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Não faz muito tempo, abri a revista
ISTOÉ e, na seção de entrevistas,
deparei-me com a foto de um cidadão
com barba de Rasputin. A barba me
pareceu postiça; o nome do
barbudo, não. O entrevistado era
ninguém menos que o geneticista
Aubrey de Grey, da Universidade de
Cambridge. Entre outras atividades,
Aubrey preside a Fundação Matusalém
cujo foco de pesquisa é o combate
ao envelhecimento dos seres
humanos. Sem medo de comprometer
sua reputação, o cientista afirma
que “Em cinquenta anos não vai mais
haver definição para expectativa de
vida. Teremos um controle tão
completo do envelhecimento que as
pessoas viverão indefinidamente”.
Para o sábio inglês, num futuro
próximo, qualquer ser humano
poderá, sem problema algum, chegar
a mil anos de existência. A
explicação: a exemplo do que
acontece com um automóvel, basta
fazer a manutenção correta, usar o
combustível adequado, trocar as
peças danificadas no momento certo
e o carro estará sempre novo. Mais
didático, impossível. O
neurocientista Anders Sandberg, de
Oxford, está disposto a cooperar:
propõe-se a fazer uma espécie de
download do pensamento humano.
Assim sendo, o cérebro se
comportaria como um software,
com todas as funções originais. O
futurologista americano, Ray
Kurzweil, com sua autoridade de
guru dos letrados, garante que, “em
duas décadas, os nanorobôs vão
fazer as mesmas funções que as
nossas células ou tecidos, mas com
precisão infinitamente maior”.
Sintetizando: no futuro, só morrerá
quem quiser. Nessa altura do
campeonato, meus três leitores
estarão se perguntando: “O ancião
endoidou?”. Eu vos asseguro que
não: tudo isso e mais coisas
encorpam as páginas da
Superinteressante de
fevereiro. É só consultar.
Enquanto lia a
reportagem de capa da Super,
ocorreu-me a lembrança de um poema
de Drummond - “O sobrevivente” –
publicado em 1930. Lá pelas tantas,
afirma o poeta: “Há máquinas
terrivelmente complicadas para as
necessidades mais simples./Se quer
fumar um charuto aperte um
botão./Paletós abotoam-se por
eletricidade./O amor se faz pelo
sem-fio./Não precisa estômago para
a digestão”. A ideia desse
admirável mundo novo não parece
fascinar o Gauche de Itabira,
que afirma: “Mas até lá,
felizmente, estarei morto”.
Drummond comporta-se como um
verdadeiro vate e conclui,
pessimista: “Os homens não
melhoraram/ e matam-se como
percevejos./Os percevejos heróicos
renascem./Inabitável, o mundo é
cada vez mais habitado/ E se os
olhos reaprendessem a chorar, seria
um segundo dilúvio”.
Drummond pôs o dedo na
ferida: “inabitável, o mundo é
cada vez mais habitado”.
As estatísticas indicam que, em
menos de 50 anos, o exaurido
planeta Terra terá nada menos de
dez bilhões de bocas para
alimentar. Diante de desafio de tal
monta, os sociólogos já pensam em
exumar as teorias do velho Malthus:
a humanidade morrerá de fome. O
cientista James Lovelock, autor de
A Vingança de Gaia, garante
que, nesse ritmo, antes do final do
século 21, 80% da população do
Planeta terá desaparecido. “A vida,
como a concebemos hoje, será
praticamente impossível”, afirma.
Não é preciso ser muito inteligente
para perceber que essa equação não
fecha. Há uma pergunta que não quer
calar: - Em que planeta viverão os
terráqueos imortais?
Como não
sou egoísta, prometo ceder meu
lugar, no momento oportuno, a quem
se habilitar a ocupá-lo. E fecho
esta arenga com outro poeta
mineiro, Murilo Mendes: “Tenho
pena dos que vão nascer”.
Cineas Santos
Professor |