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Fui um menino sertanejo e vida de
menino sertanejo, pelo menos no meu
tempo, era quase sinônimo de
carências. Na verdade, nos faltava
praticamente tudo: alimentação
adequada, água tratada, médico,
dentista, escola, livro,
brinquedo... A lista é tão grande
que exibi-la aqui seria martirizar
meus três leitores de carteirinha.
Como já afirmei centena de vezes,
na infância, sofri muito com a
escassez de água potável e sofro
até hoje com a inexistência de
livros naquela fase “luminosa da
existência”. Ainda assim,
sobrevivi. Hoje, farei uma
revelação nova (a primeira nos
últimos 50 anos): ainda me dói não
ter tido aquela decantada
professorinha por quem eu
deveria ter me apaixonado logo na
primeira infância. Decididamente,
não levei sorte com professoras.
Dona Purcina, que só
estudou três meses em toda a
existência, aprendeu o suficiente
para desasnar os filhos no sertão
do Caracol. Adepta da “pedagogia
do rebolo”, a cada resposta errada,
um cascudo caprichado.
Persistência no erro: bolo
de palmatória. Tinha tal obsessão
pelo “estudo” que chegou a se
sacrificar para pôr os filhos na
escola.
No Grupo Escolar Pe.
Domingos da Conceição, em S.R.
Nonato, a situação não mudou muito:
minha professora, uma matriarca
sertaneja, adentrava a sala de aula
com a caderneta numa das mãos e com
a palmatória de aroeira na outra.
Certo dia, diante das traquinices
da turma, atirou o instrumento de
tortura com tal violência que, não
atingindo o alvo (minha testa),
arrancou um pedaço do reboco da
parede da sala. Não tivesse eu
alguma agilidade, ter-se-ia
encerrado ali, de maneira
tragicômica, a minha carreira
artística.
No vetusto Ginásio Dom
Inocêncio, não tive melhor
sorte. Numa chatíssima aula de
português, enquanto a
professorinha, que tinha o hábito
de falar escandindo as sílabas,
tentava vãmente enfiar, em nossas
cabeças de bagre, a diferença entre
vocativo e aposto, eu me deleitava
lendo “As Proezas de João Grilo”.
Irritada, a professora arrancou-me
o folheto das mãos e o atirou pela
janela. De quebra, fez o seguinte
comentário: “Custa crer que um
aluno de 3ª série perca tempo lendo
uma baboseira dessas onde só se
aprende vulgaridade e bobagem”.
Fiquei muito mal na fita.
No velho Liceu
Piauiense, em Teresina, uma
professora de Biologia, que mal se
sustinha com suas perninhas finas
sobre um salto l6, me chamou de “apedeuta”.
Só não me senti mais humilhado
porque nenhum dos colegas (nem eu)
sabia exatamente se aquilo era
xingamento ou elogio. Mas pelo
tom...
Até na universidade não
levei sorte: tive apenas duas
professoras. Uma era completamente
louca; a outra, uma matraca em
procissão do Senhor morto: falava
tanto que me dava cãibra nos
tímpanos.
Todas essas lembranças me
ocorreram ao ver, na semana
passada, uma professorinha, linda
de viver, tentando amansar
um diabinho hiperativo, que
não consegue ficar quieto nem
dormindo. A professora se
desdobrava em atenção, carinho,
zelo. Ao ver aquela torrente de
ternura fluindo em vão, pensei
comigo: tive sorte, muita sorte:
com uma professora desse quilate,
eu não teria saído do jardim da
infância nem a pau. Estaria até
hoje repetindo: Ivo viu a uva,
Ivo vui a uva, Ivo viu a vulva...
Cineas Santos
Professor |