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Um pouco sobre mim

Cineas das Chagas Santos nasceu em Campo Formoso, município de Caracol (PI), em setembro de 48. Vive em Teresina desde 65. Professor, editor e livreiro, fundou, com alguns companheiros de geração, o jornal alternativo “Chapada do Corisco” (76/77). É proprietário da Oficina da Palavra e coordena o grupo A Cara Alegre do Piauí. Publicou: Miudezas em Geral (poesia); Tinha que Acontecer (contos); ABC da Ecologia (cordel); Aldeia Grande (humor) e o Menino que Descobriu as Palavras (infantil).

 


Curicas no Quintal

cineasantos@hotmail.com


      Certa feita, dileta amiga percebeu em mim uma indeclinável vocação para a pobreza. No entender dela, “pobre se contenta com muito pouco e se alegra até com o nascimento do 13º filho quando não possui o suficiente para alimentar a penca que já carrega”. Respondi com um arremedo de metáfora: pesco minha felicidade em lagoa rasa com anzol de linha curta, ou seja, não preciso, como o poeta William Black, ver um anjo de asas iridescentes para experimentar o gostinho inconfundível da felicidade. Assim tem sido e espero que continue assim até que o alemão me sequestre...

 

            Mas eu falava mesmo de quê? Ah, na semana passada, experimentei uma alegria só comparável à do menino pobre que acaba de ganhar sua primeira bola de presente. Estou prestes a tornar-me avô. Devagar: eu explico. Gozo do raro privilégio de morar numa casa com um quintal cheio de árvores. E onde há árvores, há pássaros e canto e (perdoem a rima) encanto. Na manhã de segunda-feira, despertei com a arenga irritante de um velho bem-te-vi possessivo, que atende pelo nome de Balzac. Por estar há muito tempo no terreiro, ele se julga mais dono do meu quintal do que eu. Naquela manhã, ele parecia particularmente irritado. Levantei-me e fui conferir o porquê da arenga. Para desespero dele e alegria minha, num cupinzeiro abandonado, no pé de jatobá, um casal de curicas escavava seu ninho. A bem da verdade, só a fêmea escavava; o macho, atento, botava sentido no trabalho da companheira. “Pássaro machista!” – berrarão as feministas de plantão, mas a Natureza não dá a menor bola para o “politicamente correto”. Para ela, só duas leis efetivamente interessam: a da sobrevivência e da perpetuação da espécie. O mais é paisagem. Por duas ou três vezes, vi a curiquinha de sentinela escorraçar o bem-te-vi que se aventurava a perturbar o trabalho da sua companheira. Entretido com a labuta do casal, quase perdi a noção da hora...

 

            Antes que me perguntem o que há de tão fascinante no ato de um pássaro  construir seu ninho, eu vos respondo: nada a não ser a expectativa de uma vida a caminho. Antes que me digam que, nessa altura da vida, eu deveria estar preocupado com coisas mais sérias, eu vos direi que, para mim, nada é mais importante que a vida, seja a de um Mozart, seja a de um besouro mangangá...

 

            A partir daquela manhã mágica, passei a cuidar do casal curicas com o zelo de um pai que prepara o enxoval da filha nubente. Ao menor sinal de alerta, corro ao quintal para ver se algum intruso está perturbando o sossego dos pássaros. Há dois dias, não hesitei em atirar pedras num gavião que, com a maior desfaçatez, posou no sapotizeiro com ar de quem estava apenas de passagem... Ver aquelas curiquinhas nidificarem em meu quintal provocou em mim uma sensação estranha, misto de alegria e apreensão. Alegria por oferecer guaridas a uma ave que, pelo menos em Teresina, está se tornando uma raridade. Apreensão por saber que as duas curiquinhas seguramente integram o bando das aves sem-árvores, face à destruição do “cinturão verde” que circundava a cidade. Quando bandos de animais silvestres aparecem repentinamente nos centros urbanos, convém acender a luzinha amarela. Significa: o habitat deles está sendo destruído. Quem não se lembra daquelas pobres capivaras tentando vãmente sobreviver nas águas envenenadas do Tietê? Ao contrário do que garantem as Escrituras, em nosso país, os mansos serão os primeiros a desaparecer da Terra. Neste espaço, já lhes falei de um bando de bem-te-vis (dezoito, para ser preciso) que, no ano passou, invadiu o meu quintal como uma legião de sem-terra. Houve uma guerra entre os pássaros, o que resultou na morte de um deles. Bem-te-vis são aves naturalmente agressivas, mas não a ponto de se matarem por uma nesga de quintal. Alguma coisa está fora de ordem.

 

            Mas a vida não para de me surpreender. Ao dobrar o cabo da desesperança (adentrar a casa dos 60), três surpresas me aguardavam: pela primeira vez na vida, aceitei um cargo público; quando já devia estar sonhando com aposentadoria, tornei-me  “garoto de programa”, isto é, passei a fazer um programa de TV. Não bastasse isso, estou ansioso por me tornar avô de duas verdejantes curiquinhas... Mistério, como diria o nosso inesquecível Manelão.

          

Cineas Santos

Professor

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