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Em mais de uma oportunidade,
afirmei: seu Liberato não tocava
viola, não fazia versos, não
contava vantagens. Era um sertanejo
morigerado, com vocação para pedra.
Só grudado ao chão da caatinga,
sentia-se em casa. Perfeitamente
integrado ao seu habitat,
não estendia suas aspirações além
dos limites de suas roças. Ao longo
da vida, empreendeu apenas três
viagens. Em nenhuma delas fez boa
colheita. Acontece que, em 1958, as
chuvas se negaram a cair no sertão
do Caracol. Levas e levas de
catingueiros deixavam para trás
roças, mulheres e filhos e rumavam
para o imenso canteiro de obras no
Planalto Central onde um presidente
visionário pretendia plantar a
capital do País. Magoado com a
sovinice dos céus, seu Liberato,
aos 55 anos de idade, encarapitado
num pau-de-arara, foi tentar a
sorte naqueles ermos onde sobrava
trabalho e faltavam mulheres.
Dona Purcina, com sua
alma cigana, vislumbrou naquele
gesto desesperado do marido a
possibilidade de levar os filhos
para uma terra onde “corria
dinheiro e tinha escola”. Para
aquela camponesa semi-analfabeta,
educar os filhos não era apenas
aspiração; era obsessão. Enquanto
seu Liberato cavava valas na terra
vermelha do cerrado, dona Purcina
urdia planos. Pensou tudo: abriria
uma pensão familiar para
fornecer boia aos candangos,
construiria uma casinha para a
família, o mais próximo possível de
uma escola. O mais viria com
o tempo.
O que ela não poderia
imaginar é que o velho Liba, embora
estivesse fisicamente no Planalto,
seu espírito catingueiro jamais se
ausentou do Campo Formoso, sua
gleba, seu reino, seu mundo. Assim,
o exílio doloroso durou pouco mais
de oito meses. Ao saber que chovia
no Piauí, juntou seus teréns e
voltou correndo para o sertão. Por
pouco, por muito pouco, dona
Purcina não o expulsou de casa.
Morria ali o sonho de construir “um
futuro melhor” para os filhos. À
época, eu não fazia a menor ideia
do que fosse morar numa cidade
grande. Na verdade, aquela aventura
não me tentava. A exemplo do meu
pai, eu começava a fincar raízes
fundas na terra árida do sertão.
Tenho ( como meu velho) uma
indeclinável vocação para pedra.
Plantada por mãos
calejadas e regada com o suor dos
candangos, Brasília nasceu
acanhada. Mas, com o adubo do
dinheiro e o fascínio do poder,
cresceu rapidamente. Em pouco
tempo, tornou-se uma espécie de Las
Vegas do cerrado. Para lá migraram
arrivistas, falsários e apostadores
de todas as procedências. Gente que
só aposta com o dinheiro alheio e
nunca perde.
Brasília, “ninho de tédios” e de
escândalos, faz 50 anos de
existência e tem pouco a comemorar.
De minha parte, não me canso de
agradecer a seu Liberato por ter
voltado para o sertão do Caracol.
Como o canto das sereias, o poder
vicia, inebria e alucina...
Cineas Santos
Professor |