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Tenho
um amigo estúrdio, especialista em
engendrar teses de difícil
comprovação. Uma delas: “A morte é
má, invejosa e burra: leva primeiro
os melhores”. Como não tenho
comércio com a morte, falta-me
autoridade para contestá-lo. De
qualquer forma, passei a prestar
mais atenção nas tiradas do
cidadão depois que a indesejada
das gentes, no mesmo dia, de
uma foiçada, subtraiu-me dona
Purcina e Paredão, duas das pessoas
que mais amei na vida.Eu teria
acompanhado os dois , “sem
saudades, pena ou ira”, como queria
Faustino no poema “Romance”. Mas a
vida tem o seu próprio curso como
um rio sinuoso que desemboca no
desconhecido.
Na semana passada, a
iniludível contribuiu para dar
alguma credibilidade à teoria do
meu amigo maluco: num curto espaço
de tempo, privou-nos das presenças
luminosas de Glauco Vilas Boas e
Totó Barbosa, dois homens bons. Do
primeiro já se disse quase tudo:
jornalista, músico, compositor e
cartunista, criou uma galeria de
personagens que, de tão neuróticos
e desajustados, parecem reais.
Geraldão, Dona Marta, Zé do
Apocalipse, Edmar Bregman,
Faquinha, Cacique Jaraguá, para
citar apenas os mais conhecidos,
fazem parte do nosso dia a dia. Sem
eles, o Brasil ficou mais pobre e
mais triste. Glauco foi sacado da
vida, aos 53 anos de idade, vítima
de um alucinado que, dentro de uns
cinco anos, no máximo, estará,
outra vez, nas ruas, pronto para
barbarizar.
Melhor sorte teve Antônio
Barbosa de Miranda, o nosso Totó
Barbosa, que viveu intensamente 90
anos e saiu de cena suavemente,
cercado de filhos e amigos.
Fotógrafo, político e cantor, Totó
foi acima de tudo um boêmio alegre,
um seresteiro que enchia de beleza
as noites de Teresina no tempo em
que a cidade não precisava de
“toque de recolher” para dormir
sossegada. Gostava de Dick Farney,
de Orlando Silva, de Sílvio Caldas,
de Nelson Gonçalves, ou seja,
gostava de quem efetivamente
cantava. Sem ele, Teresina perde
muito do seu encanto provinciano.
Tive a felicidade de
conhecer os dois: o Glauco, a quem
só vi uma vez, me pareceu um puro
de espírito, um homem que
acreditava na redenção da espécie
humana. Não por acaso, fundou a
igreja Céu de Maria, ligada
ao Santo Daime. Quanto ao Totó,
aprendi a admirá-lo desde os tempos
heróicos da velha Difusora. Vivia
sempre cercado de amigos, contando
histórias, bebendo, gozando a vida.
Seu maior legado: uma família
honrada, bonita, na qual se destaca
Luíza Miranda, uma das mais belas
vozes da MPB. Coube a ela, com
serenidade e competência, dar um
toque de beleza ao sepultamento do
velho no São José, cantando “A
noite do meu bem” e “Manhãs de
Carnaval”, as canções preferidas do
Totó. Emocionados, os amigos
aplaudiram. Despedida digna de um
seresteiro.
Na hora, lembrei-me de
que, certa feita, resolvemos
homenageá-lo na Oficina da Palavra.
Totó, feliz, me chamou ao palco e
dedicou-me uma canção que falava de
cabelos grisalhos e o fez
acariciando-me a carapinha branca,
num gesto paternal e afetuoso.
Glauco e Totó personificavam a
palavra beleza. Permitam-me,
portanto, usar o velho clichê: a
vida perdeu duas belas figuras
humanas. Talvez seja oportuno
repetir Bandeira: “Tudo é
milagre./Tudo,menos a morte.
/Bendita a morte, que é o fim de
todos os milagres”.
Cineas Santos
Professor |