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A
rede, como qualquer pessoa
saudavelmente preguiçosa sabe, foi
a maior contribuição que os índios
nos legaram. Graças a ela, passamos
mais tempo pensando que fazendo
bobagens. É simples: quanto mais
tempo passarmos deitados, menos
danos causaremos aos nossos irmãos,
à Natureza, ao Planeta... Mas isso
será tema de outro arremedo de
crônica em futuro próximo. O objeto
dessa arenga é outro.
Há
coisa de três anos, o poeta Paulo
Machado, irmão e amigo,
presenteou-me com uma bela rede,
larga, generosa e acolhedora como
um colo materno. Feita sob
encomenda por mãos peritas, tem
varandas de crochê e tudo mais. Não
bastasse isso, ostenta as cores do
brioso Mengão. Uma rede supimpa,
diriam os antigos. Presente de tal
monta só poderia ser usado em
momento festivo. E o momento se me
apresentou quando minh’alma andava
meio embaçada pela tristeza. Uma
cabeçada certeira de um zagueiro,
cuja carreira quase se encerrou de
modo trágico, e a bola foi
aninhar-se, carinhosamente, no
fundo da rede. Num átimo, a nação
rubro-negra contagiou com sua
alegria transbordante todas as
almas sensíveis dessa República
enxovalhada por escândalos de
todas as versidades. Um cometa
luminoso brilhou no céu da
pátria... Do Oiapoque ao Chuí,
o grito uníssono: “Uma vez
Flamengo/ Flamengo até morrer”!
Depois de um jejum de 17 anos, sob
o comando de Andrade, um dos
remanescentes daquela máquina de
triturar adversários, o Mengo
tornou-se hexacampeão, tendo como
principais estrelas dois jogadores
problemáticos e, para muitos,
“acabados”: Petkovic e Adriano. O
primeiro, “velho demais” para a
função de meio-campista; o segundo,
“um farrista bipolar”. Peti,
repetindo as lições de Didi e
Gérson, demonstrou que quem precisa
correr é a bola; o Imperador,
por seu turno, abiscoitou o título
de artilheiro do campeonato.
“Capricho dos deuses do futebol”,
diria um cronista paulista,
repetindo um chavão desbotado.
Como
não sou torcedor de sair por aí
atirando pedras nos adversários,
curti a conquista sem muito
barulho. Sou um flamenguista
atípico: torci (e como!) para que o
Vasco ascendesse à primeira divisão
e, principalmente, para que
Fluminense e Botafogo não fossem
rebaixados. Gosto de ver o meu time
vencer adversários fortes: ser
lobo entre cordeiros é a “glória”
dos fracos. E fraqueza não combina
conosco.
O
Flamengo já nasceu vitorioso: no
primeiro campeonato que disputou
(em 1912), com Buena, Píndaro,
Nery, Curiol, Gilberto, Galo,
Baiano, Arnaldo, Amarante, Gustavo
e Borgerth, derrotou o Mangueira
pelo placar de 16x2, levando
aquela brava gente a desistir
definitivamente do futebol para
dedicar-se ao samba. Bater em
tamborim é bem mais fácil que bater
o Mengão.
Na
noite de domingo, enquanto meus
irmãos de credo e cor desfilavam
pelas ruas da cidade, cantando e
batucando, armei minha rede
rubro-negra, “cheirando a guardado
de tanto esperar”, abri uma garrafa
de vinho e, com ardente
paciência, esperei a chuva que
se anunciava. E ela veio: suave,
silenciosa e acariciante como os
dedos da mulher amada. E meu
coração de velho, encharcado de
alegria, voltou a pulsar no ritmo
dos tombares. Como já afirmei
tantas vezes: Deus é velho, muito
velho e não abandona os Seus.
Cineas Santos
Professor |