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Há exatos 32 anos, um grupo de
jovens estudantes, liderados por um
professor falastrão, meteu-se numa
empreitada inviável: estabelecer
uma ponte cultural entre Teresina e
os municípios do interior do Piauí.
Inviável porque o projeto não tinha
a chancela de nenhuma instituição
pública ou o patrocínio de qualquer
empresa privada. Não bastasse isso,
todos os integrantes do grupo,
inclusive o professor, eram pobres.
Muito pobres, para ser mais
preciso. A despeito disso,
amontoados num fusquinha
verde-sonho, fizeram algumas
incursões pelo interior do Estado:
Oeiras, Floriano, São Raimundo
Nonato, José de Freitas e Campo
Maior. Não por acaso, o professor
era eu e os jovens: Paulo Machado,
Fernando Costa, Margareth Coelho,
Alcide Filho e Rogério Newton.
Falávamos de literatura, história,
ecologia e exibíamos uma belíssima
exposição-manifesto denominada
“Natureza Morta”, de Fernando
Costa. O título era uma ironia do
Fernando, já que o tema era, na
verdade, a morte da Natureza. Por
razões previsíveis (falta de
dinheiro para a gasolina), o
projeto teve vida efêmera; ainda
assim, provocou algum barulho. Em
Oeiras, por exemplo, um delegado de
polícia me ameaçou publicamente; em
José de Freitas, Alcide Filho quase
saiu no braço com um dos “ donos”
da cidade. Traquinagens de meninos
travessos, diriam os mais velhos.
Pouco tempo depois,
José Elias Area Leão, então
secretário de cultura, incumbiu-me
de capitanear uma caravana de
artistas com o mesmo objetivo:
dialogar com os municípios do
interior do Piauí. Com uma
infraestrutura mínima, visitamos
alguns municípios levando oficinas
e espetáculos nas áreas de dança,
teatro, artes plásticas, literatura
e música. Chegamos até Corrente, no
extremo sul do Estado. Era tudo
muito pobre e, às vezes,
improvisado. Certa feita, em São
Raimundo Nonato, o Zé Elias
demonstrou por que faz jus ao
título de “menino maluquinho”. Como
o local onde se realizariam as
oficinas (Grupo Escolar Rosa
Teixeira) estava imundo, pegou
vassoura, esfregão, água , sabão e
convocou a trupe mambembe para
lavar o espaço. Coisa de artistas
malucos, diriam os mais sérios.
Em 97, na cidade de
Parnaíba, realizávamos um grande
evento cultural, quando o professor
e poeta Fernando Ferraz propôs que
a trupe deveria ser batizada com o
nome de A Cara Alegre do Piauí.
A princípio, relutei: o rótulo me
parecia título de bloco
carnavalesco ou de movimento GLS.
Fernando foi enfático: “Por séculos
a fio, vimos mostrando a cara
triste do Piauí e o máximo que
conseguimos foi o escárnio de
alguns e a piedade de outros.
Decididamente, devemos elevar a
nossa autoestima e mostrar a face
luminosa do Piauí, nossa cultura”.
E assim se fez. Enfrentando
dificuldades de toda ordem, o
Cara Alegre percorreu dezenas
de municípios piauienses, de
Parnaíba a Guaribas. Hoje, o grupo
conta com a participação de mais
de 30 integrantes, do venerável
prof. Santana ao garoto sanfoneiro
Zaqueu. Tantas fizemos que fomos
objeto de uma reportagem especial
da GloboNews. Coisa de gente
metida, diriam os maledicentes.
Agora, à frente da
Fundação Municipal de Cultura Mons.
Chaves, estamos iniciando mais um
empreitada com o mesmo propósito:
estabelecer pontes culturais com o
Piauí que mal conhecemos. O novo
projeto se chama Teresina
Visita. Mais uma vez, vamos
recomeçar por Oeiras, a velha e
sempre amada capital da província
do Piauí. Não sei até quando terei
fôlego para continuar renascendo
das cinzas, mas se Deus o permitir,
quero morrer tentando. Maluquice de
um velho teimoso, dirão todos.
Talvez seja.
Cineas Santos
Professor |