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Com
a autoridade de quem já adentrou o
solar da senescência, posso
assegurar-vos que a velhice não nos
traz sabedoria alguma nem nos faz
merecedores do respeito ou da
reverência dos mais jovens. Num
país como o nosso, onde grassa a
síndrome de Dorian Gray,
envelhecer é quase uma praga. De
qualquer forma, há um consolo: não
chegar à velhice é um pouco pior. É
certo que, para quem se contenta
com o mínimo, há pequenas
compensações. Uma delas é poder ler
ou reler os autores preferidos com
paciência, sem a necessidade de
prestar contas a ninguém desse raro
e incomparável prazer. Machado de
Assis, por exemplo, é autor para
ser lido e relido por velhos. A
cada releitura, se descobrem
nuanças que permaneciam acoitadas
nas entrelinhas. Em Machado, às
vezes, o não-dito é de uma
eloqüência sem par.
Dia desses, lembrei-me de
um trecho de Memórias Póstumas
que tem muito a nos revelar sobre
a alma humana. Quem não se lembra
daquela passagem em que Brás Cubas
encontra, numa calçada qualquer,
uma moedinha de meia dobra de
ouro? Num gesto largo, de rara
nobreza, Cubas remete a moeda ao
chefe de polícia para que a devolva
ao seu verdadeiro dono. Tal gesto
rendeu-lhe a admiração das damas e
o respeito dos seus pares. Meses
depois, perambulando pela praia do
Botofago, o mesmo Brás Cubas chuta
um embrulho compacto, atado com
barbante. Leva-o para casa e,
surpreso, descobre que o pacote
agasalha nada menos de cinco contos
de réis, dinheiro suficiente, à
época, para subornar um ministro.
Tivesse procurado o chefe de
polícia para repetir o gesto da
moedinha, teria alcançado, talvez,
o posto de ministro a que tanto
aspirava. Preferiu dar “melhor”
destinação ao dinheiro: usou-o para
subornar a costureira Plácida em
cuja casa encontrava-se com
Vírgília, a amante.
Por que me ocorreu essa
lembrança? Uma história banal: no
início da semana passada, entrei
num armarinho para comprar uma
bugiganga qualquer. A moça do caixa
estava ocupada em contar e recontar
moedas, empilhando-as conforme o
valor. Sem levantar a vista, sem
prestar atenção em mim, entregou-me
o troco e a mercadoria. Fazia uma
manhã chuvosa, cinzenta, dessas que
pedem cama e livro. Eu deixara o
carro distante do local da compra
por não encontrar estacionamento.
Quando regressei ao veículo, meio
molhado, percebi, no saquinho de
plástico, cinco notas de dois
reais. Disparei um sonoro palavrão
e voltei pelo mesmo caminho para
devolver os caraminguás à moça
desatenta. A infeliz já se dera
pela falta do dinheiro e parecia
bastante aflita. Sem muita
conversa, limitei-me a devolver-lhe
os trocados. Nem esperei para ouvir
a chuva de agradecimentos. Nesse
ínterim, a chuva verdadeira
tornara-se mais densa. No carro,
completamente ensopado, lembrei-me
do Brás Cubas, sorri e me
perguntei: e se em vez de cinco
notas de dois reais, fossem
dez cédulas de cem? Creio que
eu também as devolveria: até hoje,
não me flagrei furtando nada de
ninguém. Mas (por que não
confessar?) também jamais fui
testado pelo destino. Nunca
encontrei, por exemplo, um pacote
com cinco mil reais dando sopa por
aí. Talvez o Brás Cubas adormecido
em mim me aconselhasse a proceder
exatamente como ele. Para fechar
com Machado, “A ocasião não faz o
ladrão; apenas o revela”. Nunca se
sabe, nunca se sabe...
Cineas Santos
Professor |