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Há coisa de 15 dias, livrei-me de
um fardo, pesado como um pecado
mortal: o título de “maior escritor
vivo do Campo Formoso”. Antes que
me tomem por cabotino ou
pretensioso, explico: Campo
Formoso, para quem não sabe,não
passa de um topônimo inventado por
d. Purcina, que acreditava no poder
transformador das palavras. A
história se inicia em meados da
década de 40, quando seu Liberato,
fugindo da preguiça atávica dos “bundas-vermelhas”,
decidiu migrar para um ponto
eqüidistante entre o nunca e o
nada. Durante um dia inteiro,
cavalgou um velho pangaré até que
a montaria, escornada, estacou no
meio de um chapadão infestado de
cupinzeiros e moitas de alho-bravo.
O velho olhou, conferiu, achou que
estava “conforme” e decidiu fincar
ali os mourões do seu destino. Por
causa de um baixio existente no
lugar, onde juntava água no período
das chuvas, a gleba denominava-se
“Lagoa dos Tubis”. Dona Purcina
chegou, olhou, conferiu e não
gostou de quase nada. Desgostou
principalmente do nome. Não sem
razão: a palavra tubi, no sertão do
Caracol, tanto serve para nomear
uma abelha, comum na região, como
para designar ânus. Rebatizou a
gleba como Campo Formoso.
Agregadora por temperamento, em
poucos anos, a velha matriarca
atraiu parentes, aderentes,
agregados e afins. O lugar
tornou-se habitável. Teria, com
certeza, prosperado não fosse sua
obsessão por “estudo”. Não podendo
abrir uma escola no local, em
meados da década de 50, mudou-se,
de mala e cuia, para S. Raimundo
Nonato onde se fez doceira. Sem
dona Purcina, Campo Formoso
tornou-se o que sempre fora: “o
lugar onde o vento faz a curva”.
No ano passado, cometi
a imprudência de voltar ao lugar
onde me enterram o umbigo.
Praticamente não sobrou nada,
exceto o barreiro cavado por meu
pai e um cajueiro centenário. O
mais é uma capoeira infestado de
carrapichos. Nem mesmo posso
parafrasear Drummond: não há
fotografia da propriedade do meu
pai. Ainda assim, dói.
Voltemos ao eixo dessa
prosa insossa. Em Campo Formoso, os
mais letrados sabiam
desenhar o nome com alguma
dificuldade. Por ter nascido ali e
pelo sestro de escrever crônicas
ordinárias, um jornalista irônico
conferiu-me o título do qual,
finalmente, me livrei. Assim se
deu: há poucos dias, recebi o
e-mail de uma cidadã que, sem meias
palavras, comunicou-me ter nascido
no Campo Formoso. Até aí, nada de
extraordinário: certamente outras
crianças nasceram por lá.
Extraordinário é saber que a moça
(infelizmente, não me lembro do
nome) é poeta, cronista e contista.
Mantém um blog esperto na
internet e escreve muito melhor do
que eu, o que não chega a ser um
grande feito. Incontinenti,
transferi-lhe o título e voltei ao
meu trivial: prosear
descompromissadamente com os meus
três leitores de carteirinha.
Eu poderia reivindicar
o título de “maior escritor vivo”
da Rua Lemos Cunha; não posso: no
mesmo quarteirão onde moro, vive R.
N. Monteiro de Santana, um cidadão
que honra e dignifica a literatura
piauiense. Ficarei sendo apenas o
cronista das “ multidinhas”, feliz
expressão criada pelo cantor Sílvio
Caldas como contraponto ao rótulo
de “ o cantor das multidões”, usado
para designar o impagável Orlando
Silva. No chão me sinto mais
seguro.
Cineas Santos
Professor |