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Certeiro e exato como um tiro de
lazarina, seu Liberato me queria
João. Um João raso em aspirações,
capaz de se contentar com a frugal
colheita de cada ano, dependendo
sempre da boa vontade dos céus. Um
João fincado nos cafundós do
Caracol, regando o chão com o suor
do próprio corpo, campeando nuvens
magras, cuidando de cabras e
jegues, criaturas pouco exigentes.
Dona Purcina, que “enxergava
longe”, me queria distante dos
limites estreitos da gleba Campo
Formoso. Sacrificou tudo para ver
os filhos “ encaminhados na
vida”,ou seja, letrados. Estivesse
viva, comprovaria, desapontada,
que, pelo menos no que me toca,
falhou redondamente. É certo que
aprendi a ler; não enveredei pelos
caminhos da marginalidade e ganho o
pão com o suor do meu rosto. Mas
as colheitas têm sido tão magras
quanto às do árido sertão onde
nasci. No limiar da senectude, não
passo de um Sísifo
sertanejo, condenado a voltar
sempre à estaca zero , num
recomeçar incessante, sem rumo e
sem termo.
Essas reflexões
amargas começaram a verrumar-me o
juízo quando se instituiu, no país,
a chamada “bolsa ditadura” que já
beneficiou quase dez mil patrícios.
Alguns foram aquinhoados com cifras
milionárias e, pelo resto de suas
vidas, terão direito a um salário
generoso. Nada contra esses bravos
brasileiros que combateram a
ditadura, pondo em risco a própria
existência. A questão é outra:
embora sem integrar nenhuma facção
revolucionária, eu também, à minha
maneira, combati o bom combate. Se
não, vejamos: em 1969, juntei um
punhado de camaradas e fundei um
grupo mambembe rotulado Teatro
Popular do Piauí. Com todas as
dificuldades imagináveis e mais
algumas, encenamos uma peça
pavorosa denominada “Uma noite
entre miseráveis”, de minha
autoria. O texto era um pasticho
ordinário de “Dois Perdidos Numa
Noite Suja”, de Plínio Marcos, e
“Morte e vida Severina”, de João
Cabral de Melo Neto. À época, a
censura prévia proibia ou mutilava
peças em todo o país. No nosso
caso, a peça foi apresentada, sem
cortes, em Bacabal (MA). Ninguém a
censurou, ninguém a proibiu,
ninguém tomou conhecimento de sua
existência.
Na Faculdade de Direito
(1971), eu e alguns colegas
fundamos o jornalzinho “O
Cartucho”, pretensioso e inofensivo
como a explosão de um traque. O
máximo que me aconteceu foi ouvir
uma descompostura do Des. Robert
Wall de Carvalho, por causa de um
artigo assinado por mim, denominado
“De como evitar o verbo assistir na
universidade”. Em 76, juntei alguns
camaradinhas e fundei o jornal
alternativo “Chapada do Corisco”,
de vida efêmera e estéril. A cada
número que chegava às bancas, a
Polícia Federal me convocava para
fazer as mesmas perguntas: “Quem
financia o jornal? Quem são os
colaboradores?”. Nada além. Como
produtor cultural, trouxe a
Teresina as figuras mais visadas
pela ditadura: Plínio Marcos,
Henfil, João Antônio , Coentro,
Fortuna, entre outros. Não fui
importunado. Como professor, falei
o que quis em sala de aula e nenhum
diretor me demitiu ou censurou.
Resumo da ópera: ninguém me
propiciou um pretexto para que eu
possa reivindicar junto à Comissão
de Anistia uma reparação por perdas
e danos ou lucros cessantes. Hoje,
falido e mal pago, não posso culpar
a ninguém por meu fracasso.
Agora, só me resta
esperar “o bolsa descendentes de
escravos”, ainda assim, corro o
risco de não ser considerado “um
negro legítimo”, já que estou mais
para sarará miolo do que para negão
retinto. Fazer o quê?
Cineas Santos
Professor |