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Foto: Jornaldepoesia |
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Poeta piauiense H. Dobal |
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1976:
numa dessas tardes de chumbo que
tornam Teresina quase insuportável,
decidi entrevistar o poeta H. Dobal.
Armado de um gravador Juruna,
desloquei-me até a casa da irmã
dele, Verbena Dobal, sem saber
exatamente por onde começar. Eu
conhecia a obra do poeta; o cidadão
Hindemburgo Dobal Teixeira, não. À
época, Dobal residia em Brasília e
encontrava-se em Teresina a
passeio. Pela dicção marcante,
esperava encontrar um homem forte,
resoluto, decidido. Eis que me
aparece um cidadão frágil,
introspectivo, quase tímido. A
conversa não fluiu: entrevista não
vingou. A cada pergunta, Dobal
respondia com um monossílabo, ainda
assim arrancado a fórceps. Com
algum esforço, pesquei duas
afirmações bastante elucidativas.
Sobre o título do livro A
Província Deserta, publicado
dois anos antes e que provocara
certo mal-estar entre os
intelectuais piauienses, o poeta
foi taxativo: “Sou um piauiense
100%, desses que dizem: 'está
bonito pra chover', mas a minha
província é o universo". Percebi,
naquele momento, o grau de
consciência que o poeta tinha da
dimensão de sua obra. Melhor que
ninguém, parecia ter assimilado a
clássica lição de Tolstoi: se
queres ser universal, canta bem a
tua aldeia. Os motivos de sua
poesia estavam fincados no Piauí,
mas o alcance de sua voz ia muito
além.
A segunda resposta foi
ainda mais esclarecedora. Quando
lhe perguntei por que demorara
tanto para lançar seu primeiro
livro (O tempo Consequente -
1966) se já escrevia poemas desde a
década de 40, afirmou: "Decidi que
só publicaria um livro quando já
não precisasse da opinião de
ninguém para fazê-lo". Não era
arrogância nem uma atitude
pretensiosa. Dobal sabia exatamente
o que queria. Tanto sabia que Odylo
Costa Filho, autor do prefácio do
seu livro de estreia, tentou
convencê-lo a usar uma vírgula nos
versos: "E lentamente
vamos transformando/ a agitação
maturação de sonhos", no poema
"Tempora". O Dobal ignorou a
sugestão.
Quando,
finalmente, o poeta mudou-se para
Teresina e nos tornamos amigos,
entendi o porquê do fracasso
daquela primeira entrevista: Dobal
não suportava ser o centro das
atenções. O que tinha a dizer
estava dito – muito bem dito – nos
poemas que escreveu. Nesse
particular, fechava com Quintana a
quem admirava: "Toda
confissão não transfigurada pela
arte é uma canalhice".
Certa feita, num dos
passeios que fazíamos pela
periferia de Teresina, Dobal fez
uma confissão que me deixou
comovido. Afirmou: "Durante muito
tempo, escrevi poesia sem saber
exatamente por que o fazia, nem se
valia a pena fazê-lo. Hoje, eu sei
que a minha poesia serviu para que
as pessoas se aproximassem de mim.
Se apenas você tivesse feito isso,
já teria valido a pena ".
Generosamente, Dobal
concedeu-me a honra de ser o seu
principal editor. Hoje, repetindo o
poeta, eu diria: se, ao longo da
vida, eu tivesse me dedicado apenas
a editar suas poesia, já teria
valido a pena. Quem lhe conhece a
obra sabe por quê. Dobal, que
teria completado 82 anos no dia 17
do mês em curso, projetou mais
longe do que qualquer um dos
nossos a face luminosa do
Piauí.
Cineas Santos
Professor |