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“Cantaremos o medo, que esteriliza
os abraços” – CDA
Segundo os entendidos,
o medo é o mais visível e palpável
de todos os sentimentos. Faz-se
sentir/notar nos olhos, na boca, no
coração, nas pernas e,
principalmente, nos intestinos. O
homem, por ter consciência do
perigo e da finitude, fez do medo
permanente companheiro de jornada.
Ainda assim, viver sob o domínio
dele tem efeitos devastadores em
nosso organismo. Deixemos, contudo,
de filosofice, que o objeto
desta arenga é o chão do chão.
Há 30 anos, juntei os
caraminguás amealhados a duras
penas e comprei um terreno numa
área pouco habitada, nas imediações
da Universidade Federal do Piauí. A
rua não era calçada, faltava água
com muita frequência, a iluminação
era precária, mas os vizinhos
(mucuras, bem-te-vis e camaleões)
eram discretos e amistosos. Resolvi
construir uma casa que, de alguma
forma, me remetesse ao sertão do
Piauí. Fiz um casarão de fazenda,
com cumeeira alta, varandas amplas
e até mourões para amarrar meus
cavalos imaginários. Decidi que não
me cercaria de muros. Finquei
estacas, pus uma tela de arame e
plantei uma bela trepadeira. As
chuvas se encarregaram do resto:
uma viçosa cerca viva me propiciava
a sensação de morar no meio de uma
roça. À noite, deitado em minha
rede de caroá, sentia-me nas
brenhas do sertão onde nasci. Como
não gosto de ar condicionado,
costumava dormir com as janelas
abertas. O medo não me tirava o
sono.
Tudo ia muito bem até o
dia em que surpreendi, entre tufos
de helicônias, um indivíduo que,
tendo furtado o animal de estimação
de um vizinho, escondera-se
justamente no meu quintal. Por
pouco, não me acusaram de acoitar
bandidos em minha casa. A
contragosto, resolvi construir um
muro civilizado, se é que essa
coisa existe. Um muro baixo, de
tijolos aparentes, rústico e belo.
Em pouco tempo, a rua
ganhou novas edificações,
calçamento, água e até rede de
esgoto. Foi o suficiente para
atrair os indesejáveis “visitantes”
que, sem o nosso consentimento,
apropriavam-se do que nos
pertencia. Os vizinhos, apavorados,
resolveram construir cercas
elétricas. Assim, de um dia para
outro, vi-me meio cercado, refém do
medo dos outros. Não demorou muito
para que eu descobrisse que, sem
cerca elétrica no muro da frente,
minha casa tornou-se o alvo
preferencial dos larápios. Tentei
resistir, mas acabei vencido pelos
fatos. No ano passado, no meio da
noite, dois pivetes – 14 e 16,
respectivamente – entraram em minha
casa, arrombaram meu carro e, por
pouco, não me converteram em
notícia ruim. Naquela noite, os
dois “visitaram” 8 casas, algumas
delas cercadas de toda a
parafernália vendida pela indústria
do medo. O mais novo deles já foi
detido 17 vezes. É inteligente,
cínico e violento. Se necessário,
barbariza, certo da impunidade que
lhe garante o Estatuto da Criança e
do Adolescente.
Cansado, vencido,
acovardado, fui obrigado a
“proteger-me” com cercas elétricas.
Finalmente, tornei-me prisioneiro
do meu próprio medo. A partir de
agora, depositarei, mensalmente,
aos pés do deus pavor, o meu
dízimo. O Poeta tinha razão: um dia
“morreremos de medo/e sobre
nossos túmulos nascerão flores
amarelas e medrosas.”
Cineas Santos
Professor |