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Quando
o Comitê Norueguês do Nobel
anunciou o nome de Barack Obama
como o vencedor do Nobel da Paz de
2009, nem os assessores mais
próximos do presidente dos EUA
acreditaram. Era verdade. Na cola
da notícia, a justificativa: “Obama
mereceu o prêmio por esforços
extraordinários para fortalecer a
cooperação entre os povos”.
Incontinenti, Michael Steele,
presidente do Partido Republicano,
disparou: “É uma pena que o poder
de celebridade dele tenha ofuscado
defensores incansáveis que tiveram
conquistas reais em questões de paz
e direitos humanos”. Eu, que nada
sei de nada, diria que o tal Comitê
manteve-se fiel à tradição de
contrariar expectativas e provocar
polêmicas. Na literatura, por
exemplo, J. Luiz Borges, um autor
de primeira grandeza, esperou, com
ardente paciência, o prêmio
que fez por merecer e que lhe foi
negado. Contrariando todas as
expectativas, Doris Lessing, uma
autora de nível mediano, abiscoitou
o Nobel de Literatura, em 2007. No
campo da paz, as decisões têm sido
ainda mais polêmicas: Gandhi, que
deu a vida pela paz, nunca foi
contemplado; já Yasser Arafat,
considerado um “terrorista”,
compartilhou o prêmio com Shimon
Peres e Yitzhak Rabin em 1994.
Receberam-no “pelos esforços
empreendidos em favor da paz entre
judeus e palestinos”. Os resultados
todos conhecem. O Mago de araque
teria outra explicação para o
prêmio de Obama: “Quando você
deseja muito uma coisa, todas as
forças do universo conspiram para
que isso aconteça”. Se for
assim, quem tiver dinheiro, mulher
bonita e outras cositas que
se cuide...
Voltemos a Obama. O que
esse moço fez, até aqui, para
merecer tal honraria? Discursos,
alguns muito bons, diga-se de
passagem. Num deles, condenou a
proliferação de armas atômicas e
pregou o entendimento entre as
nações. Bonito, mas inócuo. O que
Obama quer, a exemplo de todos os
seus antecessores, é a
não-proliferação de ogivas
nucleares nas mãos de gente do
naipe de Kim Jong – Il (Coréia do
Norte) e Mahmoud Ahmadinejad (Irã)
ou Chavez, mais próximo do
“quintal” dos EUA. Barack Obama
teria sido bem mais convincente se,
no seu discurso na ONU, tivesse
apresentado a seguinte proposta: os
EUA se comprometem a destruir
metade do seu arsenal atômico se os
outros grandes do mundo fizerem o
mesmo. A bem da verdade, a nossa
insegurança continuaria igual, já
que, segundo especialistas, existem
armas nucleares suficientes para
destruir 40 vezes Terra, se isso
fosse possível. Ainda assim, já
seria um gesto simbólico. Com a
máquina de guerra que comanda,
Obama não hesitará em bombardear
até o céu em nome da “segurança” da
América e do mundo. Os EUA pautam
sua política externa por um
princípio magistralmente resumido
por Tom Paine (1737-1809): “A causa
da América é, em grande parte, a
causa de toda a humanidade”. Mais
claro, impossível.
Como bem sintetizou a
revista mais endireitada do
Brasil, o Nobel de Obama é “um
prêmio preventivo”. Tem razão: a
“herança maldita” deixada por
little Bush compromete seu
governo. Obama tem duas guerras em
curso e uma crise financeira
monumental para administrar. O
Nobel só açula o ódio dos radicais
contra ele. Tem razão Clóvis Rossi
ao afirmar: “Obama precisa é de
paz, e não de um Nobel da Paz”.
Cineas Santos
Professor |