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No final do milênio passado,
num arremedo de crônica sobre
Teresina, afirmei: ainda não é
uma grande cidade, graças a Deus.
Ainda há quintais, mangueiras,
passarinhos e meninos para
persegui-los. Remexendo o baú
de “inutensílio”, encontrei a
crônica e, consternado, constatei
que ela está bem mais velha do que
eu. A cidade de que falo parece
perdida na poeira de um passado
remoto. Hoje, eu diria: ainda não
é uma grande cidade, mas,
infelizmente, já padece de todas as
mazelas que infernizam as
metrópoles brasileiras. Trânsito
caótico, engarrafamento, poluição
sonora e visual e, principalmente,
estresse e medo. Aquele medo “que
esteriliza os abraços”, de que
falava o poeta. A cadeira na
calçada deu lugar às cercas
elétricas; a pracinha do bairro
foi trocada pela praça de
alimentação dos shopings, em
nome de uma suposta “segurança”. A
cidade, numa velocidade
desconcertante, vai perdendo aquele
ar provinciano que lhe conferia
faceirice e graça. A volúpia da
novidade parece ter-se apossado
dela com reflexos negativos. Na
calada da noite, casarões antigos
transformam-se em estacionamentos
e, a despeito disso, os automóveis
ocupam cada centímetro dos espaços
destinados aos pedestres. Hoje, é
mais fácil comprar um automóvel do
que estacioná-lo no centro da
cidade...
A exemplo de qualquer
grande cidade brasileira, nos
semáforos de Teresina, ambulantes
pedintes e malabaristas disputam as
moedinhas esquecidas no porta-lixo
dos automóveis. Para evitar o
assédio, os motoristas levantam os
vidros ou aumentam o volume do som.
À noite, já não é prudente parar em
lugar algum, mesmo que isso
implique o risco de multa pesada:
melhor perder ponto na carteira
que a vida. Um amigo cínico
explica tudo com sua lógica
enviesada: “somos todos reféns da
barbárie civilizada”. Falta-me
autoridade para contestá-lo.
Mas o propósito dessa
arenga não é denunciar o óbvio nem
lamentar o que já se perdeu. Quero
apenas registrar uma prática
lúdica, lírica e espontânea que,
pelo menos duas vezes por semana,
se repete na Praça do Marquês. Ali,
nos finais de tarde, um grupo de
garotos de idades variadas (de 8
a 17 anos) se reúne regularmente
para praticar um pouco de
ginástica: saltos mortais,
cambalhotas, brincadeiras. Os mais
experientes orientam os mais jovens
que, a cada conquista, vibram como
se estivessem conquistando pontos
numa olimpíada imaginária. Quando
erram, repetem o salto com
aplicação e redobrado esforço. Como
sinal de aprovação, recebem
tapinhas dos companheiros.
Normalmente, os transeuntes
apressados não param para
aplaudi-los; é possível que nem se
deem conta da presença daqueles
moleques vadios que, nas tardes de
chumbo de Teresina, dão cambalhotas
pra ninguém.
Às vezes, paro e fico
espiando as estripulias daqueles
garotos pobres que, indiferentes
ao rugido furioso dos automóveis,
apenas brincam como deveriam
brincar todas as crianças da
cidade: ao ar livre, sem o olho
vigilante dos pais.
Espiritualmente, brinco um pouco
com eles enquanto, “sem querer
saber de mim, a tarde desce”...
Cineas Santos
Professor |