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Um pouco sobre mim

Cineas das Chagas Santos nasceu em Campo Formoso, município de Caracol (PI), em setembro de 48. Vive em Teresina desde 65. Professor, editor e livreiro, fundou, com alguns companheiros de geração, o jornal alternativo “Chapada do Corisco” (76/77). É proprietário da Oficina da Palavra e coordena o grupo A Cara Alegre do Piauí. Publicou: Miudezas em Geral (poesia); Tinha que Acontecer (contos); ABC da Ecologia (cordel); Aldeia Grande (humor) e o Menino que Descobriu as Palavras (infantil).

 


No Topo do Mundo

cineasantos@hotmail.com


      O fato de ter nascido no milênio passado e de ostentar a carapinha recoberta de algodão não me credenciam a meter o bedelho em questões relevantes. A bem da verdade, não me credenciam a coisa alguma. Em lugar nenhum do mundo, senescência é sinônimo de sabedoria. Ainda assim, como resistir à tentação surfar um tiquinho que seja na onda monumental provocada pelo tsunami Obama?

 

       Aos fatos: na manhã seguinte à vitória do  44º presidente dos Estados Unidos, foi acordado pelo telefonema de uma irmão de cor. Com a voz embargada de emoção, meu amigo bradou: - Acorda, irmão, nós chegamos . Com um dos dois neurônios ainda adormecido, perguntei:- O Flamengo voltou à liderança do brasileirão?  Um tantinho agastado, o irmãozinho  obtemperou: - Que Flamengo, rapaz? Tô falando do nosso presidente, o Barack Obama! Ainda meio zonzo, pensei comigo: “ Meus Deus, antes mesmo de assumir o comando do mundo, o homem já anexou o Brasil ao império da águia insaciável? Ferramo-nos”. Espichado na cama, ouvi uma bela aula de história sobre a trajetória, as mazelas e as conquistas dos afro-descendentes em terras da América. My brother  terminou sua peroração com chave de ouro: “Para todos nós, cujas cicatrizes  ainda estão acesas na pele a vitória de Obama representa o alvorecer de um novo tempo. Viva a mãe África!”. Balbuciei um viva e  tentei resgatar o sono que, para minha tristeza,  já se escafedera.

 

       Talvez meu irmão esteja certo: como um furacão, Barack Hussein Obama varreu os EUA e monopolizou as atenções do mundo todo, do Quênia ao Piauí. Na semana que se seguiu à sua vitória, cada milímetro ou segundo da mídia ocidental foi ocupado por uma foto dele ou por um texto sobre sua  meteórica trajetória política. O simples desejo das filhas de Obama de levarem  um cãozinho ou a cadelinha para a Casa Branca  fez subir a cotação dos vira-latas a patamares nunca vistos. É que o novo presidente  faz questão de que o animalzinho seja um autêntico vira-lata.  

 

       De Barack Obama o mundo espera “pouco”. Espera apenas que ele recupere a economia mundial em frangalhos, que desate o nó das duas guerras em que o país está metido, que realize o famoso sonho de Martin Luther King, que melhore a educação, a saúde  e principalmente a imagem dos EUA no contexto das nações. Não bastasse isso, o “companheiro” Lula quer que ele suspenda o embargo econômico a Cuba. Por oportuno, vale lembrar: deve fazer tudo isso sem aumentar impostos, terror dos americanos. Convenhamos que é tarefa para Hércules nenhum botar defeito. Não por acaso, a revista mais endireitada do Brasil já sentenciou: “É tal o desafio de Obama que já se diz que ele precisará de algo como a coragem de Lincoln, que assumiu na vertigem da Guerra Civil, e a astúcia de Roosevelt, que venceu a depressão”. Para não ficar por baixo, a ISTOÉ estampou na primeira capa: “Pode esse homem salvar a América e o mundo?” De uma penada, transferiu para o jovem presidente a responsabilidade que, até a semana passada, pertencia a Deus.

 

       Para o Brasil, tanto melhor: se Deus é realmente brasileiro, como  querem alguns, livre da obrigação de cuidar do restante do mundo, talvez Lhe sobre um tempinho para se dedicar mais  à  própria casa. Assim seja.    

           

 

Cineas Santos

Professor

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Está coluna é de inteira responsabilidade do colunista Cineas Santos