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Certa
feita, dileta amiga percebeu em mim
uma indeclinável vocação para a
pobreza. No entender dela, “pobre
se contenta com muito pouco e se
alegra até com o nascimento do 13º
filho quando não possui o
suficiente para alimentar a penca
que já carrega”. Respondi com um
arremedo de metáfora: pesco
minha felicidade em lagoa rasa com
anzol de linha curta, ou seja,
não preciso, como o poeta William
Black, ver um anjo de asas
iridescentes para experimentar o
gostinho inconfundível da
felicidade. Assim tem sido e espero
que continue assim até que o
alemão me sequestre...
Mas eu falava mesmo de
quê? Ah, na semana passada,
experimentei uma alegria só
comparável à do menino pobre que
acaba de ganhar sua primeira bola
de presente. Estou prestes a
tornar-me avô. Devagar: eu explico.
Gozo do raro privilégio de morar
numa casa com um quintal cheio de
árvores. E onde há árvores, há
pássaros e canto e (perdoem a rima)
encanto. Na manhã de segunda-feira,
despertei com a arenga irritante de
um velho bem-te-vi possessivo, que
atende pelo nome de Balzac.
Por estar há muito tempo no
terreiro, ele se julga mais dono do
meu quintal do que eu. Naquela
manhã, ele parecia particularmente
irritado. Levantei-me e fui
conferir o porquê da arenga. Para
desespero dele e alegria minha, num
cupinzeiro abandonado, no pé de
jatobá, um casal de curicas
escavava seu ninho. A bem da
verdade, só a fêmea escavava; o
macho, atento, botava sentido no
trabalho da companheira. “Pássaro
machista!” – berrarão as feministas
de plantão, mas a Natureza não dá a
menor bola para o “politicamente
correto”. Para ela, só duas leis
efetivamente interessam: a da
sobrevivência e da perpetuação da
espécie. O mais é paisagem. Por
duas ou três vezes, vi a curiquinha
de sentinela escorraçar o bem-te-vi
que se aventurava a perturbar o
trabalho da sua companheira.
Entretido com a labuta do casal,
quase perdi a noção da hora...
Antes que me perguntem
o que há de tão fascinante no ato
de um pássaro construir seu ninho,
eu vos respondo: nada a não ser a
expectativa de uma vida a caminho.
Antes que me digam que, nessa
altura da vida, eu deveria estar
preocupado com coisas mais sérias,
eu vos direi que, para mim, nada é
mais importante que a vida, seja a
de um Mozart, seja a de um besouro
mangangá...
A partir daquela manhã
mágica, passei a cuidar do casal
curicas com o zelo de um pai que
prepara o enxoval da filha nubente.
Ao menor sinal de alerta, corro ao
quintal para ver se algum intruso
está perturbando o sossego dos
pássaros. Há dois dias, não hesitei
em atirar pedras num gavião que,
com a maior desfaçatez, posou no
sapotizeiro com ar de quem estava
apenas de passagem... Ver aquelas
curiquinhas nidificarem em meu
quintal provocou em mim uma
sensação estranha, misto de alegria
e apreensão. Alegria por oferecer
guaridas a uma ave que, pelo menos
em Teresina, está se tornando uma
raridade. Apreensão por saber que
as duas curiquinhas seguramente
integram o bando das aves
sem-árvores, face à destruição do
“cinturão verde” que circundava a
cidade. Quando bandos de animais
silvestres aparecem repentinamente
nos centros urbanos, convém acender
a luzinha amarela. Significa: o
habitat deles está sendo destruído.
Quem não se lembra daquelas pobres
capivaras tentando vãmente
sobreviver nas águas envenenadas do
Tietê? Ao contrário do que garantem
as Escrituras, em nosso país, os
mansos serão os primeiros a
desaparecer da Terra. Neste espaço,
já lhes falei de um bando de
bem-te-vis (dezoito, para ser
preciso) que, no ano passou,
invadiu o meu quintal como uma
legião de sem-terra. Houve uma
guerra entre os pássaros, o que
resultou na morte de um deles.
Bem-te-vis são aves naturalmente
agressivas, mas não a ponto de se
matarem por uma nesga de quintal.
Alguma coisa está fora de ordem.
Mas a vida não para de
me surpreender. Ao dobrar o cabo
da desesperança (adentrar a
casa dos 60), três surpresas me
aguardavam: pela primeira vez na
vida, aceitei um cargo público;
quando já devia estar sonhando com
aposentadoria, tornei-me “garoto
de programa”, isto é, passei a
fazer um programa de TV. Não
bastasse isso, estou ansioso por me
tornar avô de duas verdejantes
curiquinhas... Mistério,
como diria o nosso inesquecível
Manelão.
Cineas Santos
Professor |