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Sábado,
dia 4, “ressuscitamos” o Projeto
Picoler, concebido e posto em
prática, por curto espaço de tempo
(em 2002), pela artista plástica
Liz Medeiros. O projeto é tão
simples, de tão fácil execução e
tão generoso em sua proposta que só
poderia ter sido gestado pelo
cérebro, ou melhor, pelo coração de
alguém da estatura de Liz. Eram dez
carrinhos de picolé recheados de
livros infantis que percorriam as
ruas da cidade, paravam em praças e
logradouros públicos propiciando às
crianças, notadamente as mais
pobres, acesso a um acervo de mais
de mil livros. É inconcebível que
uma iniciativa de tamanho alcance
social tenha sido interrompida “por
motivos políticos”. Mas é assim que
funcionam as coisas no país.
Mal
assumi a presidência da FMC,
convoquei a cabroeira para
recuperarmos o Picoler.
Localizamos os carrinhos, bastante
avariados, mas recuperáveis. Todos
estavam sem os pneus, mas acervo
(ninguém rouba livros no país)
estava preservado. Acrescentamos ao
projeto música, teatro, contação de
histórias e, na manhã de sábado,
acampamos na Vila Irmã Dulce, um
dos bairros mais pobres de
Teresina. Para fazer jus ao nome do
projeto, adicionamos um picolé
caseiro para cada criança que
participasse da festa. Sucesso
absoluto: mas de 600 crianças
cantaram, dançaram, ouviram
histórias e leram poemas e
historinhas. No dia 18 do mês em
curso, estaremos na Santa Maria da
Codipi e no bairro Monte Verde, com
duas versões do Picoler: uma
para crianças e outra para
adolescentes. Para estes, além de
sessões de leitura, serão
ministradas oficinas de música,
dança, teatro e redação criativa.
Acreditamos que, num período não
muito longo, o projeto chegará aos
jovens da terceira idade.
Era esse o sonho da Liz. Em
parceria com as secretarias da
Saúde, do Meio Ambiente e da
Juventude, percorreremos os bairros
de Teresina distribuindo livros,
escovas de dente, mudas de árvores
e, principalmente, esperança.
No
final do dia, fui procurado por uma
jornalista que me pediu “um perfil
da Liz Medeiros”. Confesso que tive
dificuldade para desincumbir-me da
missão. É que a Liz, sendo única,
era múltipla: como artista
plástica, estava sempre buscando
novas formas de expressão; como
cidadã, nunca se omitiu nem perdeu
a capacidade de indignar-se diante
das injustiças. No mais, era uma
cara de lua cheia de alegria, um
sorriso escancarado e uma
capacidade extraordinária de se
fazer amada de todos. Não fosse
lugar comum, diríamos que Liz
Medeiros era uma “tempestade de
mulher”, alguém com uma alma tão
grande, tão generosa, tão carente
de amplidão, que o corpo não
conseguiu comportá-la. Um dia, sem
aviso prévio, a Liz livrou-se do
corpo debilitado e se fez luz.
Deixou uma obra extraordinária que
honra e dignifica a cultura
piauiense. Deixou um projeto de
inclusão cultural que agora leva o
seu nome: PROJETO PICOLER LIZ
MEDIEORS Deixou, principalmente,
uma lição de vida a ser imitada
por todos nós. A bênção, Liz/luz.
Cineas Santos
Professor |