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Um pouco sobre mim

Cineas das Chagas Santos nasceu em Campo Formoso, município de Caracol (PI), em setembro de 48. Vive em Teresina desde 65. Professor, editor e livreiro, fundou, com alguns companheiros de geração, o jornal alternativo “Chapada do Corisco” (76/77). É proprietário da Oficina da Palavra e coordena o grupo A Cara Alegre do Piauí. Publicou: Miudezas em Geral (poesia); Tinha que Acontecer (contos); ABC da Ecologia (cordel); Aldeia Grande (humor) e o Menino que Descobriu as Palavras (infantil).

 


Das coisas que não se esquecem (parte 01, 02, 03 e 04)

cineasantos@hotmail.com


Parte 4

 

Novembro chegou e com ele, as primeiras chuvas. Com as chuvas, vieram a alegria e o Zé Sanfoneiro. Passageiro do vento, nada conduzia. Nunca se soube de onde vinha. Não tinha destino certo nem prazo para chegar. Teria pouco mais de 30 anos de idade, estatura mediana, cabelos ruivos e barba rala. Tinha um quê de Jackson Antunes.  Por causa dos dentes proeminentes, parecia estar sempre sorrindo. Falava pouco e tocava o tempo inteiro. Curiosamente, não tinha sanfona, melhor dizendo, tinha uma sanfona imaginária. As costelas funcionavam como um teclado que os dedos ágeis, nervosos, percorriam num frenesi sem termo. Com a mão esquerda, fazia o movimento de abrir e fechar o fole do instrumento invisível. Com a boca, emitia uma infinidade de sons. Tocava basicamente baiões, xotes, cocos, forrós e frevos. O repertório contemplava Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Sivuca, Pedro Sertanejo e outras feras nordestinas. Tocava bem: era afinado e não  saía do ritmo.  Em curtíssimo espaço de tempo, conquistou a todos nós.

 

Como já afirmei em outras oportunidades, dona Purcina tinha o condão de atrair loucos de todas as versidades.  Zé Sanfoneiro era  mais um. Chegou num final de tarde, sentou-se na calçada alta e, sem se fazer de rogado, começou a tocar. Minha mãe ouviu as músicas, cantou uma delas e entrou na casa. Ao retornar, trazia um taco de rapadura, um pouco de farinha e uma caneca d’água. Como naquela propaganda do uísque, pensei comigo: “entrou para o clube”. A comida e a água eram uma espécie de senha: a partir daquele instante, o Zé Sanfoneiro passava a integrar a grei dos “loucos da tia Purcina”.

 

Em nossa casa havia uma lei que se cumpria à risca: só comia quem trabalhasse. Assim, entre uma “sanfonada” e outra, o Zé cortava lenha, dava ração aos bichos, capinava. Não causava espécie vê-lo interromper um quefazer para solar um frevo. Lá de dentro, dona Purcina berrava: “Primeiro a obrigação; depois, a devoção”. O Zé entendia e voltava ao batente. Até seu Liberato, que não apreciava os hóspedes da matriarca, encheu-se de afeição pelo Sanfoneiro. Às vezes, acendia um cigarro e pedia: “Zé, toca aquela do pássaro cego”.  O Zé empertigava-se, respirava fundo, e sapecava “Assum Preto”, de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira. O velho concedia-lhe o único elogio que conhecia: “Tocou conforme, Zé”.

 

Numa manhã qualquer de abril, sem mais nem menos, o Zé Sanfoneiro levantou-se, sacudiu a poeira da roupa e, sem se despedir de ninguém, partiu tocando “A volta da asa branca”. Foi-se afastando, afastando, até ser engolido pelo azul...

 

Às vezes, quando estou sozinho, me surpreendo tocando minha sanfoninha imaginária. O repertório é basicamente o mesmo do Zé Sanfoneiro, mas as notas nem sempre saem nítidas e afinadas... Fazer o quê? O Zé era um louco profissional; quanto a mim, nunca passei de um amador.

 

 


 

 

Parte 3

1969. A pretexto de combater os terroristas, a ditadura recrudescia. Prisões, mortes, desaparecimentos. A censura, como o big brother (o do Orwel), adivinhava até os pensamentos mais recônditos. Ásperos tempos. Justo naquele momento, resolvi criar um grupo de teatro: Teatro Popular do Piauí. Na verdade, uma trupe mambembe sem maior experiência e sem qualquer veleidade profissional. Integravam-na: Lázaro, Moacir, Chico Viana, Sólis, Terezinha e um garoto, cujo nome já não me lembro. Cada um de nós tinha de se desdobrar para fazer quase tudo. As funções se misturavam. Por falta de textos disponíveis, eu e Chico Viana engendramos uma peça – “Uma noite entre miseráveis” – pastiche ordinário de “Dois perdidos numa noite suja”, de Plínio Marcos, e “Morte e vida Severina”, de João Cabral. Por obra e graça do Espírito Santo, permitiram-nos ensaiar a peça no auditório do Colégio Diocesano, “território livre” da ingerência dos esbirros Não havia cenário, iluminação, nada. Estávamos inaugurando, na Chapada, o teatro nu e cru.

Onde montar a peça? Em Teresina, nem pensar. Foi aí que Chico Viana e Moacir tiveram a ideia de levar a peça a Bacabal (MA), onde o prefeito era boa praça e o Moacir tinha uma namorada. Acertou-se o dia da apresentação, fizemos meia dúzia de ensaios e embarcamos num dos “expressos” da Líder. Lá pelas tantas, olhei para o Viana e perguntei: - E se, avisada pelo capitão Astrogildo, a PF estiver no esperando em Bacabal? O Viana sorriu e desconversou. Pura paranoia: a Polícia Federal não tomara conhecimento das nossas estripulias.

Chegamos a Bacabal e, numa deferência especial, o prefeito se dignou a nos receber em seu gabinete. Era um cidadão corpulento, alegre, bonachão, com um sorriso confiável. Ao lado dele, um homem cinzento com cara de quem já morreu e ainda não foi comunicado. De repente, adentra o gabinete um cidadão baixo, chapéu Panamá, trajando um conjunto cinza, com olhar de ave de rapina, o perfeito estereótipo do policial civil. Tirou o chapéu e, alto e bom som, declarou: - Peço licença a Vossa Excelência para, em nome da revolução prender este indivíduo! Disse isso sem apontar para o tal “indivíduo” que, por supuesto, como dizem los hermanos argentinos, só poderia ser eu. Por alguns segundos perdi a noção do tempo, minha respiração tornou-se pesada, a saliva, travosa e a visão embaçada. Naquele momento, descobri que o medo tem cheiro, gosto e cor. Foram segundos que duraram uma eternidade. Tão aparvalhado estava, que nem percebi que tudo não passava de uma brincadeira do coletor estadual com o vice-prefeito, o homem cinzento. Todos riram da patuscada, menos eu que, em estado deplorável, limitei-me a perguntar: - Por favor, onde fica o banheiro?

Naquela manhã, percebi que não tinha cujones para tornar-me um “subversivo”. À noite, apresentamos a peça, a plateia generosa nos aplaudiu, o prefeito nos deu trezentos cruzeiros e o Teatro Popular do Piauí desapareceu sem deixar saudades. Ufa!

 


 

 

Parte 02

Na remota década de 60, todos os dias, no final da tarde, uma cambada de moleques entanguidos plantava-se à porta da casa de dona Purcina, no bairro Aldeia, à espera da ração de bola. Éramos quase todos do mesmo tope e todos da mesma cor: marrom-descaso. Integravam a cabroeira: Cleto, Valdemar, Paredão, Tonico, Berto, Zé do Jaburu, Orlando da Bela, Nivaldo, Walter do Candinho, Pedro e Solimar. Eventualmente, apareciam no terreiro: Marcelo Castro e Antônio Macedo, os dois únicos bem-nascidos do bando. Os outros éramos xerém. À época, bola era produto raro e caro. Muitas vezes, disputamos rachas animadíssimos com prosaicas bexigas de boi ou bolinhas de meia. No dia em que comprei minha primeira bola de borracha, uma autêntica “casco-de-peba”, não consegui me concentrar na aula: meu pensamente não se desgrudava dela. Parafraseando Bandeira, aquela bolinha foi minha primeira amante. E como o porquinho-da-índia do Poeta, ela não fazia o menor caso dos meus acenos e carinhos: preferia os chutes certeiros de Paredão e Solimar, o que me deixava roído de ciúmes...

Perdidos naquela aldeia remota, onde o rádio era um luxo só permitido a dois ou três ricaços, tínhamos uma verdadeira veneração pelo   único time que conhecíamos: o do Pelé. Qualquer um de nós sabia de cor e salteado a escalação daquela máquina de destroçar adversários: Gilmar, Mauro, Dalmo, Lima, Zito, Melgálvio, Calvet, Dorval, Coutinho, Pelé e Pepe. À época, o time da Vila não tinha o menor pejo em pegar quatro gols numa partida; Pelé, Coutinho e Pepe, faziam cinco ou seis, dependendo do humor de cada um. Houve um dia, porém (14 de novembro de 63), em que o Milan cruzou o caminho do Santos para tirar-lhe o título de bi-campeão Interclubes. Para desbancar a equipe da Vila, o time italiano contava com a cumplicidade e a competência de dois brasileiros: Mazola e Amarildo, também conhecido como “o possesso”. Para os mais jovens, um lembrete: Amarildo fora o substituto de Pelé na copa de 62 da qual saiu consagrado. Era um centroavante rompedor e perigoso. Não bastasse isso, o Santos, naquele dia, não podia contar com Pelé, Zito e Calvet. 130 mil torcedores, no Maracanã, assistiram, consternados, a um primeiro tempo em que o Santos levou dois gols e não fez nenhum. Nos mais antigos, bateu a síndrome de macaranaço, medo de que se repetisse ali o que ocorrera em 1950,  quando perdemos a copa do mundo para o Uruguai. Ledo engano. Se os italianos tinham um “possesso”, o Santos tinha um “alucinado”, Almir Pernambuquinho que, literalmente, comandou a reação e a virada sensacional. Vencemos por 4X2. Um dia para não ser esquecido.

Por que me lembrei disso agora? É escusado explicar. Com a mesma angústia vivida há 47 anos, vi o time dos “Meninos da Vila”, com três jogadores a menos, segurar a fúria do Santo André, na tarde do dia 2 de maio. Neymar, Robinho e Ganso fizeram a diferença. Finda a peleja, só me faltou a companhia dos moleques da minha aldeia, notadamente do Paredão, para que a alegria fosse completa. Um dia para ser lembrado, mesmo por um flamenguista juramentado como eu.

 



Parte 01

Se você ainda não leu o conto Viagem aos seios de Duília, de Aníbal Machado, leia-o: é a mais patética, digo, a mais humana de todas as narrativas que já li. Para não lhe furtar o prazer da leitura, direi apenas que é a história de um cidadão, José Maria que, adolescente, num dia de festa religiosa, teve a felicidade ou a desdita de ver os seios de uma bela jovem, Duília, num povoado (Pouso Triste) perdido nos cafundós de Minas. A cena durou apenas uma fração de segundo, tempo suficiente para marcar-lhe a existência. Uns 40 anos depois, José Maria, aposentado, resolve voltar ao local da mágica visão, na vã tentativa de reencontrar Duília...

Por que me lembrei desse conto agora? Honestamente, não sei. Sei apenas que, ao acordar na manhã de ontem, lembrei-me de Evanilde, uma menina baiana que parecia feita de porcelana e sonho. Parafraseando o poeta, quando olhada de face, era uma boneca de louça; quanto vista de perfil, a haste de um lírio, prestes a partir-se. Tudo nela reclamava cuidados especiais. Era muito branca, dissimulada e gaga. Falava aos trancos. Às vezes, na tentativa de pronunciar uma palavra, fechava os olhos como se o gesto pudesse livrá-la da gaguice. Aos olhos do menino, era encantadora. Seu passatempo preferido era provocar-me. Sagazmente, aproximava-se de mim, sem jamais me permitir tocá-la. Era um jogo de sedução sofisticado demais para uma garota tão jovem, de aparência angelical.

Uma noite, saímos para acompanhar o Reisado do Manuel Antônio, no bairro Aldeia. Éramos um bando de meninos e meninas do mesmo tope. Lá pelas tantas, ela afastou-se das meninas e, sorrateiramente, aproximou-se de mim. Como peças imantadas, nossas mãos se atraíram e entrelaçaram-se. A cena deve ter durado apenas alguns segundos, mas me fez acreditar na existência de um paraíso terreno... Naquela noite, sepultei de vez o sonho de dona Purcina de me fazer padre. No dia seguinte, ela se comportou como se nada tivesse acontecido, o que me deixou profundamente magoado. Aquele jogo pendular que lhe dava tanto prazer me exasperava.

O tempo e os contratempos nos separaram. Poucos dias depois, numa manhã de sábado, com a leveza de um felino, ela veio até mim e, sem aviso prévio, beijou-me o rosto. Aparvalhado, nem percebi que aquele beijo inusitado se fazia acompanhar um doloroso ADEUS. Como naquela canção do Chico, “agora eu era um louco a perguntar/ o que é que a vida vai fazer mim?”. Nunca mais a vi. Se bem me lembro, foi a primeira vez que morri de amor. Mas o tempo tudo cura. Com Quintana, aprendi que é tão bom morrer de amor e continuar respirando...

 

 

Cineas Santos

Professor

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Está coluna é de inteira responsabilidade do colunista Cineas Santos