Assum Preto”, de Luiz
Gonzaga e Humberto Teixeira. O
velho concedia-lhe o único elogio
que conhecia: “Tocou conforme, Zé”.
Numa
manhã qualquer de abril, sem mais
nem menos, o Zé Sanfoneiro
levantou-se, sacudiu a poeira da
roupa e, sem se despedir de
ninguém, partiu tocando “A volta da
asa branca”. Foi-se afastando,
afastando, até ser engolido pelo
azul...
Às
vezes, quando estou sozinho, me
surpreendo tocando minha sanfoninha
imaginária. O repertório é
basicamente o mesmo do Zé
Sanfoneiro, mas as notas nem sempre
saem nítidas e afinadas... Fazer o
quê? O Zé era um louco
profissional; quanto a mim, nunca
passei de um amador.
Parte 3
1969. A pretexto de combater os
terroristas, a ditadura
recrudescia. Prisões, mortes,
desaparecimentos. A censura, como o
big brother (o do Orwel),
adivinhava até os pensamentos mais
recônditos. Ásperos tempos. Justo
naquele momento, resolvi criar um
grupo de teatro: Teatro Popular do
Piauí. Na verdade, uma trupe
mambembe sem maior experiência e
sem qualquer veleidade
profissional. Integravam-na:
Lázaro, Moacir, Chico Viana, Sólis,
Terezinha e um garoto, cujo nome já
não me lembro. Cada um de nós tinha
de se desdobrar para fazer quase
tudo. As funções se misturavam. Por
falta de textos disponíveis, eu e
Chico Viana engendramos uma peça –
“Uma noite entre miseráveis” –
pastiche ordinário de “Dois
perdidos numa noite suja”, de
Plínio Marcos, e “Morte e vida
Severina”, de João Cabral. Por obra
e graça do Espírito Santo,
permitiram-nos ensaiar a peça no
auditório do Colégio Diocesano,
“território livre” da ingerência
dos esbirros Não havia cenário,
iluminação, nada. Estávamos
inaugurando, na Chapada, o teatro
nu e cru.
Onde montar a peça? Em Teresina,
nem pensar. Foi aí que Chico Viana
e Moacir tiveram a ideia de levar a
peça a Bacabal (MA), onde o
prefeito era boa praça e o Moacir
tinha uma namorada. Acertou-se o
dia da apresentação, fizemos meia
dúzia de ensaios e embarcamos num
dos “expressos” da Líder. Lá pelas
tantas, olhei para o Viana e
perguntei: - E se, avisada pelo
capitão Astrogildo, a PF estiver no
esperando em Bacabal? O Viana
sorriu e desconversou. Pura
paranoia: a Polícia Federal não
tomara conhecimento das nossas
estripulias.
Chegamos a Bacabal e, numa
deferência especial, o prefeito se
dignou a nos receber em seu
gabinete. Era um cidadão
corpulento, alegre, bonachão, com
um sorriso confiável. Ao lado dele,
um homem cinzento com cara de quem
já morreu e ainda não foi
comunicado. De repente, adentra o
gabinete um cidadão baixo, chapéu
Panamá, trajando um conjunto cinza,
com olhar de ave de rapina, o
perfeito estereótipo do policial
civil. Tirou o chapéu e, alto e bom
som, declarou: - Peço licença a
Vossa Excelência para, em nome da
revolução prender este indivíduo!
Disse isso sem apontar para o tal
“indivíduo” que, por supuesto, como
dizem los hermanos argentinos, só
poderia ser eu. Por alguns segundos
perdi a noção do tempo, minha
respiração tornou-se pesada, a
saliva, travosa e a visão embaçada.
Naquele momento, descobri que o
medo tem cheiro, gosto e cor. Foram
segundos que duraram uma
eternidade. Tão aparvalhado estava,
que nem percebi que tudo não
passava de uma brincadeira do
coletor estadual com o
vice-prefeito, o homem cinzento.
Todos riram da patuscada, menos eu
que, em estado deplorável,
limitei-me a perguntar: - Por
favor, onde fica o banheiro?
Naquela manhã, percebi que não
tinha cujones para tornar-me um
“subversivo”. À noite, apresentamos
a peça, a plateia generosa nos
aplaudiu, o prefeito nos deu
trezentos cruzeiros e o Teatro
Popular do Piauí desapareceu sem
deixar saudades. Ufa!
Parte 02
Na remota década de 60, todos os
dias, no final da tarde, uma
cambada de moleques entanguidos
plantava-se à porta da casa de dona
Purcina, no bairro Aldeia, à espera
da ração de bola. Éramos quase
todos do mesmo tope e todos da
mesma cor: marrom-descaso.
Integravam a cabroeira: Cleto,
Valdemar, Paredão, Tonico, Berto,
Zé do Jaburu, Orlando da Bela,
Nivaldo, Walter do Candinho, Pedro
e Solimar. Eventualmente, apareciam
no terreiro: Marcelo Castro e
Antônio Macedo, os dois únicos
bem-nascidos do bando. Os outros
éramos xerém. À época, bola era
produto raro e caro. Muitas vezes,
disputamos rachas animadíssimos com
prosaicas bexigas de boi ou
bolinhas de meia. No dia em que
comprei minha primeira bola de
borracha, uma autêntica “casco-de-peba”,
não consegui me concentrar na aula:
meu pensamente não se desgrudava
dela. Parafraseando Bandeira,
aquela bolinha foi minha primeira
amante. E como o porquinho-da-índia
do Poeta, ela não fazia o menor
caso dos meus acenos e carinhos:
preferia os chutes certeiros de
Paredão e Solimar, o que me deixava
roído de ciúmes...
Perdidos naquela aldeia remota,
onde o rádio era um luxo só
permitido a dois ou três ricaços,
tínhamos uma verdadeira veneração
pelo único time que conhecíamos:
o do Pelé. Qualquer um de nós sabia
de cor e salteado a escalação
daquela máquina de destroçar
adversários: Gilmar, Mauro, Dalmo,
Lima, Zito, Melgálvio, Calvet,
Dorval, Coutinho, Pelé e Pepe. À
época, o time da Vila não tinha o
menor pejo em pegar quatro gols
numa partida; Pelé, Coutinho e
Pepe, faziam cinco ou seis,
dependendo do humor de cada um.
Houve um dia, porém (14 de novembro
de 63), em que o Milan cruzou o
caminho do Santos para tirar-lhe o
título de bi-campeão Interclubes.
Para desbancar a equipe da Vila, o
time italiano contava com a
cumplicidade e a competência de
dois brasileiros: Mazola e
Amarildo, também conhecido como “o
possesso”. Para os mais jovens, um
lembrete: Amarildo fora o
substituto de Pelé na copa de 62 da
qual saiu consagrado. Era um
centroavante rompedor e perigoso.
Não bastasse isso, o Santos,
naquele dia, não podia contar com
Pelé, Zito e Calvet. 130 mil
torcedores, no Maracanã,
assistiram, consternados, a um
primeiro tempo em que o Santos
levou dois gols e não fez nenhum.
Nos mais antigos, bateu a síndrome
de macaranaço, medo de que se
repetisse ali o que ocorrera em
1950, quando perdemos a copa do
mundo para o Uruguai. Ledo engano.
Se os italianos tinham um
“possesso”, o Santos tinha um
“alucinado”, Almir Pernambuquinho
que, literalmente, comandou a
reação e a virada sensacional.
Vencemos por 4X2. Um dia para não
ser esquecido.
Por que me lembrei disso agora? É
escusado explicar. Com a mesma
angústia vivida há 47 anos, vi o
time dos “Meninos da Vila”, com
três jogadores a menos, segurar a
fúria do Santo André, na tarde do
dia 2 de maio. Neymar, Robinho e
Ganso fizeram a diferença. Finda a
peleja, só me faltou a companhia
dos moleques da minha aldeia,
notadamente do Paredão, para que a
alegria fosse completa. Um dia para
ser lembrado, mesmo por um
flamenguista juramentado como eu.
Parte 01
Se você ainda não leu o conto
Viagem aos seios de Duília, de
Aníbal Machado, leia-o: é a mais
patética, digo, a mais humana de
todas as narrativas que já li. Para
não lhe furtar o prazer da leitura,
direi apenas que é a história de um
cidadão, José Maria que,
adolescente, num dia de festa
religiosa, teve a felicidade ou a
desdita de ver os seios de uma bela
jovem, Duília, num povoado (Pouso
Triste) perdido nos cafundós de
Minas. A cena durou apenas uma
fração de segundo, tempo suficiente
para marcar-lhe a existência. Uns
40 anos depois, José Maria,
aposentado, resolve voltar ao local
da mágica visão, na vã tentativa de
reencontrar Duília...
Por que me lembrei desse conto
agora? Honestamente, não sei. Sei
apenas que, ao acordar na manhã de
ontem, lembrei-me de Evanilde, uma
menina baiana que parecia feita de
porcelana e sonho. Parafraseando o
poeta, quando olhada de face, era
uma boneca de louça; quanto vista
de perfil, a haste de um lírio,
prestes a partir-se. Tudo nela
reclamava cuidados especiais. Era
muito branca, dissimulada e gaga.
Falava aos trancos. Às vezes, na
tentativa de pronunciar uma
palavra, fechava os olhos como se o
gesto pudesse livrá-la da gaguice.
Aos olhos do menino, era
encantadora. Seu passatempo
preferido era provocar-me.
Sagazmente, aproximava-se de mim,
sem jamais me permitir tocá-la. Era
um jogo de sedução sofisticado
demais para uma garota tão jovem,
de aparência angelical.
Uma noite, saímos para acompanhar o
Reisado do Manuel Antônio, no
bairro Aldeia. Éramos um bando de
meninos e meninas do mesmo tope. Lá
pelas tantas, ela afastou-se das
meninas e, sorrateiramente,
aproximou-se de mim. Como peças
imantadas, nossas mãos se atraíram
e entrelaçaram-se. A cena deve ter
durado apenas alguns segundos, mas
me fez acreditar na existência de
um paraíso terreno... Naquela
noite, sepultei de vez o sonho de
dona Purcina de me fazer padre. No
dia seguinte, ela se comportou como
se nada tivesse acontecido, o que
me deixou profundamente magoado.
Aquele jogo pendular que lhe dava
tanto prazer me exasperava.
O tempo e os contratempos nos
separaram. Poucos dias depois, numa
manhã de sábado, com a leveza de um
felino, ela veio até mim e, sem
aviso prévio, beijou-me o rosto.
Aparvalhado, nem percebi que aquele
beijo inusitado se fazia acompanhar
um doloroso ADEUS. Como naquela
canção do Chico, “agora eu era um
louco a perguntar/ o que é que a
vida vai fazer mim?”. Nunca mais a
vi. Se bem me lembro, foi a
primeira vez que morri de amor. Mas
o tempo tudo cura. Com Quintana,
aprendi que é tão bom morrer de
amor e continuar respirando...
Cineas Santos
Professor |