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Um pouco sobre mim

Cineas das Chagas Santos nasceu em Campo Formoso, município de Caracol (PI), em setembro de 48. Vive em Teresina desde 65. Professor, editor e livreiro, fundou, com alguns companheiros de geração, o jornal alternativo “Chapada do Corisco” (76/77). É proprietário da Oficina da Palavra e coordena o grupo A Cara Alegre do Piauí. Publicou: Miudezas em Geral (poesia); Tinha que Acontecer (contos); ABC da Ecologia (cordel); Aldeia Grande (humor) e o Menino que Descobriu as Palavras (infantil).

 


Um certo Zé Malaquias

cineasantos@hotmail.com


        Até onde sei, ninguém lhe desenhou a árvore genealógica, o que não o impediu de viver mais de 80 anos. É certo que se chamava José Malaquias das Chagas e gastou boa parte da existência mourejando numa gleba perdida entre o nunca e o nada, no sertão do Piauí. Filho de sertanejos pobres, não frequentou escola regularmente. Foi desasnado pelo velho Manuel Luís que, por falta de material pedagógico mais adequado, servia-se, amiúde, de uma fornida palmatória de aroeira. Dava certo: em curtíssimo espaço de tempo, Malaca  aprendeu a ler, escrever e contar.

 

         Avesso ao cultivo da terra árida, aprendeu alguns ofícios que lhe garantiram a sobrevivência. Virava-se como pedreiro, carpinteiro e marceneiro. Do que fez, sobrou apenas a igrejinha do município de São Brás do Piauí, rústica e acanhada, mas sólida como uma rocha. Irrequieto, fez-se andejo: perambulou por São Paulo, Brasília, Anápolis e Bom Jesus do Gurgueia onde, aos 82 anos de idade, saiu da vida e entrou para a geografia, deixando 21 filhos reconhecidos.

 

         Malaquias granjeou fama de “sabido” pela prosa “fluviante e flutual”, como diria o poeta. Espirituoso, entre um gole de pinga e uma baforada de cigarro pau-ronca, ditava sentenças que caíam no gosto popular. Sem maior dificuldade, coletei algumas delas que repasso aos meus três leitores.

 

Foto: Cineas Santos
 José Malaquias das Chagas

 

         Certa feita, muito necessitado, aceitou realizar determinado trabalho por um pagamento ínfimo.  Um amigo o censurou. Zé Malaquias emendou de bate-pronto: “Meu amigo, mais vale lamber do que cuspir”. Numa manhã de domingo, na bodega de um compadre, encetou-se acalorada discussão sobre a misericórdia e o senso de justiça do Criador. Malaquias, prudentemente, manteve-se à margem da arenga. Alguém o provocou: - E você, Malaquias, acha que Deus é justo? Sem titubear, o velho disparou: “Mais que justo, é justíssimo: quando manda o vento levantar a saia das mulheres, joga areia nos olhos dos homens”. Numa tarde qualquer, passou pela casa de um dos filhos e o encontrou discutindo asperamente com a mulher. Sem interferir, ouviu as “razões” de cada um, limitando-se a propor a concórdia e o entendimento. Na hora da saída, chamou o filho à parte e o advertiu: “Tá maluco, rapaz? Quantas vezes eu já te disse que não se briga com mulher depois do almoço!”.

 

         Em bom Jesus do Gurgueia, disputava com o velho João Batista o título de “melhor marceneiro” da cidade. João Batista levou a melhor: religioso ao extremo, construiu uma igreja liliputiana, hoje tombada pelo IPHAN. Nela, tudo é tão pequeno que parece de brincadeira. Por falta de um santo de gesso  ou louça, o velho João esculpiu, em umburana, uma bela imagem de São João Batista. Sucesso absoluto. A cidade inteira foi apreciar a obra de arte. Malaquias, evidentemente, não ficou feliz com a novidade. Quando lhe falavam da imagem, desconversava. Um dia, os amigos literalmente o arrastaram até a igrejinha. Malaquias nem chegou a entrar. Na presença do escultor, fez o seguinte comentário: “Esse João Batista não é um cristão digno de respeito”. Diante do espanto dos circunstantes, sentenciou: “Um cabra que pega um pedaço de umburana, faz uma imagem e ele próprio vai adorar, não é sério”. E mais não disse.

 

         Infelizmente, nada aprendi com ele, nem mesmo o conheci. Não por acaso, esse tal  Zé Malaquias era meu avô.

 

Cineas Santos

Professor

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Está coluna é de inteira responsabilidade do colunista Cineas Santos