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Um pouco sobre mim

Cineas das Chagas Santos nasceu em Campo Formoso, município de Caracol (PI), em setembro de 48. Vive em Teresina desde 65. Professor, editor e livreiro, fundou, com alguns companheiros de geração, o jornal alternativo “Chapada do Corisco” (76/77). É proprietário da Oficina da Palavra e coordena o grupo A Cara Alegre do Piauí. Publicou: Miudezas em Geral (poesia); Tinha que Acontecer (contos); ABC da Ecologia (cordel); Aldeia Grande (humor) e o Menino que Descobriu as Palavras (infantil).

 


Da Ignorância Audaciosa

cineasantos@hotmail.com


         Em outro momento, neste espaço, escrevi: moro na Lemos Cunha, uma rua atípica, pelos menos para os padrões teresinenses. Nela, não existe um mercadinho, um bar, uma bodega, uma farmácia, onde se possa comprar uma caixa de fósforos, um maço de velas, uma água mineral, um Cibazol. É uma rua comprida, reta, com muros altos, protegidos por cercas elétricas. Por não ser asfaltada, o tráfico de veículos é pequeno. Os moradores são pacatos e ordeiros; as crianças, poucas e os cães ladram, mas não mordem. A única nota alegre da rua fica por conta dos pássaros que, livres da perseguição dos moleques, fazem festa nas poucas árvores que ainda restam. Trata-se de uma boa rua para agasalhar velhos e pessoas a caminho do esquecimento. Estou no endereço certo.

 

         Sobre o cidadão que lhe dá nome, levianamente, afirmei: Joaquim Lemos Cunha foi um tenentão que, como interventor interino (sic), governou o Piauí de 29 de janeiro a 21 de maio de 1931. Segundo consta, as marcas mais visíveis de sua brevíssima administração foram as deixadas por suas esporas no assoalho do palácio do governo. Como se pode perceber, fiz humor barato, recurso típico dos desinformados. Na semana passada,  Kenard Kruel, o internauta da caverna, mostrou-me os originais de uma  alentada biografia  de Eurípides de Aguiar, prestes a ser editada pela Zodíaco. Ao folhear o calhamaço, deparei-me com uma crônica publicada pelo velho Eurípides, no Jornal Piauí,  sobre Lemos Cunha, em agosto de 46. Baita surpresa.

 

         Mais afeito a vergastar com palavras duras os desafetos do que a elogiar administradores, Eurípides de Aguiar, um polemista terrível, abre uma exceção e faz uma verdadeira louvação do interventor Joaquim Lemos Cunha. Entre outras coisas, afirma: “De inteligência esclarecida, com forte dose de bom senso e intenções honestas, revelando, sobretudo, um grande coração transbordante de bondade, Lemos Cunha conseguiu se equilibrar no meio do turbilhão reinante”.

 

         Deve ter sido extremamente difícil para o interventor interino administrar o caos que se instalou no Piauí com a revolução de 30. De um lado, deveria cumprir a expressa determinação de  Juarez Távora para  “não proceder muitas alterações no quadro administrativo montado pelo antecessor  (Humberto de Areia Leão)”; do outro, atender aos interesses do Des. Vaz das Costa, que lhe dava sustentação política no Estado. A despeito disso, segundo Eurípides, “errou como todos erram, mas acertou mais do que muitos”. Em menos de quatro meses de governo, criou a Faculdade de Direito do Piauí; reorganizou o Tribunal de Justiça do Estado; pôs ordem na Polícia Militar, usada por governantes inescrupulosos para perseguir adversários políticos e ainda encontrou meios para estender o abastecimento de água à população mais pobre de Teresina.

 

         Eurípides termina sua crônica afirmando: “Pobre entrou para a interventoria e pobre saiu, de mãos limpas e bolsos vazios. Ao deixar o governo, foi forçado a vender uma bicicleta para pagar o aluguel da casa em que residia”.

 

         Por tudo isso, Lemos Cunha merece respeito e não a chacota de  cronistas de meia-tigela. Tem razão nosso esculápio gracejador quando afirma: “Toda ignorância é audaciosa”. Assino embaixo.

 

 

Cineas Santos

Professor

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Está coluna é de inteira responsabilidade do colunista Cineas Santos