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Ao
longo dos últimos 60 anos, ou seja,
durante toda a minha existência,
sempre tive o cuidado de manter
prudente distância do poder. E nem
vou invocar o Lord Acton, que
afirmava: “O poder tende a
corromper”. O poder simplesmente
não me atrai nem me fascina, a não
ser o poder de divino, pleno,
ilimitado. Parafraseando Paul
Valéry, só o poder absoluto tem
encanto. Mas deixemos de
erudição barata, que o chão é minha
praia. Convidado pelo Dr. Sílvio
Mendes a integrar sua equipe de
governo à frente da Fundação
Municipal de Cultura Mons.Chaves,
tive o cuidado de adverti-lo:
Senhor Alcaide, acredito que sirvo
melhor ao município de Teresina
longe de qualquer instituição
pública.O prefeito não me ouviu
e aqui ( ainda) estou.
Dirigir
a FMC é uma experiência complicada,
para dizer o mínimo. Antes mesmo de
sentar-me na cadeira da
presidência, já um coro de
ensandecidos pedia a minha cabeça.
Em um ano de serviço público, já
peguei mais cipoadas que durante
toda a minha vida. Basta
contrariar algum interesse,
legítimo ou não, para que chovam
bordoadas. Como me falta jogo de
cintura, não consigo esquivar-me.
Assumi
a presidência da FMC num ano
difícil: a crise rondava as
prefeituras do país, exigindo
prudência, cortes, prudência e
muita responsabilidade. A despeito
disso, cumprimos rigorosamente o
Calendário Cultural da Fundação e,
sem estourar o orçamento, iniciamos
alguns projetos bem-sucedidos.
Ressuscitamos o Projeto
Picoler, de grande alcance
social; incorporamos o
Festival Nacional de Violão do
Piauí à programação da FCM;
instituímos o Festival de
Música de Teresina, cuja
primeira edição se realizou
no aniversário da cidade; criamos
os projetos Música na Praça,
Arte Itinerante e
Teresina Visita, todos
funcionando regularmente. É
escusado afirmar que pretendíamos
fazer mais, muito mais. Fizemos
apenas o possível.
Em
meio a muitos aborrecimentos,
tivemos algumas alegrias: ampliamos
o número de alunos inscritos nos
projetos Musicalizando
e Violão na Escola: hoje são
mais de 700 crianças inscritas nos
projetos; 50 delas, as mais
adiantadas, já integram a
Orquestra de Violões de Teresina.
Impossível não esquecer a
experiência do garoto Leonardo de
Cáprio ( 9 anos de idade), que
trocou um cabo de vassoura por um
violão e, em menos de uma no de
estudo, já toca por partitura.É
comovente e animador, ver duas
garotas, de 11 e 9 de anos idade,
tocando sax e
trompete,respectivamente, numa das
bandas juvenis mantidas pela FMC.
Estamos contribuindo para elevar a
autoestima da molecada mais
necessitada.
Mas
as provocações persistem. Na semana
passada, um repórter me fez a
seguinte pergunta: - O que você
vai fazer quando deixar a
presidência da fundação?
Resolvi dar o nó nos neurônios do
impertinente. Respondi: Como
faço há 40 anos, vou continuar
briquitando em defesa da face
luminosa do Piauí sem ter de aturar
as aleivosias de néscios e
apedeutas do seu jaez. Consta
que, desarvorado, o infeliz
regressou à redação do jornal onde
trabalha, gritando:
Meu reino por um
Aurélio!
Cineas Santos
Professor |