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Desde que me entendo por gente,
sofro daquela “inquietação de
espírito” de que falava o poeta
Bandeira, que me impele a fazer
coisas num ritmo alucinante. Tenho
sérias razões para desconfiar que
talvez eu seja um fóssil do último
homo faber a deambular pelo
Planeta. É certo que jamais fiz
algo de grandioso ou
extraordinário. Faço apenas
coisinhas, mas faço com tal
constância e com tamanha
intensidade que o resultado ganha
alguma visibilidade. Para que se
tenha uma ideia desse incessante
labor, cheguei a Teresina em maio
de 65 e, no início de 69, já estava
à frente de um grupo de teatro
amador mambembeando pelo interior
do Piauí e do Maranhão. A partir de
então, com “ardente paciência”,
venho fazendo, fazendo, fazendo...
Graças a essa compulsão
por fazer, ministramos milhares de
aulas, proferimos centenas de
conferências, promovemos encontros
culturais, realizamos eventos e
percorremos o Piauí inteiro à
frente da caravana A Cara
Alegre do Piauí. Como só sei
conjugar o verbo fazer na 1ª pessoa
do plural, sempre estive na
companhia de pessoas do melhor
quilate, entre elas, Paulo Machado,
parceiro de primeira hora. Aprendi
com Ulisses Guimarães que “O que
não soma não conta”. Somar para
acrescentar e compartilhar. Por
incrível que pareça, a despeito
desse ritmo galopante, sempre me
sobrou alguma nesguinha de tempo
para ser feliz.
Ao adentrar o portal da
senescência, seria natural que eu
já estivesse pensando em pijama,
cadeira de balanço, sandália
franciscana, livro de memórias,
passeios com os netinhos (que não
tenho) e outras pequenas “regalias”
que a velhice nos concede.
Decididamente, não. Com a cara e a
coragem, estou encarando um novo
desafio: apresentar um programa de
TV
cujo
título - Feito em Casa -
título diz tudo.
Há coisa de dois
anos, Jesus Filho, da TV Cidade
Verde, me pediu que pensasse
num programa cultural para ser
exibido nas manhãs de domingo. De
cara, um desafio: como fazê-lo, com
recursos limitados e sem apelar
para a baixaria capaz de garantir
audiência fácil? Não bastasse isso,
decididamente não sou do ramo; não
sou um bom “garoto de programa”.
Ainda assim, resolvi pagar para
ver. Montei Feito em Casa
com uma estrutura mínima e uma
proposta clara e precisa: revelar
Teresina aos habitantes da cidade.
Nesse aspecto, o programa visa
elevar a autoestima do teresinense,
cuja visão da capital do Piauí é
bastante negativa. Pretendemos
mostrar o trabalho das pessoas que
fazem, que atuam nas mais diversas
áreas, que interferem na vida de
todos nós. Teresina tem uma cultura
rica e multifacetada, mas pouco
valorizada. Vamos abrir espaço para
os trabalhadores culturais sem
discriminação de nenhuma ordem. O
critério a ser observado será
sempre o da qualidade. O mais corre
por conta do público, que tem a
palavra final. Para mim, que só
faço o que me dá prazer, Feito
em Casa vem se revelando um
aprendizado estimulante e
prazeroso.
A reação dos
telespectadores tem sido positiva,
notadamente a das pessoas mais
humildes. É gratificante constatar
que o porteiro de uma clínica
médica sabe apreciar a sofisticação
da música “Beatriz, de Chico
Buarque e Edu Lobo, executada
competentemente pelo violonista
Josué Costa. Como diria o meu amigo
Jarbas, entre o erudito e o
popular, prefiro o bom. O mais é
paisagem.
Cineas Santos
Professor |