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No
último final de semana, concedi-me
um “descanso na loucura”.
Aproveitei a nesguinha de tempo
livre para rever Butch Cassidy (1969),
um clássico do cinema
contemporâneo. Dirigido por George
Roy Hill, o filme foi um
extraordinário sucesso de público,
graças à combinação perfeita de
aventura e humor. Não bastasse
isso, a trama é consistente e a
trinca de atores – Paul Newman,
Robert Redford e Katherine Ross –
parece ter sido escolhida a dedo.
Acrescente-se a isso a trilha
sonora de Burt Bacharach na qual
figura a inesquecível “Raindrops
Keep Fallin on My Head”. Há, no
filme, uma cena antológica: para
impressionar Etta (Katherine Ross),
namorada do parceiro Sundance Kid
(Robert Redford), Butch Cassidy
(Paul Newman) resolve fazer
acrobacias numa prosaica bicicleta
que acabara de comprar. Tantas fez,
que se estatelou no chão diante de
um touro bravo. A cena me trouxe à
lembrança uma estripulia
perpetrada por mim, cujas
consequências foram dolorosas, para
dizer o mínimo. Por volta dos 14
anos de idade, trabalhei como um
estivador a fim de levantar grana
suficiente para comprar uma calça
azul-fudente, uma camisa de malha
listrada, um relógio Hernavin
e um sapato bico fino. Ajaezei-me
como uma cortesã e, na bicicleta de
um amigo, resolvi dar um bordejo
nas imediações do Colégio das Irmãs
onde funcionava um internato,
recheado de moças bonitas. Com
ensaiada displicência, passei em
frente à calçada onde as moças
conversavam. Pelo menos duas delas
me olharam de soslaio. Resolvi
assoberbar de vez: soltei as duas
mãos, aumentei a velocidade e fiz
umas piruetas arriscadas. Não deu
outra: esborrachei-me no chão como
uma manga podre. Além da galhofa
das moças, rasgou-se-me a calça
nova e quebrou-se o vidro do
relógio que eu ainda nem acabara de
pagar. Desastre total.
Pensam que me emendei?
Algum tempo depois, parei na porta
do mesmo colégio e ofereci carona a
uma bela e tímida estudante. Tive
de gastar algum latim para
convencê-la a aceitar a oferta (a
mãe não lhe permitia tais
desfrutes). Como quem transporta
cartelas recheadas de ovos, levei-a
do colégio até bem próximo da casa
onde morava. Ao descer da
bicicleta, a saia da moça
prendeu-se num dos ferrinhos da
garupa e rasgou-se, deixando-a
muito constrangida. Nunca mais me
dirigiu a palavra.
Já em Teresina, tentei
comprar uma bicicleta a prestação,
digo, aos pedaços. Comprei o
quadro, as rodas, os pedais, o
selin e a catraca. Dinheiro suado,
contado e muita pechincha no
Troca-Troca. Antes de terminar de
montá-la, um mão-leve fez-me
a “gentileza” de levá-la sem minha
autorização. Decididamente, não dou
sorte no papel de ciclista. No
futebol, andei tentando, com
relativo sucesso, a jogada
inventada por Leônidas da Silva. Na
decisão de um concorrido campeonato
realizado no Colégio Andreas,
jogando contra o fogoso time de
alunos, fiz, de bicicleta, o
gol que deu a vitória à medíocre
equipe dos professores. Foi a
coroação de uma carreira que me
rendeu inenarráveis alegrias e
incontáveis contusões.
No
ano passado, uma artrose renitente
e progressiva no joelho esquerdo me
tirou, de vez, dos campos e das
pistas. Hoje, mantenho prudente
distância das bicicletas. Talvez eu
devesse proceder como aquele louco
manso que, na década de 50,
perambulava pelas ruas de Teresina.
De pilheria, os desocupados lhe
perguntavam: – Por que você não
anda de bicicleta? E ele: – Esse
veículo bípede me dá vertigem.
E seguia em frente.
Cineas Santos
Professor |