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Num
país como o nosso onde a impunidade
é a tônica, pelo menos três
brasileiros, por “mera
coincidência”, negros, foram
punidos exemplarmente, com pena da
execração pública, para todo o
sempre. São eles: João Cândido
Felisberto (1880 – 1968), Moacir
Barbosa do Nascimento (1921 – 2000)
e Wilson Simonal de Castro (1939 –
2000). Cada um, a seu modo, cometeu
crime inafiançável e
imprescritível.
João Cândido,
conhecido como “O Almirante Negro”,
comandou a famosa “Revolta da
Chibata”, em 22 de novembro de
1910. Razão: em plena República, os
marinheiros brasileiros, além de
salários aviltantes, eram punidos
com chibatadas por qualquer crime.
João Cândido comandou um motim,
apropriou-se do encouraçado “Minas
Gerais” e conseguiu a adesão de
mais três navios. À frente de mais
dois mil marinheiros, ameaçou
bombardear o Rio de Janeiro.
Pressionado, o presidente Hermes da
Fonseca aceitou negociar com os
amotinados. A Lei da Chibata foi
revogada, mas João Cândido acabou
expulso da Marinha, preso e tratado
como um proscrito. Até a morte, em
68, trabalhou como estivador na
Praça XV, no Rio de Janeiro.
Somente em 2008, por iniciativa da
senadora Marina Silva, o presidente
Lula o anistiou. Ainda assim, a
Marinha não lhe concedeu as
promoções a que tinha direito. A
família não recebeu nada.
Barbosa, por seu
turno, foi um dos goleiros mais
famosos do Brasil. Seis vezes
campeão carioca pelo Vasco, era
titular absoluto na lendária
seleção brasileira de 50. Na tarde
de 16 de julho de 1950, diante de
uma plateia de 200 mil torcedores,
não defendeu a bola chutada pelo
ponta Gigghia, e a seleção
canarinho, que jogava pelo empate,
perdeu o título para o Uruguai.
Barbosa foi escolhido para o papel
de “Cristo”. Pouco antes de morrer,
afirmou: “No Brasil, a pena maior
por um crime é de 30 anos. Há 43
anos, pago por um crime que não
cometi”. Nem a morte o redimiu.
Quanto a Simonal,
entre outros delitos graves,
cometeu o de driblar a pobreza e
tornar-se showmam num
momento complicado: o país estava
mergulhado numa ditadura. Espaçoso,
cheio de gingas e bossas, Simona
era o cara. No Maracanãzinho,
regeu um coro de 30 mil vozes, no
embalo de “Meu limão, meu
limoeiro”. No meio da música,
sorria e afirmava: “Que
tranquilidade!”. Comandou um
programa na TV Record, “Show em
Si...Monal”. Provocava reboliço por
onde passava. Além de gostar de
carrões e mulheres saborosas,
andava na companhia de pessoas
pouco recomendáveis. Tantas fez que
acabou envolvido no sequestro do
contador Vivian, suspeito de
furtá-lo. O incidente vazou, e a
imprensa o acusou de ser
“dedo-duro”. Seu mundo desabou.
Renegado por todos, passou a vagar
como um Zumbi indesejável, até o
ano de sua morte, em 2000. Este
ano, Cláudio Manoel e Michael
Langer fizeram o documentário
“Simonal: ninguém sabe o duro que
dei”, tentando jogar alguma luz
sobre o “Rei da Pilantragem”, como
era conhecido. A imprensa graúda
voltou à carga e o condenou outra
vez.
Curiosamente, quando o
presidente Lula criou o Ministério
da Igualdade Racial e propôs cotas
para os negros nas universidades
públicas, as cabeças laureadas da
República acusaram-no de “instituir
o racismo no Brasil”. O gesto de
Lula poderia conspurcar a decantada
“democracia racial brasileira”.
Tinham razão: em time que está
ganhando há mais de 500 anos não se
mexe...
Cineas Santos
Professor |