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Um pouco sobre mim

Cineas das Chagas Santos nasceu em Campo Formoso, município de Caracol (PI), em setembro de 48. Vive em Teresina desde 65. Professor, editor e livreiro, fundou, com alguns companheiros de geração, o jornal alternativo “Chapada do Corisco” (76/77). É proprietário da Oficina da Palavra e coordena o grupo A Cara Alegre do Piauí. Publicou: Miudezas em Geral (poesia); Tinha que Acontecer (contos); ABC da Ecologia (cordel); Aldeia Grande (humor) e o Menino que Descobriu as Palavras (infantil).

 


O Declínio do Império Americano

cineasantos@hotmail.com


        Dia desses, fui a um bar onde se realizava o lançamento de um livro desimportante. Enquanto o autor, espaçoso, distribuía autógrafos caprichados, um dos convidados deitava falação sobre quase tudo. O cidadão, tido e havido como “uma das cabeças pensantes do Piauí”, já bebera um pouco mais do que seria recomendável. E quanto mais bebia, mais loquaz ficava.

 

         Lá pelas tantas, passou a dissertar sobre a iminente derrocada do império americano. Segundo ele, “Depois da fragorosa derrota para os vietnamitas, os americanos perderam o norte e marcham, céleres, para a decadência completa”. Os convivas, mais interessados nos comes e bebes do que na arenga do moço, passaram a ignorá-lo. Sentindo-se desprestigiado, o cidadão passou a berrar com mais força.  Finalmente, uma alma caridosa ( ainda por cima bonita) se dispôs a ouvi-lo. A distância, eu acompanhava tudo sem a menor disposição para participar.

 

         Eis um resumo do que pude pescar: “O maior dos  erros cometidos pelos americanos foi a arrogância. Com o desmoronamento da União Soviética, os ianques passaram a comportar-se como se fossem os donos do mundo. Tomaram no olho da pata. Um punhado de fanáticos islâmicos demonstrou que a águia é vulnerável. O 11 de Setembro  comprovou que toda aquela empáfia e arrogância é puro jogo de cena. Hoje, mais do que nunca, estão encalacrados. Mandaram tropas para o Afeganistão para combater o Taliban e, até agora, o máximo que conseguiram foi piorar o que já era ruim. Derrubaram o Saddam e instauraram o caos no Iraque. Mas tudo isso não passa de sintomas. O que efetivamente está destruindo os EUA são as drogas. O desencanto dos jovens sem perspectiva é um convite à autodestruição. O câncer sem cura que corrói as entranhas do império da maldade...”

 

         A jovem que o escutava fez um comentário qualquer, e o cidadão perdeu de vez a compostura: “Isso é pura alienação!”, gritou a pleno pulmão. A moça tentou vãmente acalmá-lo, o que o irritou ainda mais. Descontrolado, afirmou: “- A decadência está aí, só não vêem os cegos ou os alienados. Quer uma prova cabal? Quer? Vão eleger agora um negro para presidente do país. Precisa dizer mais?”

 

         Nessa altura do campeonato, o falastrão conseguiu, enfim, o que perseguia desde o início de sua arenga: a atenção do público. Confesso que, por instante, temi pela integridade física do moço. No bar, havia alguns afro-descendentes com pedigree.  Curiosamente, ninguém se manifestou. Foi aí que pensei em me meter na encrenca. Mas, em boa hora, lembrei-me de que já fui acusado de  não ser “ negro direito”. Sou, segundo atestam os entendidos, apenas um sarará, uma espécie de “negro branco”, se é que esse trem existe.

 

         Antes de retirar-me, lembrei-me  de que, certa feita, fui apresentado ao músico Hermeto Pachoal por João Cláudio. O bruxo albino me apertou a mão e afirmou: - Fogoió, nós vamos governar o mundo! Limitei-me a sorrir. Hoje, eu teria dito: Vamos não, seu Hermeto. Os negros estão com tudo, já que “black is beautiful”. Quanto aos sararás, continuam sendo apenas sararás.  Nada além.

 

Cineas Santos

Professor

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Está coluna é de inteira responsabilidade do colunista Cineas Santos