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Um pouco sobre mim

Cineas das Chagas Santos nasceu em Campo Formoso, município de Caracol (PI), em setembro de 48. Vive em Teresina desde 65. Professor, editor e livreiro, fundou, com alguns companheiros de geração, o jornal alternativo “Chapada do Corisco” (76/77). É proprietário da Oficina da Palavra e coordena o grupo A Cara Alegre do Piauí. Publicou: Miudezas em Geral (poesia); Tinha que Acontecer (contos); ABC da Ecologia (cordel); Aldeia Grande (humor) e o Menino que Descobriu as Palavras (infantil).

 


PELA SEGUNDA VEZ, FELIS

cineasantos@hotmail.com


         Com trabalho, competência e, naturalmente, dinheiro, a Prefeitura de São Luís (MA) realizou o que me parecia impossível: a 2ª edição da Feira do Livro, bem melhor que a primeira. E olhe que a primeira foi excelente, para dizer o mínimo. A FELIS é um evento ímpar: não tem a impessoalidade mercantilista das bienais nem ranço elitista das festas literárias, feitas “para inglês ver”. É ousada em sua concepção e popular em sua proposta. O povo de São Luís viu, gostou e abraçou a feira com aquele entusiasmo que só as coisas verdadeiras despertam. Durante dez dias, de 9 a 19 do corrente, a cidade inteira literalmente gravitou em torno da Feira. A  bela Praça Maria Aragão tornou-se o umbigo do mundo, o que justifica plenamente o slogan da FELIS: “Venha mirar o mundo”.

 

         Os números falam por si: “43 parceiros diretamente envolvidos em sua construção, 35 espaços instalados para o desenvolvimento de sua programação e 88 estandes com mais de setenta mil títulos de aproximadamente 500 editoras”. Pelos menos 1200 pessoas trabalharam diretamente na realização do evento. Mas isso ainda diz pouco: a  FELIS abriu espaço para a literatura, a música, a dança, as artes cênicas,a ecologia, as questões ligadas à preservação do patrimônio público e outros temas de interesse da coletividade. Uma feira cultural, na acepção plena do termo.

 

         No ano passado, saí da Feira do Livro com uma inquietação justificada, diga-se de passagem. Como se trata de um evento bancado pela Prefeitura de São Luís, temi pelo destino da FELIS. Em nosso país, um administrador não costuma dar continuidade a projetos idealizados ou iniciados pelo antecessor, mesmo que seja um “correligionário”. O mundo se inicia no dia de sua posse e termina no final do mandado. A noção de coisa pública ainda não foi apresentada aos nossos dignos administradores. Este ano, saí mais aliviado: fiquei sabendo que a Feira do Livro de São Luís foi criada pela Lei 4.449, de janeiro de 2005. Não realizá-lo seria, portanto, uma clara afronta à lei, e o público, estou certo, não aceitaria sem se manifestar.

 

 

 

         Sob a firme batuta de Lúcia Nascimento, coordenadora geral do evento, a engrenagem que move a Feira parece um relógio suíço: tudo funciona a tempo e a hora. A receita é simples: “Sou a primeira a chegar e a última a sair e tenho a felicidade de coordenar uma equipe dedicada e eficiente”, garante a coordenadora. Poderia acrescentar se quisesse:  e  amo a cultura como a mim mesma.Lúcia se desdobra em mil, sem desmanchar o sorriso que lhe enfeita o rosto.

 

         Particularmente, só anotei um senão na FELIS: as ausências de dois dos maiores poetas brasileiros da atualidade: Ferreira Gullar e Salgado Maranhão, ambos maranhenses. No que diz respeito a Gullar, tudo bem: o poeta, depois de tantas andanças e contratempos, borra-se de medo de avião. No caso específico do Salgado, um “esquecimento” imperdoável. José Salgado dos Santos, o nosso Salgado Maranhão,  é, indiscutivelmente, a voz mais lúcida e instigante dos poetas de sua geração.Amado pelo público e aplaudido pela crítica, Salgado é ganhador do Prêmio Jabuti de Poesia (1999) na companhia de dois monstros sagrados: Geraldo Mello Mourão e Haroldo de Campos. Nada disso, porém, tira o brilho da majestosa Feira do Livro de São Luís, um evento que honra e dignifica a cultura brasileira.

 

Cineas Santos

Professor

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Está coluna é de inteira responsabilidade do colunista Cineas Santos