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O
que aconteceria se, de repente,
integrantes de todas as tribos
culturais do país decidissem se
encontrar, numa cidade ensolarada,
para falar, ouvir, ensinar,
aprender e, principalmente,
conviver solidariamente? A resposta
é simples: tudo e mais alguma
coisa, principalmente alegria e
beleza. Foi essa a impressão que
guardei do encontro nacional de
pontos de cultura – TEIA:
tambores digitais - realizado
entre os dias 25 e 31 de março do
ano em curso, em Fortaleza. Consta
que pelo menos 4 mil
representantes de pontos de cultura
de todos os recantos do Brasil
marcaram presença. O número pode
parecer superestimado, mas não
duvido de que esteja bem próximo da
realidade: em menos de 24 horas,
encontrei 3 catingueiros
que, como eu, olhavam abismados
aquele dilúvio de gente. Uma moça
de Caracol, outra de São Raimundo
Nonato e um rapaz de Anísio de
Abreu, gente de minha antiga
aldeia. Confesso, com muita
alegria, que nunca me senti tão
enturmado. Pela vez primeira na
vida, encontrei uma caracolense bem
mais articulada do que eu. Com uma
câmara digital na mão, a moça
registrava tudo, enquanto eu me
limitava a espiar. Conclusão: uma
teia capaz de alcançar o Caracol é,
efetivamente, abrangente.
De repente, o monumental
espaço cultural Dragão do Mar
ficou pequeno para comportar tantas
e tão distintas manifestações
culturais. Num mesmo caldeirão
musical, misturavam-se a Orquestra
de Câmara Eliezer de Carvalho,
banda de pífanos dos Irmãos
Aniceto, Jorge Mautner, Dona
Zefinha, Fagner, Tambores do
Tocantins, Orquestra Popular
Meninos da Ceilândia, Chico César,
Bloco Afro Ilú Obá de Min, Reisado
de Santana, Orquestra de Berimbaus
do Morro do Querosene, Carimbó dos
Quentes da Madrugada e o escambau.
Acrescente-se a isso a troca de
experiências, debates apimentados,
projetos ousados, mostras de arte e
artesanato e muita alegria. Um
caldeirão cultural fervilhante de
luz, cor, sons, magia... Para o
encerramento do encontro,
organizou-se o Cortejo da
Ebulição dos Libertos, com a
participação de mais de 2000
pessoas. A melhor parte: os
políticos não tiveram espaço para
suas arengas costumeiras. A festa
tinha dono: o povo brasileiro.
Ainda é cedo para que se faça
uma avaliação adequada do legado do
governo Lula para a cultura
brasileira. Mas é inegável que, sob
a batuta de Gilberto Gil e Juca
Ferreira, a cultura dos “grotões,
chapadas e morros” pôde mostrar a
cara sem medo de ser feliz. Os
pontos de cultura propiciaram aos
“despossuídos” de todas as aldeias
a oportunidade de gritarem ao
mundo: ESTAMOS VIVOS! Azar de quem
não quiser ouvir.
Cineas Santos
Professor |