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Mesmo
na penumbra, percebi que o banheiro
estava limpo: o cheiro de eucalipto
o confirmava. De repente, levanto a
vista e descubro, na parede
frontal, uma mancha escura, feia,
disforme. Dir-se-ia um pequeno
trapo sujo grudado no azulejo.
Acesa a lâmpada, a mancha ganhou
vida: era uma borboleta preta, uma
autêntica escalapha odorata,
se não me trai o São Google.
Além de pouco decorativas, as
borboletas pretas sofrem de uma
enfermidade rara e mortal:
desorientação congênita. Explico:
são capazes de adentrar qualquer
espaço por frinchas minúsculas, mas
incapazes de sair, mesmo que portas
e janelas estejam escancaradas. Uma
vez dentro do espaço, tonteiam pelo
ar como anjos bêbados, debatem-se
às cegas e se esfacelam, liberando
as minúsculas escamas que lhes
recobrem as asas: sujam tudo. Não
bastasse isso, são vulgarmente
conhecidas como “bruxas”. Reza a
crendice popular que anunciam maus
presságios. Decididamente, não são
bem-vindas, razão por que, mal se
mostram, transformam-se em repasto
de formigas.
Instintivamente, peguei uma toalha
molhada e decidi eliminá-la com um
golpe certeiro antes que ela
sujasse o banheiro recém-lavado. A
bem da verdade, cheguei a levantar
o braço. Mas me contive: de
repente, ocorreu-me a lembrança de
um dos capítulos mais belos de
Memórias Póstumas de Brás
Cubas, obra-prima de Machado de
Assis. O título é justamente “A
borboleta preta”. Não resisto à
tentação de transcrever um
fragmento:
“...Dei de ombros,
saí do quarto; mas retornando lá,
minutos depois, e achando-a ainda
no mesmo lugar, senti um repelão
dos nervos, lancei mão de uma
toalha, bati-lhe e ela caiu.
Não caiu morta; ainda
torcia o corpo e movia as farpinhas
da cabeça. Apiedei-me; tomei-a na
palma da mão e fui depô-la no
peitoril da janela. Era tarde; a
infeliz expirou dentro de alguns
segundos. Fiquei um pouco
aborrecido, incomodado.
- Também por que diabos
não era ela azul? disse comigo.”
Brás Cubas, personagem
que dá título ao romance, era um
pequeno-burguês cínico, inútil e
dado a filosofices. Depois de matar
a borboleta preta, tenta justificar
o gesto engendrando uma teoria que
efetivamente não se sustenta.
Quanto ao texto em si, apenas
demonstra o já sabido: Machado,
como um verdadeiro alquimista,
transformava episódios banais em
excelente literatura.
Enquanto “desbebia”
sossegadamente, contemplei a
borboleta e fiz uma reflexão
pueril, digna do Brás Cubas.
Os latinos tinham razão: “a arte
serve à vida”, mesmo que seja a
vidinha errante e efêmera de um
inseto repulsivo. Assim,
graças à excelência da prosa do
Bruxo do Cosme Velho, uma
borboleta preta ganhou o direito de
continuar em sua vadiice pelos céus
de Teresina.
Cineas Santos
Professor |