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Inicia-se esta arenga com a velha
anedota do cidadão (chamemo-lo
Cipriano ) que, honesto,
trabalhador, benquisto e respeitado
de todos, era um exemplo de bom
cidadão na cidadezinha onde morava.
Atormentava-o, porém, um temor, um
medo, um pavor, para ser mais
preciso. Horrorizava-se com a ideia
de não ter um sepultamento digno,
ou seja, com um número razoável de
acompanhantes. Dizia aos quatro
ventos: “Defunto sem velório é cão
sem dono”. E sofria, sofria como um
condenado. Foi aí que um amigo
industrioso apresentou-lhe uma
sugestão: “Compadre Cipriano, vamos
tirar isso a limpo: você morre de
mentirinha e vamos ver o que
acontece”. Ideia aceita e posta em
prática: o próprio compadre
encarregou-se de divulgar a má
notícia. Comoção geral: a cidade
inteira e mais alguns forasteiros
compareceram ao “velório” de
Cipriano que, teso no caixão, a
tudo assistia com o maior
comprazimento. O compadre, ao lado
do ataúde, protegia o “morto” dos
olhares indiscretos e despistava os
mais curiosos. O ritual se cumpria:
café, cachaça, prosa moderada,
louvação às qualidades morais do
“defunto”. Lá pelas tantas, o
compadre segredou: “Hora de
levantar, compadre: já vão fechar o
caixão”. Cipriano sem abrir os
olhos, respondeu baixinho: “Tá
maluco, compadre! Você acha que vou
estragar um enterro de tal
grandeza?”. E mais não disse, pois
sobre ele desceu a noite com a
tampa do caixão.
José Elias Arêa Leão, que
tem todos os atributos do finado
Cipriano, não precisou passar por
experiência tão radical para provar
o quanto é querido em sua aldeia.
Deu-se que, na semana passada,
morreu um xará do Zé Elias. Um
radialista apressado, à cata de um
furo, jogou no ar a má notícia que
caiu como uma bomba na cabeça de
todos nós. Num átimo, telefonemas,
e-mails, bilhetes puseram a Chapada
em polvorosa. Até a dona Maria da
Inglaterra abalou-se de sua casa,
na periferia da cidade, para velar
e prantear o nosso Menino
Maluquinho. Atônitos e
consternados, todos perguntávamos:
“Por que o Zé Elias?”. A pergunta
se justifica: se existe alguém em
Teresina que mereça ser condenado à
imortalidade eterna (perdoem a
redundância) é justamente ele.
Setentão, continua lépido, alegre,
solidário, irreverente e traquinas
como convém a um menino que, para a
alegria dos adultos, se esqueceu de
crescer.
No fundo, o que
esperávamos mesmo era um milagre. E
o milagre aconteceu: lá pelas
tantas, com sua gaitada
inconfundível e com seu passo de
pato manco, ressurgiu o Zé Elias,
rindo da morte anunciada. Não foram
poucos os que, a exemplo de Tomé,
fizeram questão de tocar-lhe o
corpo para certificar-se de que
nosso menino velho continua vivo.
Já se
disse, com alguma razão, que nenhum
homem é maior que a sua época, mas
é inegável que alguns, com seu
trabalho, com seu talento, com sua
presença luminosa, são capazes de
tornar menos ruim a época em que
viveram. José Elias Arêa Leão é um
deles. Se toda unanimidade é burra,
como queria Nelson Rodrigues, está
explicado o porquê da ausência de
capim-de-burro nos arredores de
Teresina: os que amamos o Zé Elias
comemos tudo. Longa vida ao
Maluquinho do
Piauí.
Cineas Santos
Professor |