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Sou
de um tempo de doenças conhecidas,
remédios baratos e curas duvidosas.
É certo que se morria bem mais
cedo, mas, em compensação, sem
tantas diluições, vivia-se cada
segundo da existência com muito
mais intensidade. Com o progresso
científico e os avanços da medicina
moderna, ocorreu um fenômeno
curioso: descobriram-se mais
doenças do que remédios para as já
existentes. Um exemplo: o que fez a
medicina, além de uma vacina de
efeitos discutíveis, para evitar ou
curar a gripe? Absolutamente nada.
Os médicos, por seu turno,
tornaram-se mais espertos: quando
não conseguem diagnosticar uma
enfermidade, por mais banal que
seja, nem titubeiam: “Trata-se de
uma virose”. È como se dissessem: é
a vontade de Deus.
Menino, no sertão do Caracol, fui
acometido de todas as doenças, até
então, conhecidas. Com mezinhas,
chás e rezas fortes, sobrevivi a
tudo e aqui estou para contar a
história. Peço permissão aos meus
três leitores para nomear as
enfermidades mais comuns e os
remédios de que dispúnhamos para
curá-las. Para cicatrizar o corte
do cordão umbilical, sarro de
cachimbo era tiro e queda; para
apressar o endurecimento da
moleira, usava-se gema de ovo
aquecida; dordói (conjuntivite),
curava-se com sumo de fedegoso;
para frieira, nada mais eficiente
do que folha de cabaceira aquecida;
combatiam-se as impingens com sumo
de limão e pólvora; curavam-se as
verminoses com mastruço,
melão-de-são-caetano ou semente de
abóbora; tosse-braba (coqueluche),
aliviava-se com leite de jumenta
preta; as crises de asma eram
amenizadas com mel de cupira, caldo
de cauã ou cigarro de flor de
zabumba; prisão de ventre curava-se
com óleo de rícino; aliviavam-se as
crises de enxaquecas com chá de
imburana-de-cheiro; para os
desarranjos intestinais, nada
melhor que casca de pau-de-rato;
para caxumba (papeira), barro de
casa de parantonha
umedecido com cuspe; para o sarampo
“sair”, chá de merda de cachorro;
para estancar sangria desatada, pó
de café ou bosta de jumento; para
quebranto, mau-olhado e espinhela
caída, o remédio era reza forte com
galho de arruda. As demais
enfermidades eram combatidas com
aguardente alemã, remédio que
não podia faltar na casa de cristão
nenhum. É escusado afirmar que
havia, como ainda há, doenças
incuráveis: feiúra, preguiça,
sem-vergonhice, dor-de-corno...
Por que me lembrei disso agora? É que,
dia desses, um amigo me ligou
extremamente apreensivo: descobriu
que sofre de transtorno bipolar, ou
seja, é capaz de passar da euforia
à depressão num piscar de olhos.
Não bastasse isso, o infeliz sofre
também de úlcera de origem nervosa,
rinite, pressão alta, insônia e
estresse. A despeito disso (ou
talvez por isso), ainda está vivo e
faz muito sucesso como artista.
Ganha um picolé caseiro quem
adivinhar o nome dele.
Diante de um quadro como o descrito
acima, sinto-me um privilegiado.
Sofro apenas de feiúra crônica,
dureza galopante e envelhecimento
irreversível, enfermidades que só
se fazem sentir diante do espelho
ou quando os cobradores batem à
porta. Conversando com um médico
amigo sobre o assunto, ele me
explicou que sofre de uma doença
rara, mas preocupante:
workhaolic. Ante o meu espanto,
explicou-me que se trata de
obsessão pelo trabalho ou “vício do
trabalho”, como a denominam os
americanos. Por via das dúvidas,
resolvi dedicar-me à releitura de
Da preguiça como método de
trabalho, do impagável Quintana.
É melhor morrer de nada do que de
tudo. Assim seja.
Cineas Santos
Professor |