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Um pouco sobre mim

Cineas das Chagas Santos nasceu em Campo Formoso, município de Caracol (PI), em setembro de 48. Vive em Teresina desde 65. Professor, editor e livreiro, fundou, com alguns companheiros de geração, o jornal alternativo “Chapada do Corisco” (76/77). É proprietário da Oficina da Palavra e coordena o grupo A Cara Alegre do Piauí. Publicou: Miudezas em Geral (poesia); Tinha que Acontecer (contos); ABC da Ecologia (cordel); Aldeia Grande (humor) e o Menino que Descobriu as Palavras (infantil).

 


As despesas do envelhecer (II)

cineasantos@hotmail.com


       Que me perdoem os que fazem apologia da “melhor idade”. Prefiro o humor rascante do velho Rubem Braga: “Envelhecer é uma merda”. E não me venham com o argumento consolativo de que “a velhice nos traz sabedoria”. De que adiante ser “sábio” se ninguém nos leva a sério? Ademais, pelo menos no meu caso, a senescência não me acrescentou um côvado de sabedoria. Estou (por que não confessar?) cada vez mais parvo, mais bronco, mais tosco.  Deve ser defeito de fabricação...

 

         O que me consola é o humor. Aprendi a rir de mim mesmo e o faço com alguma frequência. Motivos não me faltam. Há dois anos, aconteceu-me algo muito engraçado. Numa noite que não prometia nada, resolvi assistir a um filme que se exibia num dos cinemas de Teresina. Desacompanhado, entrei na fila que, de cara, me pareceu festiva e colorida demais para o meu gosto. O filme era nada menos que Femme Fatale, com a “translumbrante” Rebecca Ranijn que, lá pelas tantas, protagoniza uma  caliente cena de lesbianismo explícito. Ao chegar ao guichê, a mocinha me olhou com olhar perscrutador, conferiu-me a carapinha recoberta de algodão, olhou para os ingressos, voltou a encarar-me e, levemente constrangida, arriscou: - Senhor, posso lhe fazer uma pergunta indiscreta? Tremi nos tamancos. Meu Deus, a cidadã vai me perguntar, com certeza, se sou gay ou apenas simpatizante... Como responder a esse tipo de pergunta?  Se alguém tem algum problema mental, por exemplo, e insiste em afirmar que não é “louco”, estará apenas apressando a internação nalguma instituição psiquiátrica. Preparei-me para o pior. A mocinha, vendo meu embaraço, explicou: - Se o senhor tiver mais de 60 anos, pagará apenas meia... Paguei inteira e pude assistir ao filme sem maiores traumas.

 

         Ao cruzar o nefasto cabo do condor, pensei com meus botões: pelos menos terei o “privilégio” nos aeroportos e nas filas dos bancos. Nada mais enganador: nos aeroportos, tão logo os agentes abrem a “porteira”, os apressadinhos atropelam os que tropegamente tentam chegar à aeronave. Nos bancos, a situação é um pouco pior, por três razões: a primeira delas: a população dos idosos está crescendo em ritmo acelerado; a segunda: os velhos são mais lentos, o que retarda a avanço da fila; a terceira: filhos e netos inescrupulosos exploram os idosos, encarregando-os de pagar toneladas de carnês de todo gênero. A fila simplesmente caduca e cria raízes, não avança.

 

         Na semana passada, entrei na fila dos “privilegiados” e me preparei para o pior. À minha frente, umas dez pessoas arrastavam-se como lesmas estropiadas. Penei por mais de uma hora sem ter a quem recorrer. Mais uma vez, salvou-me o humor. Na fila, aprendi com um cidadão de 76 anos que não há remédio mais eficiente para “esquecimento” (Alzheimer) do que chá de pó de couro de Jacaré. O problema é convencer os agentes do Ibama de que os fins justificam os meios. Naquela fila, que não andava, apenas um  cidadão permanecia feliz e indiferente aos rugidos do mundo: um bebê que, gulosamente, sugava a teta da mãe. Por um segundo, senti a agulhada da inveja... Meu Deus, por que me incluir no rol dos senescentes quando eu poderia estar entre os lactentes? Ainda bem que Deus, que é muito velho, também não nos leva a sério.

 

Cineas Santos

Professor

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Está coluna é de inteira responsabilidade do colunista Cineas Santos

 

 

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