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A
primeira lembrança que me ocorre da
escola não é das mais agradáveis. O
“Grupo Escolar Padre Domingos da
Conceição” não passava de um
pardieiro, uma espécie de depósitos
de meninos pobres, fedorentos,
quase todos da mesma cor,
marrom-lá-em-casa-não-tem-água.
Para que se tenha idéia da
precariedade da instituição,
faltava apenas água e o resto. Não
havia nem mesmo uma dessas latrinas
de buraco. Quando a necessidade era
mais forte que o pudor, adubávamos
gratuitamente um terreno baldio de
propriedade do Dr. Abílio. As
carteiras, antigas, de madeira,
acomodavam dois alunos. Coube a
mim, a infelicidade de sentar-me ao
lado de um garoto chamado Raimundo:
magro, barrigudo, cabeçudo, sem
pescoço e prognata. Seu passatempo
predileto era raspar a carteira com
uma gilete e atirar o pó fino nos
olhos dos colegas. Era o cão
pintado de alvaiade. Certa feita,
uma professora mais esquentada
atirou-lhe uma palmatória de
aroeira com tal força que, errando
o alvo, deixou um rombo no reboco
da parede. Como se pode ver, em
matéria de luxo, eu já
experimentei quase tudo.
Logo no primeiro dia de
aula, durante o recreio, deparei-me
com uma cena insólita: sentado numa
mesa, um garoto pequeno, magro, com
orelhas de abano, pálido como uma
osga, recitava os nomes das
capitais dos países da Europa. Em
torno dele, as professoras,
curiosas e embevecidas,
aplaudiam-no no final de cada
“recital”. Filho de uma delas, o
pirralho era tido como o “gênio” da
aldeia. O primeiro sentimento que
experimente em relação a ele foi o
da inveja: eu jamais seria capaz de
tal proeza. O segundo, de pena:
enquanto nós corríamos e
quebrávamos o que ainda restava das
vidraças do velho grupo, o “geniozinho”,
como um papagaio de circo,
declinava nomes de rios, cidades,
países... Aquele moleque cresceu e
tornou-se um nada. Fracassou
em todas a frentes. Hoje, bebe,
bebe, bebe, na vã tentativa de
esquecer-se de si mesmo.
Essa lembrança inútil me
ocorreu ao tomar conhecimento de
atos praticados pelo “gênio” de
Teresina. Esse moço tem atestado de
genialidade conferido por
instituições sérias. Pragmático,
depois de uma brilhante e meteórica
carreira acadêmica, o moço resolveu
tornar-se um empresário de sucesso
na área educacional. Competente,
prosperou rapidamente. Até aí, nada
de extraordinário: num país
capitalista, usar a competência
para ganhar dinheiro é algo normal
e até desejável. No mundo
contemporâneo, já não há lugar para
“gênios” aluados ou excêntricos.
Mas vamos ao que interessas: no
estabelecimento onde o “gênio” tem
seu negócio, uma humilde professora
resolveu abrir uma “bodeguita” para
vender coisinhas: lápis, canetas,
balas e tirar fotocópias. Por
oportuno, vale ressaltar: a moça
instalou-se no local antes do
“gênio”. O nosso Einstein
sentiu-se incomodado com a presença
daquele miúdo negócio em seu feudo.
Sem o menor escrúpulo, vem tentando
por todos os meios escorraçar a
cidadã do local. Primeiro, tentou
cooptá-la, oferecendo-lhe um
emprego; depois, passou a ameaçá-la
e, finalmente, decidiu eliminá-la
pela concorrência desleal. Instalou
uma máquina xérox em sua empresa
onde cobra apenas cinco centavos
por cópia. A moça, com os encargos
que paga, não pode fazê-lo por
menos de quinze. Isso é o que se
pode chamar de “maldade genial”.
Por essas e outras,
mantenho prudente distância dos
“gênios”. Prefiro a companhia dos
bruxos: Machado, Clarice, Borges,
Manuel de barros e outros menos
famosos.
Cineas Santos
Professor |