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Um pouco sobre mim

Cineas das Chagas Santos nasceu em Campo Formoso, município de Caracol (PI), em setembro de 48. Vive em Teresina desde 65. Professor, editor e livreiro, fundou, com alguns companheiros de geração, o jornal alternativo “Chapada do Corisco” (76/77). É proprietário da Oficina da Palavra e coordena o grupo A Cara Alegre do Piauí. Publicou: Miudezas em Geral (poesia); Tinha que Acontecer (contos); ABC da Ecologia (cordel); Aldeia Grande (humor) e o Menino que Descobriu as Palavras (infantil).

 


Um projeto em curso

cineasantos@hotmail.com


         Há exatos 32 anos, um grupo de jovens estudantes, liderados por um professor falastrão, meteu-se numa empreitada inviável: estabelecer uma ponte cultural entre Teresina e os municípios do interior do Piauí. Inviável porque o projeto não tinha a chancela de nenhuma instituição pública ou o patrocínio de qualquer empresa privada. Não bastasse isso,  todos  os integrantes do grupo, inclusive o professor, eram pobres. Muito pobres, para ser mais preciso. A despeito disso, amontoados num fusquinha verde-sonho, fizeram algumas incursões pelo interior do Estado: Oeiras, Floriano, São Raimundo Nonato, José de Freitas e Campo Maior. Não por acaso, o professor era eu e os jovens: Paulo Machado, Fernando Costa, Margareth Coelho, Alcide Filho e Rogério Newton. Falávamos de literatura, história, ecologia e exibíamos uma belíssima exposição-manifesto  denominada “Natureza Morta”, de Fernando Costa. O título era uma ironia do Fernando, já que o tema era, na verdade, a morte da Natureza. Por razões previsíveis  (falta de dinheiro para a gasolina), o projeto teve vida efêmera; ainda assim, provocou algum barulho. Em Oeiras, por exemplo, um delegado de polícia me ameaçou publicamente; em José de Freitas, Alcide Filho quase saiu no braço com um dos “ donos” da cidade.  Traquinagens de meninos travessos, diriam os mais velhos.

 

            Pouco tempo depois, José Elias Area Leão, então secretário de cultura, incumbiu-me de capitanear uma caravana de artistas com o mesmo objetivo: dialogar com os municípios do interior do Piauí. Com uma infraestrutura  mínima, visitamos alguns municípios levando oficinas e espetáculos  nas áreas de dança, teatro, artes plásticas, literatura e música. Chegamos até Corrente, no extremo sul do Estado. Era tudo muito pobre e, às vezes, improvisado. Certa feita, em São Raimundo Nonato, o Zé Elias  demonstrou por que faz jus ao título de “menino maluquinho”. Como o local onde se realizariam as oficinas (Grupo Escolar Rosa Teixeira) estava imundo, pegou vassoura, esfregão, água , sabão e convocou a trupe mambembe para lavar o espaço. Coisa de  artistas malucos, diriam os mais sérios.

 

            Em 97, na cidade de Parnaíba, realizávamos um grande evento cultural, quando o professor e poeta Fernando Ferraz propôs que a trupe deveria ser batizada com o nome de A Cara Alegre do Piauí. A princípio, relutei: o rótulo  me parecia título de bloco carnavalesco ou de movimento GLS. Fernando foi enfático: “Por séculos a fio, vimos mostrando a cara triste do Piauí e o máximo que conseguimos foi o escárnio de alguns e a piedade de outros. Decididamente, devemos elevar a nossa autoestima e mostrar a face luminosa do Piauí, nossa cultura”. E assim se fez. Enfrentando dificuldades de toda ordem, o Cara Alegre percorreu dezenas de municípios piauienses, de Parnaíba a Guaribas. Hoje, o grupo conta  com a participação de mais de 30 integrantes, do venerável prof. Santana ao  garoto sanfoneiro Zaqueu. Tantas fizemos que fomos objeto de uma reportagem especial da GloboNews. Coisa de gente metida, diriam os maledicentes.

 

            Agora, à frente da Fundação Municipal de Cultura Mons. Chaves, estamos iniciando mais um empreitada com o mesmo propósito: estabelecer pontes culturais com o Piauí que mal conhecemos. O novo projeto se  chama Teresina Visita. Mais uma vez, vamos recomeçar por Oeiras, a velha e sempre amada capital da província do Piauí. Não sei até quando terei fôlego para  continuar renascendo das cinzas, mas se Deus o permitir, quero morrer tentando. Maluquice de um velho teimoso, dirão todos. Talvez seja.

Cineas Santos

Professor

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Está coluna é de inteira responsabilidade do colunista Cineas Santos