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Um pouco sobre mim

Cineas das Chagas Santos nasceu em Campo Formoso, município de Caracol (PI), em setembro de 48. Vive em Teresina desde 65. Professor, editor e livreiro, fundou, com alguns companheiros de geração, o jornal alternativo “Chapada do Corisco” (76/77). É proprietário da Oficina da Palavra e coordena o grupo A Cara Alegre do Piauí. Publicou: Miudezas em Geral (poesia); Tinha que Acontecer (contos); ABC da Ecologia (cordel); Aldeia Grande (humor) e o Menino que Descobriu as Palavras (infantil).

 


As "Crias" do Salipi

cineasantos@hotmail.com


           

Realizar um salão ou uma feira de livros em qualquer lugar do Brasil é tarefa extremamente difícil e de altíssimo risco. Infelizmente, em nosso país, o livro é tratado como um “produto nobre”, na pior acepção do termo. É pouco menos que artigo de luxo, caro, raro e, conseqüentemente, inacessível à maioria da população. Não por acaso, o brasileiro lê menos que o colombiano. A média não chega a dois livros por ano. Para um país que ocupa a 15ª posição no ranking da economia mundial, trata-se de uma vergonha, para dizer o mínimo. As editoras brasileiras, com raríssimas exceções, ainda não se deram conta de que os “leitores cativos” estão envelhecendo sem deixar “herdeiros”. O Brasil edita um elevado número de títulos para uma clientela seleta, de elevado poder aquisitivo. O grosso da população não tem acesso nem aos folhetos de cordel. Como também não dispomos de bibliotecas públicas na quantidade desejável, o livro simplesmente não figura no cardápio do brasileiro comum.

 

         Num cenário como esse, organizar uma feira de livros é pouco menos que uma temeridade. Falo com autoridade de quem, há 6 anos, ajuda a realizar o Salão do Livro do Piauí. A cada nova edição, redobram as dificuldades e nunca sabemos se será possível realizar a próxima. A despeito disso, o SALIPI cresce, resiste e, para nossa alegria, até procria. Algumas das “crias” não vingaram como o Salão de Campo Maior, que morreu de inanição logo na primeira edição. Mas há experiências bem- sucedidas em Caxias (MA), Elesbão Veloso e Valença, no Piauí, onde já se realizaram, com sucesso, 4 edições em cada município. O primeiro passo para um salão, ou melhor, para um evento cultural qualquer alcançar  êxito é a participação popular. Se o povo adonar-se do evento, não há como impedir que ele cresça e frutifique. O Salão de Valença, por exemplo, tem enfrentado turbulências de toda ordem. Ora é a insensibilidade de um prefeito, ora um “racha” dentro da própria equipe organizadora, mas a presença do público tem garantido a continuidade do evento.

 

         Estive na abertura da 4ª edição do Salão do Livro de Valença( de 15 a 18 do corrente) e não pude deixar de me entusiasmar com o que vi: uma equipe mínima, constituída de voluntários, sob a batuta do prof. Cássio Gomes, conseguiu levar 400 pessoas ao auditório do Colégio Santo Antônio, que comporta, no máximo, 300. Os organizadores tiveram de providenciar um telão para que professores e alunos pudessem acompanhar as conferências que se realizavam no auditório. Levar 400 pessoas a um evento desse tipo em Valença é algo extraordinário sob todos os aspectos.

 

         Pena que outros municípios como Parnaíba, Picos, Floriano, Oeiras, Piripiri, São Raimundo Nonato, para citar apenas os mais populosos, ainda não percebido que investimento em cultura tem retorno garantido. A desculpa esfarrapada de que “faltam verbas” não se sustenta: em todos eles se realizam carnavais fora de época ou “forrofolias”. Viva, então, Vila Nova do Piauí que, com apenas três mil habitantes, vem realizando, anualmente, um belíssimo encontro cultural capaz de mobilizar praticamente toda a população do município. Justificadamente, o maior orgulho dos vila-novenses é a “Biblioteca Patativa do Assaré”, com um acervo de 12 mil livros. Isso prova que ainda não se inventou melhor adubo para a inteligência do que livro.Que venham novas crias.

 

Cineas Santos

Professor

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Está coluna é de inteira responsabilidade do colunista Cineas Santos