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Um pouco sobre mim

Cineas das Chagas Santos nasceu em Campo Formoso, município de Caracol (PI), em setembro de 48. Vive em Teresina desde 65. Professor, editor e livreiro, fundou, com alguns companheiros de geração, o jornal alternativo “Chapada do Corisco” (76/77). É proprietário da Oficina da Palavra e coordena o grupo A Cara Alegre do Piauí. Publicou: Miudezas em Geral (poesia); Tinha que Acontecer (contos); ABC da Ecologia (cordel); Aldeia Grande (humor) e o Menino que Descobriu as Palavras (infantil).

 


Um cidadão de reconhecida desimportância

cineasantos@hotmail.com


Certeiro e exato como um tiro de lazarina, seu Liberato me queria João. Um João raso em aspirações, capaz de se contentar com a frugal colheita de cada ano,  dependendo sempre da  boa vontade dos céus. Um João fincado nos cafundós do Caracol, regando o chão com o suor do próprio corpo, campeando nuvens magras, cuidando de cabras e jegues, criaturas pouco exigentes. Dona Purcina, que “enxergava longe”, me queria distante dos limites estreitos da gleba Campo Formoso.  Sacrificou tudo para ver os filhos “ encaminhados na vida”,ou seja, letrados. Estivesse viva, comprovaria, desapontada, que, pelo menos no que me toca, falhou redondamente. É certo que aprendi a ler; não enveredei pelos caminhos da marginalidade e ganho o  pão com o suor do meu rosto. Mas as colheitas têm sido tão magras quanto às do árido sertão onde nasci. No limiar da senectude, não passo de um Sísifo sertanejo, condenado a  voltar sempre à estaca zero , num recomeçar  incessante, sem rumo e sem termo.

 

            Essas reflexões amargas  começaram a verrumar-me o juízo quando se instituiu, no país, a chamada “bolsa ditadura” que já beneficiou quase dez mil patrícios. Alguns foram aquinhoados com cifras milionárias e, pelo resto de suas vidas, terão direito a um salário generoso. Nada contra esses bravos brasileiros que combateram a ditadura, pondo em risco a própria existência. A questão é outra:  embora sem integrar nenhuma facção revolucionária, eu também, à minha maneira, combati o bom combate. Se não, vejamos: em 1969, juntei um punhado de camaradas e fundei um grupo mambembe rotulado Teatro Popular do Piauí. Com todas as dificuldades imagináveis e mais algumas, encenamos uma peça pavorosa denominada “Uma noite entre miseráveis”, de minha autoria. O texto era um pasticho ordinário de “Dois Perdidos Numa Noite Suja”, de Plínio Marcos, e “Morte e vida Severina”, de João Cabral de Melo Neto. À época, a censura prévia  proibia ou mutilava peças em todo o país. No nosso caso, a peça foi apresentada, sem cortes, em Bacabal (MA). Ninguém a censurou, ninguém a proibiu, ninguém tomou conhecimento de sua existência.

 

            Na Faculdade de Direito (1971), eu e alguns colegas fundamos o jornalzinho “O Cartucho”, pretensioso e inofensivo como a explosão de um traque. O máximo que me aconteceu foi ouvir uma descompostura do Des. Robert Wall  de Carvalho, por causa de um artigo assinado por mim, denominado “De como evitar o verbo assistir na universidade”. Em 76, juntei alguns camaradinhas e fundei o jornal alternativo “Chapada do Corisco”, de vida efêmera e estéril.  A cada número que chegava às bancas, a Polícia Federal me convocava para fazer as mesmas perguntas: “Quem financia o jornal? Quem são os colaboradores?”. Nada além. Como produtor cultural, trouxe a Teresina as figuras mais visadas pela ditadura: Plínio Marcos, Henfil, João Antônio , Coentro, Fortuna, entre outros. Não fui importunado. Como professor, falei  o que quis em sala de aula e nenhum diretor me demitiu ou censurou. Resumo da ópera: ninguém me propiciou um pretexto para que eu possa reivindicar junto à Comissão de Anistia uma reparação por perdas e danos ou lucros cessantes.  Hoje, falido e mal pago, não posso culpar a ninguém por meu  fracasso.

 

            Agora, só me resta esperar “o bolsa descendentes de escravos”, ainda assim, corro o risco de não ser considerado “um negro legítimo”, já que estou mais para sarará miolo do que para negão retinto. Fazer o quê?

 

Cineas Santos

Professor

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Está coluna é de inteira responsabilidade do colunista Cineas Santos