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Um pouco sobre mim

Cineas das Chagas Santos nasceu em Campo Formoso, município de Caracol (PI), em setembro de 48. Vive em Teresina desde 65. Professor, editor e livreiro, fundou, com alguns companheiros de geração, o jornal alternativo “Chapada do Corisco” (76/77). É proprietário da Oficina da Palavra e coordena o grupo A Cara Alegre do Piauí. Publicou: Miudezas em Geral (poesia); Tinha que Acontecer (contos); ABC da Ecologia (cordel); Aldeia Grande (humor) e o Menino que Descobriu as Palavras (infantil).

 


A Descoberta da Maldade

cineasantos@hotmail.com


         Longe de quase tudo, o lugar era um convite a não ficar. Chapadão árido, pontilhado de cupinzeiros, infestado de jitirana e alho-bravo e sem água. A despeito disso, meu pai entendeu ser o lugar adequado para fincar mourões, semear filhos e regar a terra com o suor do corpo. E assim se fez. Por existir no terreno uma pequena depressão onde, no período das chuvas, juntava alguma água, chamavam aquele fim de mundo de “Lagoa dos Tubis”.Crente no poder do braço, seu Liberato decidiu transformar aquele chapadão ermo em terra habitável. A primeira medida foi cavar um barreiro capaz de armazenar água suficiente para romper o período da estiagem, de maio a novembro. Dona Purcina, que acreditava no poder transformador da palavra, rebatizou a gleba com o nome poético de Campo Formoso. Por causa da água, das trinta cabeças de miunças, das cinco vacas magras, dos seis jegues, do punhado de galinhas que ciscavam pelo terreiro, passamos a ser tratados como quase-ricos. Quando chovia, tudo bem; quando não, éramos obrigados a disputar com porcos, bodes e jegues a água barrenta do riacho Jatobá dos Ferros, a doze km de distância. A vida não era fácil, mas as aspirações eram rasas. Consumíamos a nossa rarefeita “ração de vida” sem maiores queixas.

 

Um dia, dona Purcina cismou de “botar os filhos na escola”. Por sua conta e risco (seu Liberato era contra), mudou-se para São Raimundo Nonato onde, para sobreviver, fez-se doceira. Nossa vida piorou em todos os sentidos: de quase-ricos, passamos a quase-miseráveis. Das muitas privações, a falta de água era a mais dolorosa. A água disponível na cidade (“Tanque” e “Lagoa do Mato”) era imprestável para o consumo humano. Passamos a mendigar água nos barreiros dos outros: “Juju”, “Duvige”, “Barreiro do Pombo”... Às vezes, a água era tão barrenta que tínhamos de utilizar pedra-ume para decantá-la, o que a tornava intragável. Os bem-nascidos – uma meia dúzia – dispunham de caldeirões (cisternas) nas quais armazenavam a água das chuvas. O grosso da população tinha apenas sede.

 

 Um dos prefeitos da cidade – não sei se Bitoso ou Pe. Lira  -  mandou perfurar alguns poços tubulares na periferia da cidade. A água era salobra, mas “limpinha”, ou seja, sem cabeças-de-prego. Era tudo tão precário, que nem bomba manual existia. Para puxar a água, usávamos uma sonda de flandre, presa a uma corda, que passava por uma roldana. Trabalho estafante, que exigia esforço e paciência. Como sou do tempo em que criança trabalhava (e como!), cabia a mim e a minha irmã Bia a responsabilidade de abastecer a casa de água, tarefa que nos consumia boa parte do dia.

 

Certa manhã, ao chegarmos a um dos poços, encontramos uma pequena multidão estática, calada, como que transtornada. Não era para menos: o poço estava literalmente aterrado com pedras, pedaços de madeira, areia, entulho. Era véspera de eleição, e uma das facções políticas decidira punir os moradores da Aldeia e do Gavião, privando-nos do essencial: água. Aturdido, voltei correndo para casa e relatei o que vira aos meus pais. Dona Purcina esbravejou; seu Liberato fez um comentário duro, seco, exato:  Política é a mãe do cão. Apesar da pouca idade, entendi tudo. E nunca mais fui o mesmo.

 

Cineas Santos

Professor

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Está coluna é de inteira responsabilidade do colunista Cineas Santos