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Inicio essa arenga com uma
advertência: escrevo este arremedo
de crônica antes do jogo Brasil X
Argentina. De qualquer forma,
independentemente do resultado da
partida, vale o que está escrito:
não retiro uma vírgula.
1958. Eu tinha exatos dez
anos de idade e não passava de um
garoto meio estúrdio com o estranho
hábito de conversar com o vento e
campear nuvens magras no céu azul
de São Raimundo Nonato. À época, o
vírus do futebol já fora inoculado
em mim: cicatrizes tatuavam-me a
pele. Mais que um brinquedo, a bola
era uma réplica, em miniatura, do
mundo. E o mundo acabava logo ali
depois do açude. Viver quase não
doía.
Vai que, numa tarde de
junho, ao passar na frente da casa
de um dos “ricaços” da cidade, vi
uma cena insólita: em torno de um
rádio, homens sérios,
trabalhadores, honestos, abraçados,
pulando, gritando como loucos. Um
tanto ressabiado, aproximei-me e
pesquei um fiapo daquela euforia: a
“seleção canarinho” acabava de
derrotar um time de gigantes
louros, de olhos azuis, do outro
lado do mundo. Fiquei sabendo que
um garoto, que atendia pela alcunha
de Pelé, desmoralizara a lógica em
benefício da alegria. Ouvi de seu
João, o sapateiro que lambia sola,
o comentário estranho: “Esse
moleque tem pauta com o tinhoso”.
Decididamente, aquele assunto
estava acima da minha compreensão.
Uma semana depois, O
Cruzeiro, única publicação que
chegava àquele fim de mundo,
estampava a foto dos “heróis da
conquista”. Em pé: Djalma Santos,
Zito, Belini, Nilton Santos,
Orlando, Gilmar; agachados:
Garrincha, Didi, Pelé, Vavá e
Zagalo. Com exceção de Belini, o
zagueiro de ar apolíneo, nenhum
deles tinha cara de herói. Pelé,
por exemplo, mais parecia um menino
assustado numa festa de gente
grande. Com o tempo, passei a
conviver com as histórias que
cercavam aqueles “os guerreiros
que livraram, de vez, o brasileiro
do complexo de vira-lata”, como
afirmava o cronista. Fiquei
sabendo que Didi era um “príncipe
etíope”, capaz de mudar a
trajetória da bola com um chute
enviesado denominado folha seca.
Nilton Santos, com jeitão de
xerife, “a enciclopédia do
futebol”. Garrincha, para quem todo
adversário era um João, um
“anjo de pernas tortas”. Quanto ao
garoto de ar assustado, seria
apenas o eterno “ rei do futebol”.
Em 62, a seleção
brasileira firmou-se como uma
equipe de vencedores, e o amarelo
do uniforme, por si só, já era
suficiente para “amarelar” os
adversários mais aguerridos. Em 70,
conquistamos definitivamente a
Jules Rimet , mais tarde
furtada e derretida por três
ladrões de galinha. Aprendemos a
ganhar e, mesmo sem o brilho de 58
e 70, chegamos ao penta.
Ao ver a
seleção brasileira derrotada e
humilhada por Venezuela e
Paraguai, pensei comigo: depenaram
a canarinho. Sobraram as
penas dos torcedores... É um
timinho formado por moleques ricos,
deslumbrados com a glória, a
serviço das multinacionais do
esporte. Não pude resistir a um
exercício contábil: com o salário
mensal do garoto Anderson (aquele
das trancinhas) seria possível
pagar, com folga, a todos os
craques da seleção de 58. Como
exigir desses pobres meninos ricos
que joguem alguma coisa se estão
cegos pelos holofotes e acossados,
fora de campo, pelas marias
chuteiras? Sejamos razoáveis:
com toda aquela grana, qualquer um
de nós faria mais besteiras do que
eles, dentro e fora dos gramados.
E, como dizem os cambistas,
o jogo é jogado.
Cineas Santos
Professor |