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Durante alguns anos, tive um
carrinho peba, ronceiro, sestroso
que, justo por esses atributos,
ganhou a alcunha de “jumentinho”.
Vez que outra, em momento de maior
necessidade, o ordinário me deixava
na mão. Ainda assim, na hora de me
desfazer do condenado, senti uma
pontinha de tristeza. Como o
carrinho era azul, julguei ser o
motivo do apego. Não era. Na
verdade, o que me ligava ao
caranguinho era a placa: LVO –
0564. No desenrolar dessa arenga,
vocês entenderão.
Dia
de Reis, no Shopping
da Cidade, eu participava,
com vivo entusiasmo, da festa
organizada pelo professor Vagner
Ribeiro. De repente, durante a
apresentação do Reisado de
Mãe Feliciana, um dos mais
antigos de Teresina, fui abordado
por um cidadão humilde, idade
inescrutável, com aquele ar de
quem não foi acariciado pela vida.
Maneiroso, pediu licença para
aproximar-se, elogiou a iniciativa
da festança (lembram-se daquela
sensação do álcool na pele antes da
picada da agulha?) e gaguejou: -Professor,
eu gosto muito de reisado; sou do
interior e acompanhava essa
brincadeira quando era menino...
Preparei-me para a facada. -
Parei pra apreciar a brincadeira,
deixei minha bicicleta ali na
porta, com minhas ferramentas na
garupa e veja o que sobrou dela!
Com ar compungido, exibiu o arco de
um cadeado pequeno, o arco sem o
cadeado, naturalmente. – Veja o
senhor: a gente para pra assistir
uma festa de santo e vem um
malfazejo e leva o pouco que a
gente tem... Agora tô aqui
precisando de uma passagem pra
voltar pra minha terra... Antes
de cair no choro, o que me
estragaria a maquilagem, saquei os
caraminguás que trazia no bolso e
entreguei-lhe. Num átimo, o cidadão
soverteu-se na multidão. Com seus
botões, deve ter dito:
engabelei mais um
otário...
O ruim dessa história é
saber que está sendo depenado
e não conseguir safar-se. Certa
feita, em Salvador, resolvi
conhecer a tão decantada Lagoa do
Abaeté. Bruta decepção! Na verdade,
o trem não passa de um barreiro
escuro, cercado de areia branca.
Nem tive tempo de curtir meu
desapontamento. Fui encurralado por
um enxame de ciganas, todas
devidamente caracterizadas, com
aquela prosa preguiçosamente
envolvente: “com azeite de
dendê, não vai doer nada, meu rei”
... Tentei vãmente
desvencilhar-me da horda que, como
hienas famintas, me cercavam por
todos os lados. Uma me falou de “uma
loura maldosa que só quer o seu
dinheiro”; a outra, de “um
sócio que está lhe roubando”,
etc. Quando me liberartaram, eu
estava literalmente na lona.
Retiraram-se cantando uma toada
alegre e, naturalmente,
comemorando a féria conseguida à
custa de mais um otário...
Ao longo da vida tem sido
assim: pressinto a facada,
mas não consigo evitá-la.
Aparvalhado, acovardado, deixo-me
explorar sem reação como uma
criança indefesa.
Antes que
me perguntem onde a placa do
carrinho entra nessa história,
lembrem-se das letras LVO. Pois é:
um amigo gozador decifrou o enigma
com a mais absoluta propriedade:
“Lá Vai o Otário”. Como diria meu
irmão mais lúcido,
cada um para o que
nasce...
Cineas Santos
Professor |