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É
impossível saber que sonhos
aninhavam-se na mente do menino
Erisvaldo quando, encarapitado num
jegue sestroso, percorria as
veredas do Saco do Engano (hoje
Santana do Piauí) onde nasceu. É
possível que se contentasse em
contemplar as aquarelas vivas
produzidas pelas borboletas nos
charcos d’água. É possível que
sonhasse apenas com a fartura que
os dedos das chuvas semeariam nos
roçados. É possível que quisesse
apenas saber o que se escondia
depois do azul que se fundia ao
cinza da caatinga... Mas um dia,
Erisvaldo encontrou uma pequena
cabaça de pescoço alongado, fez um
furo no bojo e acrescentou uma liga
de borracha, dessas de prender
dinheiro. Nascia ali uma minúscula
e tosca caricatura de violão. O
menino fez vibrar as cordas daquele
instrumento único e o som débil que
produziu fez acordar Euterpe,
deusa da música. Num átimo, sem que
ele se desse conta, a música
inundou-lhe a vida e o “condenou” a
ser um dos maiores violonistas do
Brasil.
Mas deixemos de literatice,
que o objeto dessa arenga é outro:
um comentário breve sobre a 6ª
edição do Festival Nacional de
Violão do Piauí (FENAVIPI), que
se realizou em Teresina, entre os
dias 25 e 28 de fevereiro do ano em
curso. Para começo de conversa,
hoje, o FENAVIPI é o maior festival
de violão que se realiza no país.
Quem o diz é Carlos Barbosa Lima,
com a autoridade de quem conhece
todos. Durante quatro dias, os
amantes da boa música instrumental
tiveram a oportunidade de ouvir,
conviver e aprender com músicos do
quilate de Tommy Emmanuel, Xufei
Yang, Paul Galbraight, Fábio Zanon,
Carlos Barbosa, Nicolas de Souza
Barros, Roberto Corrêa, Henrique
Annes, Nonato Luiz, Erisvaldo
Borges, Franciel Monteiro, para
citar apenas os mais famosos. Ao
todo, foram 14 concertos, 8
oficinas e 4 shows,
disputadíssimos, no Theatro 4 de
Setembro. Acrescente a isso, o 6º
Concurso Nacional de Interpretação
Violonista, que acontece no
decorrer do Festival, cujo
vencedor, desta edição, foi o
promissor Fábio Lima, de Curitiba.
As sementes do FENAVIPI
foram lançadas em 1998 quando
inauguramos o prédio da Oficina
da Palavra e trouxemos a
Teresina o violonista Turíbio
Santos para “batizar” a casa. No
rastro do mestre Turíbio, vieram
Nonato Luiz, Toninho Horta, Hélio
Delmiro, Guinga e outras feras.
Pareceu-nos que estávamos estruindo
talento com plateia pequena. Em
2004, decidimos criar o FENAVIPI,
com dois objetivos: formar plateia
para o consumo de música de
qualidade e melhorar o nível dos
músicos do Piauí. Em apenas três
meses, organizamos e realizamos a
primeira edição do festival, que já
nasceu grande. Não falaremos das
dificuldades para realizá-lo, por
uma razão simples: quem tentou
fazer algo parecido já as
conhece; quem nunca tentou não vai
acreditar. O certo é que, sob a
batuta firme do Erisvaldo Borges,
chegamos à 6º edição do FENAVIPI,
com uma constelação de estrelas de
raro brilho. Este ano, exageramos
na dose, para alegria do público.
Com o patrocínio da Prefeitura de
Teresina, e apoio da FUNDAC
e Casa do Cantador, fizemos o
festival que a cidade merece.
Quanto ao Erisvaldo Borges, se
parasse agora (e não vai fazê-lo),
já teria inscrito o seu nome na
galeria dos grandes nomes da
cultura brasileira. Não é pouco
para o menino do violão de cabaça
do Saco do Engano. Mas o garoto
cresceu e quer muito mais. Assim
seja.
Cineas Santos
Professor |