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Com
a autoridade de quem já viveu um
século e alguns dias, Oscar
Niemeyer costuma afirmar: “na
vida, o que efetivamente conta são
as amizades”. Eu acrescentaria:
o mais é paisagem. Quem me conhece
sabe o que sou capaz de fazer por
meus amigos. Mas paremos por aqui
antes que esse trem degringole de
vez: auto-elogio é vitupério. Ao
que interessa: no início da semana
passada, recebi uma “intimação” da
professora Espedida Alves. Queria o
Cara Alegre do Piauí em sua
aldeia, São João do Piauí. Depois
de 52 anos de magistério, Espedida
resolveu dar-se ao luxo de “não
mais assinar o ponto diariamente” e
queria despedir-se com uma festa
para seus ex-alunos, ou seja, a
cidade inteira. Sem tempo para
arrebanhar a cabroeira toda,
ajuntei os que estavam à mão e
encarapitamos num mini-ônibus da
Líder no início da
noite do dia 21. Depois de 8 horas
de viagem, desapeamos em S. João,
às 4 horas da manhã. Às nove, já
estávamos em sala de aula. Mais de
uma centena de alunos participaram
das oficinas de canto (Vanda
Queiroz); teatro (Chico Carbó);
dança (Laila Caddah) ; flauta doce
(F. Valadares); violão (Josué
Costa); escultura em argila (
Genivaldo Costa); desenho e
xilogravura ( Josafá); fotografia
(Rosa Melo) e redação criativa, o
locutor que vos fala. De quebra,
levamos duas belas exposições
(poemas e fotos) e uma mini-feira
de livros, sob a responsabilidade
de Edivaldo Nunes e Vanessa
Oliveira.
À noite, na Praça Honório
Santos, fizemos uma sarau
lítero-musical para uma platéia
diversificada e atenta. Crianças e
adultos leram poemas de Da Costa e
Silva, H. Dobal, Mário Faustino,
Adail Coelho, Graça Vilhena ,
Climério Ferreira, entre outros. A
música correu por conta de Josué
Costa, Vanda Queiroz, Hermínio
Morais e dos jovens músicos
são-joanenses. A platéia, alegre e
festeira, fez o resto. Terminamos
a noitada com o batuque do mestre
Luiz do Xubéu, um reiseiro à antiga
que, com um vozeirão de acordar
passarinhos, cantou, dançou e
improvisou versos cheios de
picardia. Uma noitada
inesquecível.

Lá pelas tantas, um repórter
de um dos portais da cidade me fez
uma pergunta embaraçosa: - O que
leva o senhor a sair pelo interior
do Piauí com essa caravana, sem
ganhar nada? Essa é uma
pergunta que me fazem com incômoda
freqüência. Como explicar a essas
pessoas que existem coisas para as
quais não existe paga? A filosofia
do Cara Alegre diz tudo:
o saber não compartilhado é
inútil. Como professor,
sinto-me extremamente feliz em
compartilhar com os meus colegas do
interior o pouco que sei. Ademais,
como afirmava Guimarães Rosa,
“Professor é quem de repente
aprende”. Essa troca de
experiências nos enriquece em todos
os sentidos.
A partir do próximo mês, a
caravana visitará outros municípios
piauienses. Como sempre, vamos
distribuir rações de alegria e
tentar sensibilizar os donos do
poder para a necessidade de
acreditarem na cultura como
instrumentos de inclusão social.
Nas tivesse outra utilidade, o
Cara Alegre já serviria para
fortalecer os laços de amizade
entre os integrantes do grupo. Para
alguém com o meu perfil, isso
basta.
Cineas Santos
Professor |