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Neste espaço, já falei da minha
paixão pelo cinema. Disse paixão e
não interesse, ou seja, assisto aos
filmes como um menino arteiro que
se atira de cabeça em águas
desconhecidas, certo de que o acaso
o protegerá. Não sei os nomes dos
grandes diretores de cinema,
desconheço os roteiristas e (por
que não confessar?) não suporto
filmes “inteligentes”. Me ligo na
música, na luz e, principalmente,
na magia( se houver). Me deixo
conduzir como se eu também fizesse
parte da trama. Para mim, cinema
sabe a coalhada escorrida, adoçada
com mel de mandaçaia, coisa de
lamber os beiços.
A
primeira vez que vi algo que
lembrava vagamente a “sétima-arte”,
foi numa sexta-feira santa, em São
Raimundo Nonato. Os padres da ordem
mercenária, perdão, mercedária
projetaram uns eslaides com imagens
do Cristo crucificado na parede
frontal da igreja matriz. Enquanto
a maioria dos assistentes chorava
de compaixão, eu sorria de
satisfação. A beleza daquilo me fez
esquecer a crueza das cenas. Na
saída, ouvi alguém dizer: - Chore
não, mulher, isso é só cinema.
Palavra nova para designar algo
novo, fascinante. Ali mesmo, decidi
que iria embora da aldeia para uma
cidade onde houvesse cinema. Em
casa, usando uma prosaica lanterna
e um “monóculo” com diapositivos
coloridas, fiz um cineminha
particular, complicado, mas
estimulante.
Vai
que, um dia, um cidadão chamado
Gonzaga, uma espécie de homem de
sete ofícios, arranjou um projetor
velho, alugou uns pedaços de filmes
e passou a exibi-los, aos domingos,
no “Clubão”. Como não havia bancos
disponíveis, cada um levava seu
tamborete de casa. Eu, que morava
na Aldeia, atravessava a cidade
inteira com o meu na cabeça. Os
filmes, ou melhor, os fragmentos de
fitas velhas, eram de um
surrealismo de matar Buñuel de
inveja. De repente, quando o
mocinho se preparava para beijar a
amada, aparecia um caubói
tresmalhado, perseguido por índios
Peles Vermelhas. Hilário, para
dizer o mínimo. A pior parte: no
final do filme, o velho Martinzinho
“piscava”, avisando que as luzes se
apagariam em 15 minutos. Não dava
tempo para exibir o restante da
fita, que mais quebrava que corria.
Gonzaga prometia passar o final no
próximo domingo, o que nunca
acontecia. Passávamos a semana
inteira discutindo os possíveis
finais do filme. Um exercício
altamente instigante. Como se pode
ver, Gonzaga, inconscientemente,
nos apresentou ao surrealismo e
tornou-se um precursor da “obra
aberta”, que notabilizaria Umberto
Eco.
Todas essas lembranças me ocorreram
quando Edmilson Caminha me mandou
uma preciosidade: o depoimento do
cineasta Cao Guimarães à revista
Palavra: “Havia um único cinema
na pequena cidade de Itueta. Devido
à falta de um rebobinador, e porque
a devolução da cópia do filme
rebobinado era mais barata, o
proprietário do cinema teve uma
idéia mesquinha em sua avareza, mas
genial em sua estranheza: rebobinar
o filme projetando-o, e cobrar
ingressos mais baratos. Isso fez
com que uma geração inteira de
crianças ou de gente ‘dura’
assistisse aos filmes de trás pra
frente – a bala saindo do corpo e
entrando no cano do revólver, uma
profusão de bandidos ressuscitando,
bocas de mocinhos e donzelas
desgarrando-se num antibeijo,
lágrimas escalando bochechas até os
olhos, e o recorrente final feliz
dos filmes americanos perdido ainda
na algazarra de achar os lugares
para se sentar e o barulho da
pipoca”.
Pena
que o Gonzaga, que inventou quase
tudo em matéria de cinema, não
tenha pensado nisso. Azar nosso.
Cineas Santos
Professor |