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Manuel
Bandeira termina o poema “Balada
das três mulheres do sabonete Araxá”
assim: “Se me perguntassem:
Queres ser estrela? queres ser rei?
queres uma ilha no Pacífico? um
bangalô em Copacabana?/ Eu
responderia: eu não quero nada
disso, tetrarca. Eu só quero as
três mulheres do sabonete Araxá/. O
meu reino pelas três mulheres do
sabonete Araxá”. Esse poema,
escrachadamente lírico, sempre me
fascinou. Costumo recitá-lo
sozinho, trocando apenas a
expressão ‘as três mulheres do
sabonete Araxá’ pelo substantivo
professor. Pode parecer estranho
que, num país onde o magistério é
tão desvalorizado, alguém queira
ser apenas professor. Com incômoda
frequência, me perguntam: “O senhor
ainda continua lecionando?”
Atentem no advérbio ainda. É
como se a minha profissão fosse
apenas um “bico” enquanto não
arranjo “algo melhor”. Com ardente
paciência, explico que não estou em
sala de aula por exclusão.
Tornei-me professor por acreditar
que poderia contribuir, ainda que
minimamente, para tornar minha
aldeia um pouco melhor. O que o
magistério me deu? Tudo:
visibilidade, credibilidade, o
respeito de muitos e a estima de
alguns. Para um homem do meu tope,
é pouco menos que a glória.
Mas toda essa arenga é
apenas pretexto para contar uma
história que me deixou “comovido
como o diabo”, para usar um verso
de Drummond. Na semana passada,
fomos ao povoado Santa Teresa, zona
rural de Teresina, iniciar um
programa de inclusão cultural na
comunidade. Na Escola Santa
Teresa, fomos recepcionados
pelos alunos com uma bela
manifestação de canto e dança.
Antes do início das atividades
(oficinas de pintura, escultura em
argila, dança e flauta doce), fui
abordado por um garoto negro, de
uns doze anos de idade. O moleque
queria um autógrafo. Confesso que
nunca me senti à vontade
distribuindo autógrafos. Não tenho
vocação para o estrelato. Diante da
insistência do moço, fiz questão de
saber o porquê daquele pedido
estranho. Com incrível
desenvoltura, ele me disse: “Sou
admirador do seu trabalho. Eu
sempre assisti àquelas aulas que o
senhor dava na TV Assembleia.
Quando o senhor passou a fazer um
programa na TV Cidade Verde, passei
a assistir a todos eles. Mas minha
mãe implicava comigo, dizia que o
programa era chato, que não via
graça nenhuma naquilo. Pra ela
parar de me aborrecer, trabalhei
duro, ralei muito, mas comprei um
televisorzinho deste tamanho (fez
um gesto com as mãos) para
assistir ao seu programa
sem ninguém me encher o saco”.
Fiquei literalmente no ar. Refeito,
fiz apenas um comentário bobo:
liberdade é isso, garoto: fazer
escolhas e pagar por elas. Tudo tem
um preço. Certamente aquele
adolescente não vê o programa
Feito em Casa pela cor dos meus
olhos nem pelo algodão que me cobre
a carapinha. Ele deve apreciar a
prosa informal, mas didática do
velho professor. Relutei muito em
contar essa história: não faltará
quem, maliciosamente, afirme
tratar-se de puro marketing
ou simples cabotinismo. Felizmente,
alguns professores presenciaram a
cena. O garoto existe, está
regularmente matriculado na 5ª
série da Escola Santa Teresa
e atende pelo nome de Luís.
Por essas e outras,
“ainda” sou professor. Não perdi o
prazer de ensinar nem o desejo de
aprender. Afinal de contas,
Guimarães Rosa estava certo:
“Professor é quem de repente
aprende”. Nada além.
Cineas Santos
Professor |