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Durante
alguns anos – 15, para ser mais
preciso – morei em São Raimundo
Nonato. Por lá, ainda tenho
familiares e um punhado de amigos.
Infelizmente, fiquei órfão de d.
Purcina, referência mais forte em
minha vida errante. Deixaram-me
também: Paredão, Maninho, Hamilton
Barreto, Chico da Bernaldina, entre
outros. Assim, cada vez que retorno
à cidade, me sinto mais pobre, mais
estranho, mais só. É certo que a
Câmara Municipal de SRN, por
iniciativa da vereadora Socorro
Macedo, concedeu-me o título de
Cidadão Sãoraimundense, honraria
que não fiz por merecer. Mas o que
me deixa constrangido é perceber
que não sei nada, nadinha mesmo da
vida dos meus conterrâneos. Sei
apenas que gostam de festa, de
cerveja, de umbuzada, de beiju com
carne assada, de tatu ao leite de
coco. Sei também que ostentam certo
orgulho por terem nascido na terra
que é “berço do homem americano”,
mas nem por isso deixam de
hostilizar a profa. Niède Guidon,
cidadã que pôs SRN no mapa-múndi.
Da vida política, eu poderia
acrescentar que os sãoraimundenses
são apaixonados, que fazem
campanhas ruidosas e que, com raras
exceções, elegem políticos de
reputação duvidosa... Mas isso não
é “privilégio” dessa brava gente.
Acontece em toda parte.
A penúltima vez que
visitei a cidade, em 2008,
assustou-me o barulho dos carros de
som, dos trios elétricos, das
motos, aos milheiros, que cruzavam
a cidade em todas as direções,
conduzindo pessoas de todas as
idades, nenhuma delas usando
capacete. O trânsito caótico
lembrava aquelas cidades malucas da
Índia. Afora isso, havia lixo por
toda parte e urubus em guerra com
os vira-latas, disputando tudo o
que tivesse cheiro de comida. Nunca
em minha vida me senti tão
deslocado, tão triste, tão só...
Na semana passada, o
aniversário da irmã querida me
levou a SRN. Preparei-me para o
pior, já que, na cidade,
realizava-se um “carnaval fora de
época”, com os indefectíveis e
onipresentes trios baianos. Logo na
entrada, uma surpresa: a escultura
monumental de uma seriema que, de
tão perfeita, parecia prestes a
cantar. Um pouco mais adiante, um
terminal rodoviário decente e,
pasmem, todo os motociclistas
trafegando com capacetes. Não
bastasse isso, as ruas estavam
limpas e adequadamente sinalizadas.
Num átimo, pensei: todo esse
“milagre” deve ser apenas
maquilagem para turista ver.
Lembrei-me de que, no início do
mês, a cidade fora sede do
Primeiro Congresso Internacional de
Arte Rupestre. Consta que o
governo do Estado investiu pesado
para “melhorar a imagem do Piauí lá
fora”. De uma forma ou de outra, há
mudanças significativas na cidade.
Pra começo de conversa, o
aeroporto, antiga aspiração da
Niède Guidon, saiu do papel para
tornar-se realidade palpável. Uma
bela pista com 1600 metros está
pronta.
De tudo o que vi, o que
mais me animou foi a presença de
uma professora, Samara Negreiros, à
frente da Secretaria de Educação do
Município. Conheço essa cidadã e
sei do que é capaz. Espero que a
cidade ajude-a a realizar o sonho
que acalenta há muito tempo:
melhorar o deplorável nível da
educação em SRN. Decididamente, a
cidade parece ter engatado uma
marcha de força para sair da
buraqueira. Como tenho cabeça e
coração de professor, com as
pequenas mudanças que vi, enchi-me
de esperanças, e já me senti um
pouquinho menos “estrangeiro” na
cidade que, um dia, foi a minha
aldeia.
Cineas Santos
Professor |