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Longe de quase tudo, o lugar era um
convite a não ficar. Chapadão
árido, pontilhado de cupinzeiros,
infestado de jitirana e alho-bravo
e sem água. A despeito disso, meu
pai entendeu ser o lugar adequado
para fincar mourões, semear filhos
e regar a terra com o suor do
corpo. E assim se fez. Por existir
no terreno uma pequena depressão
onde, no período das chuvas,
juntava alguma água, chamavam
aquele fim de mundo de “Lagoa dos
Tubis”.Crente no poder do braço,
seu Liberato decidiu transformar
aquele chapadão ermo em terra
habitável. A primeira medida foi
cavar um barreiro capaz de
armazenar água suficiente para
romper o período da estiagem, de
maio a novembro. Dona Purcina, que
acreditava no poder transformador
da palavra, rebatizou a gleba com o
nome poético de Campo Formoso.
Por causa da água, das trinta
cabeças de miunças, das cinco vacas
magras, dos seis jegues, do punhado
de galinhas que ciscavam pelo
terreiro, passamos a ser tratados
como quase-ricos. Quando chovia,
tudo bem; quando não, éramos
obrigados a disputar com porcos,
bodes e jegues a água barrenta do
riacho Jatobá dos Ferros, a doze km
de distância. A vida não era fácil,
mas as aspirações eram rasas.
Consumíamos a nossa rarefeita
“ração de vida” sem maiores
queixas.
Um
dia, dona Purcina cismou de “botar
os filhos na escola”. Por sua conta
e risco (seu Liberato era contra),
mudou-se para São Raimundo Nonato
onde, para sobreviver, fez-se
doceira. Nossa vida piorou em todos
os sentidos: de quase-ricos,
passamos a quase-miseráveis. Das
muitas privações, a falta de água
era a mais dolorosa. A água
disponível na cidade (“Tanque” e
“Lagoa do Mato”) era imprestável
para o consumo humano. Passamos a
mendigar água nos barreiros dos
outros: “Juju”, “Duvige”, “Barreiro
do Pombo”... Às vezes, a água era
tão barrenta que tínhamos de
utilizar pedra-ume para decantá-la,
o que a tornava intragável. Os
bem-nascidos – uma meia dúzia –
dispunham de caldeirões
(cisternas) nas quais armazenavam a
água das chuvas. O grosso da
população tinha apenas sede.
Um
dos prefeitos da cidade – não sei
se Bitoso ou Pe. Lira - mandou
perfurar alguns poços tubulares na
periferia da cidade. A água era
salobra, mas “limpinha”, ou seja,
sem cabeças-de-prego. Era
tudo tão precário, que nem bomba
manual existia. Para puxar a água,
usávamos uma sonda de flandre,
presa a uma corda, que passava por
uma roldana. Trabalho estafante,
que exigia esforço e paciência.
Como sou do tempo em que criança
trabalhava (e como!), cabia a mim e
a minha irmã Bia a responsabilidade
de abastecer a casa de água, tarefa
que nos consumia boa parte do dia.
Certa manhã, ao chegarmos a um dos
poços, encontramos uma pequena
multidão estática, calada, como que
transtornada. Não era para menos: o
poço estava literalmente aterrado
com pedras, pedaços de madeira,
areia, entulho. Era véspera de
eleição, e uma das facções
políticas decidira punir os
moradores da Aldeia e do Gavião,
privando-nos do essencial: água.
Aturdido, voltei correndo para casa
e relatei o que vira aos meus pais.
Dona Purcina esbravejou; seu
Liberato fez um comentário duro,
seco, exato: Política é a mãe
do cão. Apesar da pouca idade,
entendi tudo. E nunca mais fui o
mesmo.
Cineas Santos
Professor |