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Um pouco sobre mim

Cineas das Chagas Santos nasceu em Campo Formoso, município de Caracol (PI), em setembro de 48. Vive em Teresina desde 65. Professor, editor e livreiro, fundou, com alguns companheiros de geração, o jornal alternativo “Chapada do Corisco” (76/77). É proprietário da Oficina da Palavra e coordena o grupo A Cara Alegre do Piauí. Publicou: Miudezas em Geral (poesia); Tinha que Acontecer (contos); ABC da Ecologia (cordel); Aldeia Grande (humor) e o Menino que Descobriu as Palavras (infantil).

 


Da arte de desver

cineasantos@hotmail.com


         Neste espaço, já falei da minha paixão pelo cinema. Disse paixão e não interesse, ou seja, assisto aos filmes como um menino arteiro que se atira de cabeça em águas desconhecidas, certo de que o acaso o protegerá. Não sei os nomes dos grandes diretores de cinema, desconheço os roteiristas e (por que não confessar?) não suporto filmes “inteligentes”. Me ligo na música, na luz e, principalmente, na magia( se houver). Me deixo conduzir como se eu também fizesse parte da trama. Para mim, cinema sabe a coalhada escorrida, adoçada  com mel de mandaçaia, coisa de lamber os beiços.

 

A primeira vez que vi algo que lembrava vagamente a “sétima-arte”, foi numa sexta-feira santa, em São Raimundo Nonato. Os padres da ordem mercenária, perdão, mercedária projetaram uns eslaides com imagens do Cristo crucificado na parede frontal da igreja matriz. Enquanto a maioria dos assistentes chorava de compaixão, eu sorria de satisfação. A beleza daquilo me fez esquecer a crueza das cenas. Na saída, ouvi alguém dizer: - Chore não, mulher, isso é só cinema. Palavra nova para designar algo novo, fascinante. Ali mesmo, decidi que iria embora da aldeia para uma cidade onde houvesse cinema. Em casa, usando uma prosaica lanterna e um “monóculo” com diapositivos coloridas, fiz um cineminha particular, complicado,  mas estimulante.

 

Vai que, um dia, um cidadão chamado Gonzaga, uma espécie de homem de sete ofícios, arranjou um projetor velho, alugou uns pedaços de filmes e passou a exibi-los, aos domingos, no “Clubão”. Como não havia bancos disponíveis, cada um levava seu tamborete de casa. Eu, que morava na Aldeia, atravessava a cidade inteira com o meu na cabeça. Os filmes, ou melhor, os fragmentos de fitas velhas, eram de um surrealismo de matar Buñuel de inveja. De repente, quando o mocinho se preparava para beijar a amada, aparecia um caubói tresmalhado, perseguido por índios Peles Vermelhas. Hilário, para dizer o mínimo. A pior parte: no final do filme, o velho Martinzinho “piscava”, avisando que as luzes se apagariam em 15 minutos. Não dava tempo para exibir o restante da fita, que mais quebrava que corria. Gonzaga prometia passar o final no próximo domingo, o que nunca acontecia. Passávamos a semana inteira discutindo os possíveis finais do filme. Um exercício altamente instigante. Como se pode ver, Gonzaga, inconscientemente, nos apresentou ao surrealismo e tornou-se um precursor da “obra aberta”, que notabilizaria Umberto Eco.

 

Todas essas lembranças me ocorreram quando Edmilson Caminha me mandou uma preciosidade: o depoimento do cineasta Cao Guimarães à revista Palavra: “Havia um único cinema na pequena cidade de Itueta. Devido à falta de um rebobinador, e porque a devolução da cópia do filme rebobinado era mais barata, o proprietário do cinema teve uma idéia mesquinha em sua avareza, mas genial em sua estranheza: rebobinar o filme projetando-o, e cobrar ingressos mais baratos. Isso fez com que uma geração inteira de crianças ou de gente ‘dura’ assistisse aos filmes de trás pra frente – a bala saindo do corpo e entrando no cano do revólver, uma profusão de bandidos ressuscitando, bocas de mocinhos e donzelas desgarrando-se num antibeijo, lágrimas escalando bochechas até os olhos, e o recorrente final feliz dos filmes americanos perdido ainda na algazarra de achar os lugares para se sentar e o barulho da pipoca”.

Pena que o Gonzaga, que inventou quase tudo em matéria de cinema, não tenha pensado nisso. Azar nosso.

 

Cineas Santos

Professor

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Está coluna é de inteira responsabilidade do colunista Cineas Santos