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Um pouco sobre mim

Cineas das Chagas Santos nasceu em Campo Formoso, município de Caracol (PI), em setembro de 48. Vive em Teresina desde 65. Professor, editor e livreiro, fundou, com alguns companheiros de geração, o jornal alternativo “Chapada do Corisco” (76/77). É proprietário da Oficina da Palavra e coordena o grupo A Cara Alegre do Piauí. Publicou: Miudezas em Geral (poesia); Tinha que Acontecer (contos); ABC da Ecologia (cordel); Aldeia Grande (humor) e o Menino que Descobriu as Palavras (infantil).

 


Um homem particular

cineasantos@hotmail.com


Foto: Jornaldepoesia
 
  Poeta piauiense H. Dobal  

      1976: numa dessas tardes de chumbo que tornam Teresina quase insuportável, decidi entrevistar o poeta H. Dobal. Armado de um gravador Juruna, desloquei-me até a casa da irmã dele, Verbena Dobal, sem saber exatamente  por onde começar. Eu conhecia a obra do poeta; o cidadão Hindemburgo Dobal Teixeira, não. À época, Dobal residia em Brasília e encontrava-se em Teresina a passeio. Pela  dicção marcante, esperava encontrar um homem forte, resoluto, decidido. Eis que me aparece um cidadão frágil, introspectivo, quase tímido. A conversa não fluiu: entrevista não vingou. A cada pergunta, Dobal respondia com um monossílabo, ainda assim arrancado a fórceps. Com algum esforço, pesquei duas afirmações bastante elucidativas. Sobre o título do livro A Província Deserta, publicado dois anos antes e que provocara certo mal-estar entre os intelectuais piauienses, o poeta foi taxativo: “Sou um piauiense 100%, desses que dizem: 'está bonito pra chover', mas a minha província é o universo". Percebi, naquele momento, o grau de consciência que o poeta tinha da dimensão de sua obra. Melhor que ninguém, parecia ter assimilado a clássica lição de Tolstoi: se queres ser universal, canta bem a tua aldeia. Os motivos de sua poesia estavam fincados no Piauí, mas o alcance de sua voz ia muito além.

 

         A segunda resposta foi ainda mais esclarecedora. Quando lhe perguntei por que demorara tanto para lançar seu primeiro livro (O tempo Consequente - 1966) se já escrevia poemas desde a década de 40, afirmou: "Decidi que só publicaria um livro quando já não precisasse da opinião de ninguém para fazê-lo". Não era arrogância nem uma atitude pretensiosa. Dobal sabia exatamente o que queria. Tanto sabia que Odylo Costa Filho, autor do prefácio do seu livro de estreia, tentou convencê-lo a usar uma vírgula nos versos: "E lentamente vamos transformando/ a agitação maturação de sonhos", no poema "Tempora". O Dobal  ignorou a sugestão.

         Quando, finalmente, o poeta mudou-se para Teresina e nos tornamos amigos, entendi o porquê do fracasso daquela primeira entrevista: Dobal não suportava ser o centro das atenções. O que tinha a dizer estava dito – muito bem dito – nos poemas que escreveu. Nesse particular, fechava com Quintana a quem admirava: "Toda confissão não transfigurada pela arte é uma canalhice".

 

         Certa feita, num dos passeios que fazíamos pela periferia de Teresina, Dobal fez uma confissão que me deixou comovido. Afirmou:  "Durante muito tempo, escrevi poesia sem saber exatamente por que o fazia, nem se valia a pena fazê-lo. Hoje, eu sei que a minha poesia serviu para que as pessoas se aproximassem de mim. Se apenas você tivesse feito isso, já teria valido a pena ".

 

         Generosamente, Dobal concedeu-me a honra de ser o seu principal editor. Hoje, repetindo o poeta, eu diria: se, ao longo da vida, eu tivesse me dedicado apenas a editar suas poesia, já teria valido a pena. Quem lhe conhece a obra sabe por quê.  Dobal, que teria completado 82 anos no dia 17 do mês em curso, projetou mais longe do que qualquer um dos nossos   a face luminosa do Piauí.      

Cineas Santos

Professor

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Está coluna é de inteira responsabilidade do colunista Cineas Santos