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Constatei, com uma pontinha de
alívio, que a figura mais “notável”
de Campo Formoso, que nem existe
mais, não sou eu. Trata-se de um
certo Pedro José de Sousa que, por
suas reinações, ganhou a adequada
alcunha de Pedro Macaquinho.
Menino ainda, Pedro se deu conta de
que não tinha a menor vocação para
puxar cobra para os pés, preso ao
rabo de uma enxada. Num descuido da
família, azulou no mundo e foi
cumprir sua sina. Analfabeto, sem
maior qualificação, descobriu que o
próprio corpo poderia ser um
excelente instrumento. Simples:
punha a mão esquerda na cova da
axila direita e, movimentando o
braço, marcava o ritmo do xote
“O Cheiro de Carolina”, sucesso de
Luiz Gonzaga. Foi nessa época que o
agraciaram com o rótulo
Macaquinho.
Excelente ritmista,
tornou-se zabumbeiro do Mané
Vicente, que ganhava a vida
judiando de uma pé-de-bode ranheta.
Sempre que o sanfoneiro parava
para entornar uma talagada de cana,
Macaquinho abarcava a
sanfoninha e mandava ver. Acabou
aprendendo o mínimo; o mais correu
por conta de sua intuição.
Tornou-se presença obrigatória em
feiras, quermesses, leilões,
desobrigas, circos e funções.
Sentou praça no Canto do Buriti e
se fez showman: canta,
dança, improvisa e conta piadas. O
público o adora. Mas sua carreira
artística tem sido marcada por um
problema crônico: só querem pagar
ao Macaquinho com cachaça.
Dinheiro, que é bom, nada. Como
qualquer macaco que se preze, entre
uma reinação e outra, o
Macaquinho fazia um filho.
Família crescendo, dinheiro curto,
as coisas se complicaram. Pequeno
ainda, os macaquinhos do
Macaquinho passaram a ajudá-lo:
tornaram-se todos sanfoneiros e
ritmistas. Nascia o conjunto “Pedro
e seus Macaquinhos”. Um dos
garotos, o Walmir, é um sanfoneiro
de grandes recursos técnicos.
A parceria com os meninos
rendeu alguns frutos, mas a grana
continua curta, e o tempo começa a
maltratar o nosso bravo macaco.
De repente, aquele novelo de
encrencas, que atende pelo nome de
próstata, começou a incomodá-lo.
Pedro teve de diminuir o ritmo de
trabalho, fazer tratamento, gastar
o que não tinha. A magra
aposentadoria que recebe não lhe
garante a sobrevivência com um
mínimo de dignidade. Foi aí que
pintou a ideia de lançar um CD
artesanal, mas realizado com
cuidado e capricho. O CD traz o
instigante título de The best of
Pedro Macaquinho, com um
punhado de canções, entre elas as
clássicas “Delita” e “De
madrugada no calor do frio”, uma
versão light, já que a
original , down, é imprópria
para menores de 78 anos de idade.
Sucesso absoluto: o CD vende mais
que farinha nas feiras do Ceará.
Sucesso e encrenca: segundo fui
informado pelo sanfoneiro, pelo
menos duas lojas de discos de Canto
do Buriti clonaram o CD e passaram
a vendê-lo sem autorização do
Macaquinho, ou seja, furtam-lhe
a única coisa que tem para
sobreviver. Sem ter a quem
recorrer, Pedro veio me pedir
ajuda.
Denunciei o fato no
programa Feito em Casa e o
faço agora nas páginas de O Dia.
Se a pirataria continuar, irei ao
Canto do Buriti, denunciar os
criminosos ao promotor da cidade.
Não tenho poderes para ir além. De
qualquer forma, tenho o dever de
tentar ajudar aquele humilde
cidadão que, com sua arte feita de
pura intuição, destronou-me do
incômodo posto de única
“celebridade” de Campo Formoso.
Cineas Santos
Professor |