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Um pouco sobre mim

Cineas das Chagas Santos nasceu em Campo Formoso, município de Caracol (PI), em setembro de 48. Vive em Teresina desde 65. Professor, editor e livreiro, fundou, com alguns companheiros de geração, o jornal alternativo “Chapada do Corisco” (76/77). É proprietário da Oficina da Palavra e coordena o grupo A Cara Alegre do Piauí. Publicou: Miudezas em Geral (poesia); Tinha que Acontecer (contos); ABC da Ecologia (cordel); Aldeia Grande (humor) e o Menino que Descobriu as Palavras (infantil).

 


A errática trajetória de um inócuo advérbio

cineasantos@hotmail.com


Muitas luas se passaram para que, no entardecer da existência, eu pudesse descobrir minha verdadeira identidade. Eu, que sempre persegui a objetividade, que procurei me valer de uma linguagem substantiva, direta e precisa para me expressar com exatidão, constato, desencantado, que não passo de um advérbio, um reles advérbio de inexatidão, o inconclusivo advérbio quase. Vejam como cheguei a essa desalentadora conclusão.

 

            Na remota década de 80, escrevi um arremedo de poema denominado “Coisa de Negro”. Texto curto, incisivo, debochado, que termina assim: Não sujei na entrada/ Não sujei pela vida/ Mas só pra aborrecer/ Só pra ver feder/Vou sujar na saída. O Fifi (hoje, doutor Feliciano Bezerra)  musicou o texto e o inscreveu num festival de música estudantil. O trem ficou bonito e o compositor abiscoitou o primeiro prêmio. Na noite da premiação, na saída do Theatro 4 de Setembro, ouvi o seguinte comentário: “ Cara, justamente o Cineas, que nem é negro direito!”. Naquela noite festiva, enquanto o músico saboreava os louros da vitória,  coube a mim apenas a constatação de que não passo de um  quase-negro.

 

            No início do milênio, quando o algodão já me recobria a carapinha, um grupo de garotos, capitaneado por uma professorinha, veio me convidar para participar de uma “Feirinha de Cultura” que se realizaria numa escola periférica de Teresina. Eu, segundo me informaram, seria um dos “autores homenageados”. Não podendo comparecer ao evento, propiciei aos esforçados garotos o necessário (dados biográficos, textos, fotos) para que levassem a bom termo a tarefa escolar. A professora mandou ampliar uma das fotos, piorando-a sensivelmente. O resultado ficou  pavoroso, para dizer o mínimo. Três garotos foram escalados para discorrer sobre o “homenageado”. Com o texto na ponta da língua, os moleques recitavam: Cineas Santos nasceu em Campo Formoso, sertão do Caracol, em setembro de 48, estudou não sei onde,  etc. As coisas iam mais ou menos bem até o momento em que apareceu uma menininha sapeca e fez a pergunta crucial: - Ele morreu quando? A resposta para tal pergunta não fora ensaiada. Os três entreolharam-se, visivelmente embaraçados. Um deles arriscou: - Acho que ele não morreu, não. O segundo animou-se: - Ele ainda está vivo. Com fina ironia, o terceiro adiantou: - Meio vivo! Naquela escaldante tarde de outubro, descobri-me um quase-vivo, o que equivale a um quase-morto.

 

            Na semana passada, num dos debates que se realizaram no SALIPI, o quase, mais vez, intrometeu-se em minha vida. Num dos papeizinhos que a platéia manda para o mediador do debate, figurava essa pérola destinada a mim: “Professor Cineas, eu gostaria de parabenizá-lo pelo SALIPI e por sua elegância. Quando ministra aulas, o senhor chega a ser quase-humano”.

 

            Foi o maior elogio que me fizeram até hoje. Ao contrário do que muitos imaginam, ninguém se torna humano pelo simples fato de nascer com “jeito de gente”. O processo de humanização é sempre um longo e doloroso aprendizado, que requer paciência, desprendimento, humildade. Como se pode ver, este quase-negro, quase-morto, quase-humano, está quase pronto para receber a “indesejada das gentes”. Com a graça do Criador, quando ela chegar, “não sei se dura ou caroável”, estarei pronto, inteiro, pleno.  Assim seja.

 

Cineas Santos

Professor

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Está coluna é de inteira responsabilidade do colunista Cineas Santos