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Em outro momento,
neste espaço, escrevi: moro na
Lemos Cunha, uma rua atípica, pelos
menos para os padrões teresinenses.
Nela, não existe um mercadinho, um
bar, uma bodega, uma farmácia, onde
se possa comprar uma caixa de
fósforos, um maço de velas, uma
água mineral, um Cibazol. É
uma rua comprida, reta, com muros
altos, protegidos por cercas
elétricas. Por não ser asfaltada, o
tráfico de veículos é pequeno. Os
moradores são pacatos e ordeiros;
as crianças, poucas e os cães
ladram, mas não mordem. A única
nota alegre da rua fica por conta
dos pássaros que, livres da
perseguição dos moleques, fazem
festa nas poucas árvores que ainda
restam. Trata-se de uma boa rua
para agasalhar velhos e pessoas a
caminho do esquecimento. Estou no
endereço certo.
Sobre o cidadão que lhe dá
nome, levianamente, afirmei:
Joaquim Lemos Cunha foi um tenentão
que, como interventor interino
(sic), governou o Piauí de 29 de
janeiro a 21 de maio de 1931.
Segundo consta, as marcas mais
visíveis de sua brevíssima
administração foram as deixadas por
suas esporas no assoalho do palácio
do governo. Como se pode perceber,
fiz humor barato, recurso típico
dos desinformados. Na semana
passada, Kenard Kruel, o
internauta da caverna,
mostrou-me os originais de uma
alentada biografia de Eurípides de
Aguiar, prestes a ser editada pela
Zodíaco. Ao folhear o calhamaço,
deparei-me com uma crônica
publicada pelo velho Eurípides, no
Jornal Piauí, sobre Lemos
Cunha, em agosto de 46. Baita
surpresa.
Mais afeito a vergastar
com palavras duras os desafetos do
que a elogiar administradores,
Eurípides de Aguiar, um polemista
terrível, abre uma exceção e faz
uma verdadeira louvação do
interventor Joaquim Lemos Cunha.
Entre outras coisas, afirma: “De
inteligência esclarecida, com forte
dose de bom senso e intenções
honestas, revelando, sobretudo, um
grande coração transbordante de
bondade, Lemos Cunha conseguiu se
equilibrar no meio do turbilhão
reinante”.
Deve ter sido extremamente
difícil para o interventor
interino administrar o caos que
se instalou no Piauí com a
revolução de 30. De um lado,
deveria cumprir a expressa
determinação de Juarez Távora para
“não proceder muitas alterações no
quadro administrativo montado pelo
antecessor (Humberto de Areia
Leão)”; do outro, atender aos
interesses do Des. Vaz das Costa,
que lhe dava sustentação política
no Estado. A despeito disso,
segundo Eurípides, “errou como
todos erram, mas acertou mais do
que muitos”. Em menos de quatro
meses de governo, criou a Faculdade
de Direito do Piauí; reorganizou o
Tribunal de Justiça do Estado; pôs
ordem na Polícia Militar, usada por
governantes inescrupulosos para
perseguir adversários políticos e
ainda encontrou meios para estender
o abastecimento de água à população
mais pobre de Teresina.
Eurípides termina sua
crônica afirmando: “Pobre entrou
para a interventoria e pobre saiu,
de mãos limpas e bolsos vazios. Ao
deixar o governo, foi forçado a
vender uma bicicleta para pagar o
aluguel da casa em que residia”.
Por tudo isso, Lemos Cunha
merece respeito e não a chacota de
cronistas de meia-tigela. Tem
razão nosso esculápio gracejador
quando afirma: “Toda ignorância é
audaciosa”. Assino embaixo.
Cineas Santos
Professor |