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Um pouco sobre mim

Cineas das Chagas Santos nasceu em Campo Formoso, município de Caracol (PI), em setembro de 48. Vive em Teresina desde 65. Professor, editor e livreiro, fundou, com alguns companheiros de geração, o jornal alternativo “Chapada do Corisco” (76/77). É proprietário da Oficina da Palavra e coordena o grupo A Cara Alegre do Piauí. Publicou: Miudezas em Geral (poesia); Tinha que Acontecer (contos); ABC da Ecologia (cordel); Aldeia Grande (humor) e o Menino que Descobriu as Palavras (infantil).

 


Os Imperdoáveis

cineasantos@hotmail.com


      Num país como o nosso onde a impunidade é a tônica, pelo menos três brasileiros, por “mera coincidência”, negros, foram punidos exemplarmente, com pena da execração pública, para todo o sempre. São eles: João Cândido Felisberto (1880 – 1968), Moacir Barbosa do Nascimento (1921 – 2000) e Wilson Simonal de Castro (1939 – 2000). Cada um, a seu modo, cometeu crime inafiançável e imprescritível.

 

         João Cândido, conhecido como “O Almirante Negro”, comandou a famosa “Revolta da Chibata”, em 22 de novembro de 1910. Razão: em plena República, os marinheiros brasileiros, além de salários aviltantes, eram punidos com chibatadas por qualquer crime. João Cândido comandou um motim, apropriou-se do encouraçado “Minas Gerais” e conseguiu a adesão de mais três navios. À frente de mais dois mil marinheiros, ameaçou bombardear o Rio de Janeiro. Pressionado, o presidente Hermes da Fonseca aceitou negociar com os amotinados. A Lei da Chibata foi revogada, mas João Cândido acabou expulso da Marinha, preso e tratado como um proscrito. Até a morte, em 68, trabalhou como estivador na Praça XV, no Rio de Janeiro. Somente em 2008, por iniciativa da senadora Marina Silva, o presidente Lula o anistiou. Ainda assim, a Marinha não lhe concedeu as promoções a que tinha direito. A família não recebeu nada.

 

         Barbosa, por seu turno, foi um dos goleiros mais famosos do Brasil. Seis vezes campeão carioca pelo Vasco, era titular absoluto na lendária seleção brasileira de 50. Na tarde de 16 de julho de 1950, diante de uma plateia de 200 mil torcedores, não defendeu a bola chutada pelo ponta Gigghia, e a seleção canarinho, que jogava pelo empate, perdeu o título para o Uruguai. Barbosa foi escolhido para o papel de “Cristo”. Pouco antes de morrer, afirmou: “No Brasil, a pena maior por um crime é de 30 anos. Há 43 anos, pago por um crime que não cometi”. Nem a morte o redimiu.

 

         Quanto a Simonal, entre outros delitos graves, cometeu o de driblar a pobreza e tornar-se showmam num momento complicado: o país estava mergulhado numa ditadura. Espaçoso, cheio de gingas e bossas, Simona era o cara. No Maracanãzinho, regeu um coro de 30 mil vozes, no embalo de “Meu limão, meu limoeiro”. No meio da música, sorria e afirmava: “Que tranquilidade!”. Comandou um programa na TV Record, “Show em Si...Monal”. Provocava reboliço por onde passava. Além de gostar de carrões e mulheres saborosas, andava na companhia de pessoas pouco recomendáveis. Tantas fez que acabou envolvido no sequestro do contador Vivian, suspeito de furtá-lo. O incidente vazou, e a imprensa o acusou de ser “dedo-duro”. Seu mundo desabou. Renegado por todos, passou a vagar como um Zumbi indesejável, até o ano de sua morte, em 2000. Este ano, Cláudio Manoel e Michael Langer fizeram o documentário “Simonal: ninguém sabe o duro que dei”, tentando jogar alguma luz sobre o “Rei da Pilantragem”, como era conhecido. A imprensa graúda voltou à carga e o condenou outra vez.

 

         Curiosamente, quando o presidente Lula criou o Ministério da Igualdade Racial e propôs cotas para os negros nas universidades públicas, as cabeças laureadas da República acusaram-no de “instituir o racismo no Brasil”. O gesto de Lula poderia conspurcar a decantada “democracia racial brasileira”. Tinham razão: em time que está ganhando há mais de 500 anos não se mexe...

          

Cineas Santos

Professor

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Está coluna é de inteira responsabilidade do colunista Cineas Santos