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Muitas luas se
passaram para que, no entardecer da
existência, eu pudesse descobrir
minha verdadeira identidade. Eu,
que sempre persegui a objetividade,
que procurei me valer de uma
linguagem substantiva, direta e
precisa para me expressar com
exatidão, constato, desencantado,
que não passo de um advérbio, um
reles advérbio de inexatidão, o
inconclusivo advérbio quase.
Vejam como cheguei a essa
desalentadora conclusão.
Na
remota década de 80, escrevi um
arremedo de poema denominado “Coisa
de Negro”. Texto curto, incisivo,
debochado, que termina assim:
Não sujei na entrada/ Não sujei
pela vida/ Mas só pra aborrecer/ Só
pra ver feder/Vou sujar na saída.
O Fifi (hoje, doutor Feliciano
Bezerra) musicou o texto e o
inscreveu num festival de música
estudantil. O trem ficou bonito e o
compositor abiscoitou o primeiro
prêmio. Na noite da premiação, na
saída do Theatro 4 de Setembro,
ouvi o seguinte comentário: “ Cara,
justamente o Cineas, que nem é
negro direito!”. Naquela noite
festiva, enquanto o músico
saboreava os louros da vitória,
coube a mim apenas a constatação de
que não passo de um quase-negro.
No
início do milênio, quando o algodão
já me recobria a carapinha, um
grupo de garotos, capitaneado por
uma professorinha, veio me convidar
para participar de uma “Feirinha de
Cultura” que se realizaria numa
escola periférica de Teresina. Eu,
segundo me informaram, seria um dos
“autores homenageados”. Não podendo
comparecer ao evento, propiciei aos
esforçados garotos o necessário
(dados biográficos, textos, fotos)
para que levassem a bom termo a
tarefa escolar. A professora mandou
ampliar uma das fotos, piorando-a
sensivelmente. O resultado ficou
pavoroso, para dizer o mínimo.
Três garotos foram escalados para
discorrer sobre o “homenageado”.
Com o texto na ponta da língua, os
moleques recitavam: Cineas
Santos nasceu
em Campo
Formoso, sertão do Caracol, em
setembro de 48, estudou não sei
onde, etc.
As coisas iam mais
ou menos bem até o momento em que
apareceu uma menininha sapeca e fez
a pergunta crucial: - Ele morreu
quando? A resposta para tal
pergunta não fora ensaiada. Os três
entreolharam-se, visivelmente
embaraçados. Um deles arriscou: -
Acho que ele não morreu, não.
O segundo animou-se: - Ele ainda
está vivo. Com fina ironia, o
terceiro adiantou: - Meio vivo!
Naquela escaldante tarde de
outubro, descobri-me um quase-vivo,
o que equivale a um quase-morto.
Na
semana passada, num dos debates que
se realizaram no SALIPI, o
quase, mais vez, intrometeu-se
em minha vida. Num dos papeizinhos
que a platéia manda para o mediador
do debate, figurava essa pérola
destinada a mim: “Professor Cineas,
eu gostaria de parabenizá-lo pelo
SALIPI e por sua elegância. Quando
ministra aulas, o senhor chega a
ser quase-humano”.
Foi o
maior elogio que me fizeram até
hoje. Ao contrário do que muitos
imaginam, ninguém se torna humano
pelo simples fato de nascer com
“jeito de gente”. O processo de
humanização é sempre um longo e
doloroso aprendizado, que requer
paciência, desprendimento,
humildade. Como se pode ver, este
quase-negro, quase-morto,
quase-humano, está quase pronto
para receber a “indesejada das
gentes”. Com a graça do Criador,
quando ela chegar, “não sei se dura
ou caroável”, estarei pronto,
inteiro, pleno. Assim seja.
Cineas Santos
Professor |