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Um pouco sobre mim

Cineas das Chagas Santos nasceu em Campo Formoso, município de Caracol (PI), em setembro de 48. Vive em Teresina desde 65. Professor, editor e livreiro, fundou, com alguns companheiros de geração, o jornal alternativo “Chapada do Corisco” (76/77). É proprietário da Oficina da Palavra e coordena o grupo A Cara Alegre do Piauí. Publicou: Miudezas em Geral (poesia); Tinha que Acontecer (contos); ABC da Ecologia (cordel); Aldeia Grande (humor) e o Menino que Descobriu as Palavras (infantil).

 


Das coisas que me fazem faltar

cineasantos@hotmail.com


      Fui um menino sertanejo e vida de menino sertanejo, pelo menos no meu tempo, era quase sinônimo de carências. Na verdade, nos faltava praticamente tudo: alimentação adequada, água tratada, médico, dentista, escola, livro, brinquedo... A lista é tão grande que exibi-la aqui seria martirizar meus três leitores de carteirinha. Como já afirmei centena de vezes, na infância, sofri muito com a escassez de água potável e sofro até hoje com a inexistência de livros naquela fase “luminosa da existência”. Ainda assim, sobrevivi. Hoje, farei uma revelação nova (a primeira nos últimos 50 anos): ainda me dói não ter tido aquela decantada professorinha por quem eu deveria ter me apaixonado logo na primeira infância. Decididamente, não levei sorte com professoras.

 

         Dona Purcina, que só estudou três meses em toda a existência, aprendeu o suficiente para desasnar os filhos no sertão do Caracol. Adepta da  “pedagogia do rebolo”, a cada resposta errada, um cascudo  caprichado. Persistência no erro: bolo de palmatória. Tinha tal obsessão pelo “estudo” que chegou a se sacrificar para pôr os filhos na escola.

 

         No Grupo Escolar Pe. Domingos da Conceição, em S.R. Nonato, a situação não mudou muito: minha professora, uma matriarca sertaneja, adentrava a sala de aula com a caderneta numa das mãos e com a palmatória de aroeira na outra. Certo dia, diante das traquinices da turma, atirou o instrumento de tortura com tal violência que, não atingindo o alvo  (minha testa), arrancou um pedaço do reboco da parede da sala. Não tivesse eu alguma agilidade, ter-se-ia  encerrado ali, de maneira tragicômica, a minha carreira artística.

 

         No vetusto Ginásio Dom Inocêncio, não tive melhor sorte. Numa chatíssima aula de português, enquanto a professorinha, que tinha o hábito de falar escandindo as sílabas, tentava vãmente enfiar, em nossas cabeças de bagre, a diferença entre vocativo e aposto, eu me deleitava lendo “As Proezas de João Grilo”. Irritada, a professora arrancou-me o folheto das mãos e o atirou pela janela. De quebra, fez o seguinte comentário: “Custa crer que um aluno de 3ª série perca tempo lendo uma baboseira dessas onde só se aprende vulgaridade e bobagem”. Fiquei muito mal na fita.

 

         No velho Liceu Piauiense, em Teresina, uma professora de Biologia, que mal se sustinha com suas perninhas finas sobre um salto l6, me chamou de “apedeuta”. Só não me senti mais humilhado porque nenhum dos colegas (nem eu) sabia exatamente se aquilo era xingamento ou elogio. Mas pelo tom...

 

         Até na universidade não levei sorte: tive apenas duas professoras. Uma era completamente louca; a outra, uma matraca em procissão do Senhor morto: falava tanto que me dava cãibra nos tímpanos.

 

         Todas essas lembranças me ocorreram ao ver, na semana passada, uma professorinha, linda de viver, tentando amansar um diabinho hiperativo, que não consegue ficar quieto nem dormindo. A professora se desdobrava em atenção, carinho, zelo. Ao ver aquela torrente de ternura fluindo em vão, pensei comigo: tive sorte, muita sorte: com uma professora desse quilate, eu não teria saído do jardim da infância nem a pau. Estaria até hoje repetindo: Ivo viu a uva, Ivo vui a uva, Ivo viu a vulva...

Cineas Santos

Professor

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Está coluna é de inteira responsabilidade do colunista Cineas Santos