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Quem
esteve no Teresina Shopping, na
semana passada, certamente viu uma
magnífica exposição de bordados –
Feira de Bordados da Caatinga
- obra realizada, com esmero e
arte, por mulheres camponesas do
sertão do Piauí. Eram colchas,
toalhas, guardanapos e lenços de
linho, bordados à mão pelas
catingueiras de Dom Inocêncio,
um dos municípios mais pobre do
Brasil. O que, certamente, pouca
gente sabe é que, por trás daquelas
peças de fino acabamento,
esconde-se um nonagenário meio
surdo, quase cego,
que caminha tropegamente apoiado numa rústica
bengala. Trata-se de Manuel Lira
Parente, um padre à moda antiga que
não hesita em afirmar: “ Deus me
deu duas mãos para acariciar e
abençoar e dois pés para escoicear.
Dependendo das circunstâncias,
posso usar o que o freguês
merecer”. Mais que um simples
sacerdote, Pe. Lira tornou-se uma
espécie de legenda no sertão do
Piauí.
Nascido em Bom Jesus do
Gurgueia (PI) em 1919, de uma
família rica, para os padrões
piauienses, muito cedo fez sua
opção preferencial pelos pobres.
Recém-ordenado, mudou-se para São
Raimundo Nonato onde ajudou a
construir o Ginásio Dom
Inocêncio, de saudosa memória.
Não satisfeito, atribuiu-se a
missão de lutar e pela erradicação
da pobreza absoluta e do
analfabetismo. Acreditava que, com
ações inteligentes, poderia
minimizar os efeitos das secas no
sertão piauiense. Tantas fez que
se elegeu prefeito de São Raimundo
Nonato (1955-1958). Desencantado
com os rumos da política são-raimundense, “exilou-se” no
povoado mais pobre e mais remoto do
município – Curral Novo, onde vivia
um punhado de camponeses à margem
de tudo. Encravado no coração do
semi-árido, a 120 Km da cidade de
S. R. Nonato, Curral Novo não
dispunha de água potável, estradas,
escolas, igreja, nada. Como diria o
poeta Dobal, ali , entre cactos e
bromélias, escondiam-se os homens
“e os outros bichos esquecidos”.
Em 1963, o Pe. Lira
criou a Fundação Ruralista,
iniciativa que mudaria a vida
daquela gente sofrida e resultaria
na criação do município de Dom
Inocêncio, em 1989. Prefeito do
município recém-criado (em três
legislaturas), conseguiu a rara
proeza de transformar Dom Inocência
em referência nacional na área da
educação. Nas escolas mantidas pela
Fundação Ruralista, as meninas
aprendiam matemática contando os
pontos dos bordados que faziam nas
aulas práticas. Hoje, mais de 500
mulheres ganham a vida bordando
peças que são vendidas em todo
mundo. A despeito da idade, o velho
pároco ainda encontra forças para
perambular pelo Brasil expondo e
vendendo as peças criadas pelas
catingueiras de sua
paróquia.
Já se afirmou, com
alguma propriedade, que nenhum
homem é maior que sua época. É
inegável, contudo, que existem
homens capazes de tornar menos
ruim a época em que viveram. Padre
Manuel Lira Parente é um deles. Sua
dedicação, sua fé, sua ação
solidária nos levam a creditar na
possibilidade da construção de um
mundo melhor. Longa vida, pois, a
esse velho guerreiro que, ao
contrário da maioria dos seus
irmãos de credo, luta pela salvação
dos homens aqui na terra.
Cineas Santos
Professor |