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Um pouco sobre mim

Cineas das Chagas Santos nasceu em Campo Formoso, município de Caracol (PI), em setembro de 48. Vive em Teresina desde 65. Professor, editor e livreiro, fundou, com alguns companheiros de geração, o jornal alternativo “Chapada do Corisco” (76/77). É proprietário da Oficina da Palavra e coordena o grupo A Cara Alegre do Piauí. Publicou: Miudezas em Geral (poesia); Tinha que Acontecer (contos); ABC da Ecologia (cordel); Aldeia Grande (humor) e o Menino que Descobriu as Palavras (infantil).

 


Das perdas que compensam

cineasantos@hotmail.com


           Há coisa de  15 dias, livrei-me de um fardo, pesado como um pecado mortal: o título de “maior escritor vivo do Campo Formoso”. Antes que me tomem por cabotino ou pretensioso, explico: Campo Formoso, para quem não sabe,não passa de um topônimo inventado por d. Purcina, que acreditava no poder transformador das palavras. A história se inicia em meados da década de 40, quando seu Liberato, fugindo da preguiça atávica dos “bundas-vermelhas”, decidiu migrar para um ponto eqüidistante entre o nunca e o nada. Durante um dia inteiro, cavalgou um velho pangaré  até que a montaria, escornada, estacou no meio de um chapadão infestado de cupinzeiros e moitas de alho-bravo. O velho olhou, conferiu, achou que estava “conforme” e decidiu fincar ali os mourões do seu destino. Por causa de um baixio existente no lugar, onde juntava água no período das chuvas, a gleba denominava-se “Lagoa dos Tubis”. Dona Purcina chegou, olhou, conferiu e não gostou de quase nada. Desgostou principalmente do nome. Não sem razão: a palavra tubi, no sertão do Caracol, tanto serve para nomear uma abelha, comum na região, como para designar ânus. Rebatizou a gleba como Campo Formoso. Agregadora por temperamento, em poucos anos, a velha matriarca atraiu parentes, aderentes, agregados e afins. O lugar tornou-se habitável. Teria, com certeza, prosperado não fosse sua obsessão por “estudo”. Não podendo abrir uma escola no local, em meados da década de 50, mudou-se, de mala e cuia, para S. Raimundo Nonato onde se fez doceira. Sem dona Purcina, Campo Formoso  tornou-se o que sempre fora: “o lugar onde o vento faz a curva”.

 

            No ano passado, cometi a imprudência de voltar ao lugar onde me enterram o umbigo. Praticamente não sobrou nada, exceto o barreiro cavado por meu pai e um cajueiro centenário. O  mais é uma capoeira infestado de carrapichos.  Nem mesmo posso parafrasear Drummond: não há fotografia da propriedade do meu pai. Ainda assim, dói.

 

            Voltemos ao eixo dessa prosa insossa. Em Campo Formoso, os mais letrados sabiam desenhar o nome com alguma dificuldade. Por ter nascido ali e pelo sestro de escrever crônicas ordinárias, um jornalista irônico conferiu-me o título do qual, finalmente, me livrei. Assim se deu: há poucos dias, recebi o e-mail de uma cidadã que, sem meias palavras, comunicou-me ter nascido  no Campo Formoso. Até aí, nada de extraordinário: certamente outras crianças nasceram  por lá. Extraordinário é saber que a moça  (infelizmente, não me lembro do nome) é poeta, cronista e contista. Mantém um blog esperto  na internet e escreve muito melhor do que eu, o que não chega a ser  um grande feito. Incontinenti, transferi-lhe o título e voltei ao meu trivial: prosear descompromissadamente com os meus três leitores de carteirinha.

 

            Eu poderia reivindicar o título de “maior escritor vivo” da Rua Lemos Cunha; não posso: no mesmo quarteirão onde moro, vive R. N. Monteiro de Santana, um cidadão que honra e dignifica a literatura piauiense. Ficarei sendo apenas o cronista das “ multidinhas”, feliz expressão criada pelo cantor Sílvio Caldas como  contraponto ao rótulo de “ o cantor das multidões”, usado para  designar o impagável Orlando Silva. No chão me sinto mais seguro.

           

 

Cineas Santos

Professor

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Está coluna é de inteira responsabilidade do colunista Cineas Santos