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Realizar um salão ou uma feira de
livros em qualquer lugar do Brasil
é tarefa extremamente difícil e de
altíssimo risco. Infelizmente, em
nosso país, o livro é tratado como
um “produto nobre”, na pior acepção
do termo. É pouco menos que artigo
de luxo, caro, raro e,
conseqüentemente, inacessível à
maioria da população. Não por
acaso, o brasileiro lê menos que o
colombiano. A média não chega a
dois livros por ano. Para um país
que ocupa a 15ª posição no
ranking da economia mundial,
trata-se de uma vergonha, para
dizer o mínimo. As editoras
brasileiras, com raríssimas
exceções, ainda não se deram conta
de que os “leitores cativos” estão
envelhecendo sem deixar
“herdeiros”. O Brasil edita um
elevado número de títulos para uma
clientela seleta, de elevado poder
aquisitivo. O grosso da população
não tem acesso nem aos folhetos de
cordel. Como também não dispomos de
bibliotecas públicas na quantidade
desejável, o livro simplesmente não
figura no cardápio do brasileiro
comum.
Num cenário como esse,
organizar uma feira de livros é
pouco menos que uma temeridade.
Falo com autoridade de quem, há 6
anos, ajuda a realizar o Salão do
Livro do Piauí. A cada nova edição,
redobram as dificuldades e nunca
sabemos se será possível realizar a
próxima. A despeito disso, o SALIPI
cresce, resiste e, para nossa
alegria, até procria. Algumas das
“crias” não vingaram como o Salão
de Campo Maior, que morreu de
inanição logo na primeira edição.
Mas há experiências bem- sucedidas
em Caxias (MA), Elesbão Veloso e
Valença, no Piauí, onde já se
realizaram, com sucesso, 4 edições
em cada município. O primeiro passo
para um salão, ou melhor, para um
evento cultural qualquer alcançar
êxito é a participação popular. Se
o povo adonar-se do evento, não há
como impedir que ele cresça e
frutifique. O Salão de Valença, por
exemplo, tem enfrentado
turbulências de toda ordem. Ora é a
insensibilidade de um prefeito, ora
um “racha” dentro da própria equipe
organizadora, mas a presença do
público tem garantido a
continuidade do evento.
Estive na abertura da 4ª
edição do Salão do Livro de
Valença( de 15 a 18 do corrente) e
não pude deixar de me entusiasmar
com o que vi: uma equipe mínima,
constituída de voluntários, sob a
batuta do prof. Cássio Gomes,
conseguiu levar 400 pessoas ao
auditório do Colégio Santo
Antônio, que comporta, no
máximo, 300. Os organizadores
tiveram de providenciar um telão
para que professores e alunos
pudessem acompanhar as conferências
que se realizavam no auditório.
Levar 400 pessoas a um evento desse
tipo em Valença é algo
extraordinário sob todos os
aspectos.
Pena que outros municípios
como Parnaíba, Picos, Floriano,
Oeiras, Piripiri, São Raimundo
Nonato, para citar apenas os mais
populosos, ainda não percebido que
investimento em cultura tem retorno
garantido. A desculpa esfarrapada
de que “faltam verbas” não se
sustenta: em todos eles se realizam
carnavais fora de época ou “forrofolias”.
Viva, então, Vila Nova do Piauí
que, com apenas três mil
habitantes, vem realizando,
anualmente, um belíssimo encontro
cultural capaz de mobilizar
praticamente toda a população do
município. Justificadamente, o
maior orgulho dos vila-novenses é a
“Biblioteca Patativa do Assaré”,
com um acervo de 12 mil livros.
Isso prova que ainda não se
inventou melhor adubo para a
inteligência do que livro.Que
venham novas crias.
Cineas Santos
Professor |