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José
Mindlin de saudosa memória, com a
autoridade de quem construiu uma
biblioteca com mais de 40 mil
volumes, definia sua paixão pelos
livros como uma “loucura mansa”.
Certa feita, o milionário paulista
voou do Brasil a Paris para
arrematar, pela “bagatela” de 4 mil
dólares, a primeira edição de O
Guarani, de José de Alencar.
Com dinheiro, paciência e paixão,
tornou-se o mais famoso bibliófilo
do país, fato que lhe abriu as
portas da Academia Brasileira de
Letras. Num rasgo de generosidade,
doou sua magnífica biblioteca à
Universidade de São Paulo. Um belo
gesto.
Sem a fortuna de Mindlin,
mas movido pela mesma paixão e com
ardente paciência, venho
gastando minha vida na labuta
diária de ler, editar, vender e
doar livros a mancheias, como
queria o Poeta. Curiosamente, só li
meu primeiro romance aos 17 anos de
idade, quando já poderia ter lido
os clássicos da literatura
universal. É que na minha aldeia os
livros eram tão raros quanto as
chuvas. A água que não bebi já não
me faz falta; quanto aos livros...
Mas vamos ao que ensejou esse
arremedo de crônica. Embora não
seja um bibliófilo, tenho um
punhado de livros raros. Um deles,
uma verdadeira preciosidade.
Vejamos como este livro chegou-me
às mãos.
Em 1982, em parceria com M. Paulo
Nunes, editei a Antologia
Poética de Da Costa e Silva,
organizada pelo próprio autor,
pouco antes do seu silêncio. Por
incrível que pareça, foi o primeiro
livro do nosso poeta maior editado
no Piauí. Alberto da Costa e Silva,
filho de Da Costa, ficou
felicíssimo e veio prestigiar o
lançamento da antologia em
Teresina. Acresce que, pouco tempo
depois, denunciei, na televisão, o
furto de algumas peças raras na
Casa Anísio Brito, onde funcionavam
o arquivo e a biblioteca pública. O
então secretário de cultura, em vez
de mandar apurar os fatos,
limitou-se a tentar
desqualificar-me. Como a denúncia
procedia, o cidadão resolveu
vingar-se de mim da forma mais
abjeta e rasteira: proibiu-me de
participar da organização das
festas alusivas ao centenário de
nascimento do poeta, em 1985.
Fiquei quieto no meu canto.
Para comemorar a
efeméride, o governo do Piauí
mandou editar 200 exemplares da
obra completa de Da Costa e Silva,
em papel vergé, com capa dura e
fino acabamento. Os exemplares
autografados pelos editores e
numerados de 001 a 200,
destinavam-se, naturalmente, às
altas autoridades da República.
Pois sem sair do meu canto, o
exemplar 001 veio cair em minhas
mãos sem que eu movesse uma palha.
Como sói acontecer em tais
circunstâncias, no açodamento,
alguns exemplares da obra acabaram
esquecidos numa caixa nos porões da
secretaria de cultura. Com a
mudança de governo, os livros, como
entulho descartável, foram atirados
às traças. Eram apenas cinco
exemplares e o mais raro deles, o
nº 1, foi-me doado por um servidor
humilde, que não tinha a menor
ideia do valor do presente. Ao
abrir o livro, limitei-me a dizer:
Obrigado, meu Poeta. O
cidadão sorriu e disse: “O
professor tem cada uma” e
retirou-se sorrindo. Não faltará
quem diga: “ pura coincidência”.
Eu e o Poeta sabemos que não.
Cineas Santos
Professor |