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Um pouco sobre mim

Cineas das Chagas Santos nasceu em Campo Formoso, município de Caracol (PI), em setembro de 48. Vive em Teresina desde 65. Professor, editor e livreiro, fundou, com alguns companheiros de geração, o jornal alternativo “Chapada do Corisco” (76/77). É proprietário da Oficina da Palavra e coordena o grupo A Cara Alegre do Piauí. Publicou: Miudezas em Geral (poesia); Tinha que Acontecer (contos); ABC da Ecologia (cordel); Aldeia Grande (humor) e o Menino que Descobriu as Palavras (infantil).

 


Canarinho depenado

cineasantos@hotmail.com


Inicio essa arenga com uma advertência: escrevo este arremedo de crônica antes do jogo Brasil X Argentina. De qualquer forma, independentemente do resultado da partida, vale o que está escrito: não retiro uma vírgula.

 

          1958. Eu tinha exatos dez anos de idade e não passava de um garoto meio estúrdio com o estranho hábito de conversar com o vento e campear nuvens magras no  céu azul de São Raimundo Nonato. À época, o vírus do futebol já fora inoculado em mim:  cicatrizes tatuavam-me a pele. Mais que um brinquedo, a bola era uma réplica, em miniatura, do mundo. E o mundo acabava logo ali depois do açude. Viver quase não doía.

 

            Vai que, numa tarde de junho, ao passar na frente da casa de um dos “ricaços” da cidade,  vi uma cena insólita: em torno de um rádio, homens sérios, trabalhadores, honestos, abraçados, pulando, gritando como loucos. Um tanto ressabiado, aproximei-me e pesquei um fiapo daquela euforia: a “seleção canarinho” acabava de derrotar um time de gigantes louros, de olhos azuis, do outro lado do mundo. Fiquei sabendo que um garoto, que atendia pela alcunha de Pelé, desmoralizara a lógica em  benefício da alegria. Ouvi de seu João, o sapateiro que lambia sola, o comentário estranho: “Esse moleque tem pauta com o tinhoso”. Decididamente, aquele assunto estava acima da minha compreensão.

 

            Uma semana depois, O Cruzeiro, única publicação  que chegava àquele fim de mundo, estampava a foto dos “heróis da conquista”. Em pé: Djalma Santos, Zito, Belini, Nilton Santos, Orlando, Gilmar;  agachados: Garrincha, Didi, Pelé, Vavá e Zagalo. Com exceção de Belini,  o zagueiro de ar apolíneo, nenhum deles tinha cara de herói. Pelé, por exemplo, mais parecia um menino assustado numa festa de gente grande. Com o tempo, passei a conviver com as histórias que cercavam aqueles  “os guerreiros que livraram, de vez, o brasileiro do complexo de vira-lata”, como afirmava o cronista.  Fiquei sabendo que Didi era um “príncipe etíope”, capaz de mudar a trajetória da bola com um chute enviesado denominado folha seca. Nilton Santos, com jeitão de xerife, “a enciclopédia do futebol”. Garrincha, para quem todo adversário era um João, um “anjo de pernas tortas”. Quanto ao garoto de ar assustado, seria apenas o eterno “ rei do futebol”.

 

            Em 62, a seleção brasileira firmou-se como uma equipe de vencedores, e o amarelo do uniforme, por si só, já era suficiente para “amarelar” os adversários mais aguerridos. Em 70, conquistamos definitivamente a Jules Rimet , mais tarde furtada e derretida por três ladrões de galinha. Aprendemos a ganhar e, mesmo sem o brilho de 58 e 70, chegamos ao penta.  

 

            Ao ver a seleção brasileira derrotada e humilhada por Venezuela e  Paraguai, pensei comigo: depenaram a canarinho. Sobraram as penas dos torcedores... É um timinho formado por moleques ricos, deslumbrados com a glória, a serviço das multinacionais do esporte. Não pude resistir a um exercício contábil:  com o salário mensal do garoto Anderson (aquele das trancinhas) seria possível pagar, com folga, a todos os craques da seleção de 58. Como exigir desses pobres meninos ricos que joguem alguma coisa se estão cegos pelos holofotes e acossados, fora de campo, pelas  marias chuteiras? Sejamos razoáveis: com toda aquela grana, qualquer um de nós faria mais besteiras do que eles, dentro e fora dos gramados. E, como dizem os cambistas, o jogo é jogado.

Cineas Santos

Professor

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Está coluna é de inteira responsabilidade do colunista Cineas Santos