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Dia desses, fui a um bar onde se
realizava o lançamento de um livro
desimportante. Enquanto o autor,
espaçoso, distribuía autógrafos
caprichados, um dos convidados
deitava falação sobre quase tudo. O
cidadão, tido e havido como “uma
das cabeças pensantes do Piauí”, já
bebera um pouco mais do que seria
recomendável. E quanto mais bebia,
mais loquaz ficava.
Lá pelas tantas, passou a
dissertar sobre a iminente
derrocada do império americano.
Segundo ele, “Depois da
fragorosa derrota para os
vietnamitas, os americanos perderam
o norte e marcham, céleres, para a
decadência completa”. Os
convivas, mais interessados nos
comes e bebes do que na arenga do
moço, passaram a ignorá-lo.
Sentindo-se desprestigiado, o
cidadão passou a berrar com mais
força. Finalmente, uma alma
caridosa ( ainda por cima bonita)
se dispôs a ouvi-lo. A distância,
eu acompanhava tudo sem a menor
disposição para participar.
Eis um
resumo do que pude pescar: “O
maior dos erros cometidos pelos
americanos foi a arrogância. Com o
desmoronamento da União Soviética,
os ianques passaram a comportar-se
como se fossem os donos do mundo.
Tomaram no olho da pata. Um punhado
de fanáticos islâmicos demonstrou
que a águia é vulnerável. O 11 de
Setembro comprovou que toda aquela
empáfia e arrogância é puro jogo de
cena. Hoje, mais do que nunca,
estão encalacrados. Mandaram tropas
para o Afeganistão para combater o
Taliban e, até agora, o máximo que
conseguiram foi piorar o que já era
ruim. Derrubaram o Saddam e
instauraram o caos no Iraque. Mas
tudo isso não passa de sintomas. O
que efetivamente está destruindo os
EUA são as drogas. O desencanto dos
jovens sem perspectiva é um convite
à autodestruição. O câncer sem cura
que corrói as entranhas do império
da maldade...”
A jovem que o
escutava fez um comentário
qualquer, e o cidadão perdeu de vez
a compostura: “Isso é pura
alienação!”, gritou a pleno
pulmão. A moça tentou vãmente
acalmá-lo, o que o irritou ainda
mais. Descontrolado, afirmou: “-
A
decadência está aí, só não vêem os
cegos ou os alienados. Quer uma
prova cabal? Quer? Vão eleger agora
um negro para presidente do país.
Precisa dizer mais?”
Nessa altura do
campeonato, o falastrão conseguiu,
enfim, o que perseguia desde o
início de sua arenga: a atenção do
público. Confesso que, por
instante, temi pela integridade
física do moço. No bar, havia
alguns afro-descendentes com
pedigree. Curiosamente,
ninguém se manifestou. Foi aí que
pensei em me meter na encrenca.
Mas, em boa hora, lembrei-me de que
já fui acusado de não ser “ negro
direito”. Sou, segundo atestam os
entendidos, apenas um sarará, uma
espécie de “negro branco”, se é que
esse trem existe.
Antes de retirar-me,
lembrei-me de que, certa feita,
fui apresentado ao músico Hermeto
Pachoal por João Cláudio. O bruxo
albino me apertou a mão e afirmou:
- Fogoió, nós vamos governar o
mundo! Limitei-me a sorrir.
Hoje, eu teria dito: Vamos não, seu
Hermeto. Os negros estão com tudo,
já que “black is beautiful”.
Quanto aos sararás, continuam sendo
apenas sararás. Nada além.
Cineas Santos
Professor |