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Março de 1939. No ar, já se
percebiam prenúncios de um conflito
que se arrastaria por seis anos,
ceifaria milhões de vida e deixaria
cicatrizes indeléveis na memória
da
humanidade.
Indiferente aos ruídos do mundo, na
manhã do dia 19 daquele mês, nascia
um menino miúdo com a indeclinável
vocação para passarinho. Por ter
nascido no dia do “Casto Esposo
de Maria”, deram-lhe o nome de
José. Contudo, aos olhos da mãe,
não bastava a proteção do santo,
que é sinônimo de resignação e
humildade, seria necessário alguém
suficientemente lúcido para
pavimentar-lhe o caminho. A escolha
recaiu sobre Elias, o mais austero
e determinado dos profetas. Sob
dupla proteção, José Elias
atirou-se à vida de peito aberto
como quem mergulha em águas
conhecidas.
Muito cedo, revelou sua
vocação (como direi?) franciscana.
Aos três anos de idade, os pais o
levaram à fazenda da família.
Entretidos com os parentes,
descuidaram-se, por alguns minutos,
do pequeno Zé que, impávido, rumou
para o curral das vacas onde
literalmente mergulhou num mar de
merda. Não fosse a presteza do
vaqueiro da fazenda, certamente
teria abreviado sua passagem por
esse val de lágrimas. Agora,
sim, ungido com bosta de boi,
estava pronta para estrear como
menino maluquinho no teatro do
mundo.
Esse bem que poderia ser o
parágrafo inicial de uma biografia
de José Elias Arêa Leão, o mais
simples, solidário e generoso dos
viventes nascidos na Chapada do
Corisco. Mas isso ainda diz
pouco desse moço bem-nascido que,
alheio às pompas do mundo, fugiu
dos holofotes e ignorou as
convenções para misturar-se aos
humildes. Com seu sorriso
inconfundível, Elias chega aos 70
anos com o espírito travesso de um
moleque prestes a perpetrar mais
uma reinação.
Não existisse de verdade,
mais cedo ou mais tarde, teria sido
inventado pelo Ziraldo. Para tanto,
bastariam a cabeça do Menino
Maluquinho e o coração do
Jeremias, o bom. O corpo
poderia ser emprestado de qualquer
moleque entanguido, desses que
perambulam descalços por ruas e
becos de Teresina. Alegre,
irrequieto, solidário e feliz, o
septuagenário Zé Elias, a quem o
mestre Paulo Nunes prefere chamar
de Zezé Leão (alusão a um parente
com fama de bravo), ainda não sabe
o que vai ser quando crescer. Se
depender dele, será apenas um
menino velho que não dá guarida à
tristeza, não agasalha ódio no
embornal do peito e teima em
acreditar que a felicidade mora
logo ali na próxima esquina.
Com o mesmo sorriso com
que acolhia a todos em seu gabinete
de Secretário de Cultura do Piauí,
Zé Elias dividia com os servidores
mais humildes daquela casa os
louros de cada conquista. Ia um
pouco além: dividia o próprio
salário com os mais necessitados
como se fosse um riquinho pródigo.
Se toda unanimidade é burra, como
afirmava Nelson Rodrigues, Elias é
o troféu de “burrice” que fazemos
questão de exibir. Estimado de
todos, esse cidadão do mundo
dignifica a palavra amizade.
Cineas Santos
Professor |