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O
lugar onde nasci não poderia ser
menos poético: um chapadão
infestado de cupinzeiros e socas de
alho-bravo, situado num ponto
equidistante entre o nunca e o
nada. Não bastasse isso, ostentava
o mimoso nome de Lagoa dos
Tubis. Dona Purcina, que acreditava
no poder transmudador das palavras,
decidiu rebatizar a gleba com o
nome de Campo Formoso. Com
sua vocação de matriarca, atraiu
parentes, aderentes, agregados e
afins. Em pouco tempo, o lugar
tornou-se habitável. Ainda assim,
ali faltava quase tudo,
principalmente água potável e
livros. O nosso universo vocabular
era indigente, para dizer o mínimo.
Um exemplo: o xingamento mais
tenebroso que conhecíamos era
infeliz. Quando se pretendia
reduzir alguém a nada, bastava
xingá-lo de “infeliz sem sorte”. A
razão parecerá risível:
simplesmente desconhecíamos o
vocábulo feliz. A despeito
disso, como no poema “Vício na
Fala”, de Oswald de Andrade, em que
os personagens diziam “teiados” e
construíam telhados, sem
conhecermos a palavra feliz, às
vezes, a felicidade nos visitava...
À noite, nos meses de
estio, sentávamos na calçada da
casa grande para debulhar milho,
feijão, ou simplesmente prosear um
pouco, “ gozando a fresca da
noite”. Para animar a conversa, os
mais velhos contavam histórias
escabrosas, tendo como personagens
lobisomens, caiporas,
mulas-sem-cabeça, etc. Não era
propósito deles aterrorizar as
crianças; era a pobreza do
repertório. Apavorados, os meninos
encharcávamos as redes puídas. E a
noite era um percutir de cascos,
uivos lancinantes, um nunca
amanhecer...
Numa daquelas noitadas, a
tia mais nova, que se chama Odete,
resolveu cantar (isso mesmo) uma
história fabulosa: a de um moço
corajoso que, nas asas de um
pavão misterioso, raptou a
filha de um conde rico e soberbo
nos longes da Turquia. Repetindo
Bandeira, tive, naquele momento, o
meu primeiro alumbramento.
Experimentei uma sensação
indescritível que, só muito mais
tarde, fiquei sabendo tratar-se de
emoção estética. Naquela noite a
poesia entrou em minha vida,
alojou-se em meu coração para
sempre. Mal aprendi a gaguejar as
palavras, atirei-me à leitura dos
folhetos com a fome dos aflitos.
Mais tarde, no velho Ginásio Dom
Inocêncio, descobri, num
livrinho da Aída Costa, um punhado
de poetas: Casimiro de Abreu,
Gonçalves Dias, Olavo Bilac e um
cidadão de nome estranho –
Alphonsus de Guimaraens – com a
louca Ismália, que me fazia
chorar. Os poemas eram poucos. A
solução era ler e reler até
decorá-los.
Muito tempo depois, já em
Teresina, numa antologia escolar,
li o “Poema de sete faces”, do
Drummond. Uma revelação: descobri
que a poesia podia libertar-se da
jaula da metrificação sem cair no
prosaísmo. Com o tempo, vieram os
outros, entre eles, Bandeira e
Quintana, os mais amados.
Há pouco tempo, li um
poema de J. Cabral de Melo Neto,
“Descoberta da Literatura”, no qual
ele confessa que descobriu a poesia
lendo a “letra analfabeta” dos
folhetos para os trabalhadores do
engenho da família. Partindo do
cordel, Cabral tornou-se um dos
maiores poetas brasileiros. Quando
a mim, imprestável para escrever
poesia, tornei-me apenas leitor,
editor e, principalmente, camelô
dos bons versos dos outros, o que
me basta. Quintana tem razão: “A
poesia é a invenção da verdade”.
Cineas Santos
Professor |