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Que
me perdoem os que fazem apologia da
“melhor idade”. Prefiro o humor
rascante do velho Rubem Braga:
“Envelhecer é uma merda”. E não me
venham com o argumento consolativo
de que “a velhice nos traz
sabedoria”. De que adiante ser
“sábio” se ninguém nos leva a
sério? Ademais, pelo menos no meu
caso, a senescência não me
acrescentou um côvado de sabedoria.
Estou (por que não confessar?) cada
vez mais parvo, mais bronco, mais
tosco. Deve ser defeito de
fabricação...
O que me consola é o
humor. Aprendi a rir de mim mesmo e
o faço com alguma frequência.
Motivos não me faltam. Há dois
anos, aconteceu-me algo muito
engraçado. Numa noite que não
prometia nada, resolvi assistir a
um filme que se exibia num dos
cinemas de Teresina.
Desacompanhado, entrei na fila que,
de cara, me pareceu festiva e
colorida demais para o meu
gosto. O filme era nada menos que
Femme Fatale, com a
“translumbrante” Rebecca Ranijn
que, lá pelas tantas, protagoniza
uma caliente cena de
lesbianismo explícito. Ao chegar ao
guichê, a mocinha me olhou com
olhar perscrutador, conferiu-me a
carapinha recoberta de algodão,
olhou para os ingressos, voltou a
encarar-me e, levemente
constrangida, arriscou: -
Senhor, posso lhe fazer uma
pergunta indiscreta? Tremi nos
tamancos. Meu Deus, a cidadã vai me
perguntar, com certeza, se sou
gay ou apenas simpatizante...
Como responder a esse tipo de
pergunta? Se alguém tem algum
problema mental, por exemplo, e
insiste em afirmar que não é
“louco”, estará apenas apressando a
internação nalguma instituição
psiquiátrica. Preparei-me para o
pior. A mocinha, vendo meu
embaraço, explicou: - Se o
senhor tiver mais de 60 anos,
pagará apenas meia... Paguei
inteira e pude assistir ao
filme sem maiores traumas.
Ao cruzar o nefasto
cabo do condor, pensei com meus
botões: pelos menos terei o
“privilégio” nos aeroportos e nas
filas dos bancos. Nada mais
enganador: nos aeroportos, tão logo
os agentes abrem a “porteira”, os
apressadinhos atropelam os que
tropegamente tentam chegar à
aeronave. Nos bancos, a situação é
um pouco pior, por três razões: a
primeira delas: a população dos
idosos está crescendo em ritmo
acelerado; a segunda: os velhos são
mais lentos, o que
retarda a avanço da fila; a
terceira: filhos e netos
inescrupulosos exploram os idosos,
encarregando-os de pagar toneladas
de carnês de todo gênero. A fila
simplesmente caduca e cria raízes,
não avança.
Na semana passada, entrei
na fila dos “privilegiados” e me
preparei para o pior. À minha
frente, umas dez pessoas
arrastavam-se como lesmas
estropiadas. Penei por mais de uma
hora sem ter a quem recorrer. Mais
uma vez, salvou-me o humor. Na
fila, aprendi com um cidadão de 76
anos que não há remédio mais
eficiente para “esquecimento” (Alzheimer)
do que chá de pó de couro de
Jacaré. O problema é
convencer os agentes do Ibama de
que os fins justificam os meios.
Naquela fila, que não andava,
apenas um cidadão permanecia feliz
e indiferente aos rugidos do mundo:
um bebê que, gulosamente, sugava a
teta da mãe. Por um segundo, senti
a agulhada da inveja... Meu Deus,
por que me incluir no rol dos
senescentes quando eu poderia estar
entre os lactentes? Ainda bem que
Deus, que é muito velho, também não
nos leva a sério.
Cineas Santos
Professor |