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Tom
Jobim, que tinha uma relação
complicada com o Brasil, costumava
afirmar: “Este é um país de
amadores”, e completava o seu
desabafo com uma tirada que beirava
o escatológico. Por respeito aos
meus três leitores, não vou
reproduzi-la aqui. A improvisação,
o jeitinho e o amadorismo são
traços que distinguem essa brava
gente da maioria dos terráqueos.
Interpretar e compreender o Brasil
não é tarefa para amadores, que o
digam Darcy Ribeiro e Roberto
DaMatta, para citar apenas dois dos
que tentaram. Mas chega de erudição
barata, que o objeto dessa arenga é
o chão do chão. Falemos do que está
ao alcance do vulgo.
Dia desses, a televisão
mostrou uma cena de matar de inveja
os criadores do realismo
fantástico. Enquanto facções
criminosas digladiavam-se pelo
comando de pontos de vendas de
droga no Rio e a polícia, atônita,
distribuía balas perdidas a quem se
dispusesse a aceitá-las, uma mulher
do povo, alheia à recomendação de
manter-se distante da zona de
guerra, catava cápsulas de
balas para revendê-las, talvez, aos
próprios traficantes, se é que essa
gente utilizava cartuchos
recarregados. Com a maior
naturalidade, explicou ao repórter:
“É pra completar a merenda das
crianças”. Se os diretores de
“Cidade de Deus” ou “Salve Geral”
tivessem incluído essa cena num dos
filmes citados, não faltaria quem
os acusasse de “estarem apelando”
ou “forçando a barra”.
Duas semanas depois, no
estado mais rico da Federação,
estudantes da quarta maior
universidade do país, quase
curraram e lincharam uma cidadã
que, com um sumário vestido pink,
atiçou a libido da moçada. Não
fosse a pronta intervenção da
polícia, a moça teria sido
literalmente devorada. As cenas
registradas por alguns celulares
indiscretos bem que poderiam
ilustrar um clip da música
“A Novidade”, gravada por Gilberto
Gil, onde se conta a história de
uma sereia encalhada numa praia
brasileira e estraçalhada por
poetas e esfomeados. Em vez de
identificar e punir os agressores
da estudante, a direção da
universidade optou pela solução
mais simples: expulsar a moça, sob
a alegação de “trajar-se
inadequadamente, em flagrante
desrespeito aos princípios éticos,
à dignidade acadêmica e à
moralidade”. A ideia não poderia
ter sido mais infeliz: no mesmo
dia, o fato alcançou repercussão
internacional, o que levou a
direção da universidade a refluir.
A emenda saiu pior que o soneto: ao
fazê-lo, o reitor da escola deixou
evidente que a decisão fora
equivocada e arbitrária.
Resumo da ópera: de um
momento para outro, a moça de
vestido pink tornou-se , a
um tempo, “celebridade", com
direito a capa de revistas,
entrevistas na TV , convite para
posar nua em revistas masculinas e
"vítima" da intolerância dos
“talibãs brasileiros”. Por vias
transversas, a cidadã que, segundo
a mídia, não sai de casa “sem se
produzir” nem para ir à padaria,
atraiu os holofotes da imprensa
internacional e deixou o Brasil
muito mal na fita. Aos olhos dos
“civilizados”, parece
incompreensível o fato de o país
tentar atrair turistas, exibindo
fotos de mulheres seminuas em
praias paradisíacas ou desfiles de
escolas de samba e, na prática,
hostilizar uma jovem por causa de
um vestido um tantinho mais ousado.
Como nada entendo de nada,
recorro ao Millôr, que entende de
quase tudo: “No Brasil pode faltar
tudo, menos enredo”, em outras
palavras: aqui, qualquer um pode
morrer de bala perdida; de tédio,
nunca.
Cineas Santos
Professor |