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O fato de ter nascido no milênio
passado e de ostentar a carapinha
recoberta de algodão não me
credenciam a meter o bedelho em
questões relevantes. A bem da
verdade, não me credenciam a coisa
alguma. Em lugar nenhum do mundo,
senescência é sinônimo de
sabedoria. Ainda assim, como
resistir à tentação surfar um
tiquinho que seja na onda
monumental provocada pelo tsunami
Obama?
Aos fatos: na manhã seguinte
à vitória do 44º presidente dos
Estados Unidos, foi acordado pelo
telefonema de uma irmão de cor. Com
a voz embargada de emoção, meu
amigo bradou: - Acorda, irmão,
nós chegamos lá. Com um
dos dois neurônios ainda
adormecido, perguntei:- O Flamengo
voltou à liderança do brasileirão?
Um tantinho agastado, o irmãozinho
obtemperou: - Que Flamengo,
rapaz? Tô falando do nosso
presidente, o Barack Obama!
Ainda meio zonzo, pensei comigo: “
Meus Deus, antes mesmo de assumir o
comando do mundo, o homem já anexou
o Brasil ao império da águia
insaciável? Ferramo-nos”. Espichado
na cama, ouvi uma bela aula de
história sobre a trajetória, as
mazelas e as conquistas dos
afro-descendentes em terras da
América. My brother
terminou sua peroração com chave
de ouro: “Para todos nós, cujas
cicatrizes ainda estão acesas na
pele a vitória de Obama representa
o alvorecer de um novo
tempo. Viva a mãe África!”.
Balbuciei um viva e tentei
resgatar o sono que, para minha
tristeza, já se escafedera.
Talvez meu irmão esteja
certo: como um furacão, Barack
Hussein Obama varreu os EUA e
monopolizou as atenções do mundo
todo, do Quênia ao Piauí. Na semana
que se seguiu à sua vitória, cada
milímetro ou segundo da mídia
ocidental foi ocupado por uma foto
dele ou por um texto sobre sua
meteórica trajetória política. O
simples desejo das filhas de Obama
de levarem um cãozinho ou a
cadelinha para a Casa Branca fez
subir a cotação dos vira-latas a
patamares nunca vistos. É que o
novo presidente faz questão de que
o animalzinho seja um autêntico
vira-lata.
De Barack Obama o mundo
espera “pouco”. Espera apenas que
ele recupere a economia mundial em
frangalhos, que desate o nó das
duas guerras em que o país está
metido, que realize o famoso
sonho de Martin Luther King,
que melhore a educação, a saúde e
principalmente a imagem dos EUA no
contexto das nações. Não bastasse
isso, o “companheiro” Lula quer que
ele suspenda o embargo econômico a
Cuba. Por oportuno, vale lembrar:
deve fazer tudo isso sem aumentar
impostos, terror dos americanos.
Convenhamos que é tarefa para
Hércules nenhum botar defeito. Não
por acaso, a revista mais
endireitada do Brasil já
sentenciou: “É tal o desafio de
Obama que já se diz que ele
precisará de algo como a coragem de
Lincoln, que assumiu na vertigem da
Guerra Civil, e a astúcia de
Roosevelt, que venceu a depressão”.
Para não ficar por baixo, a ISTOÉ
estampou na primeira capa: “Pode
esse homem salvar a América e o
mundo?” De uma penada, transferiu
para o jovem presidente a
responsabilidade que, até a semana
passada, pertencia a Deus.
Para o Brasil, tanto melhor:
se Deus é realmente brasileiro,
como querem alguns, livre da
obrigação de cuidar do restante do
mundo, talvez Lhe sobre um tempinho
para se dedicar mais à própria
casa. Assim seja.
Cineas Santos
Professor |