|
Atendendo a convite do mestre M.
Paulo Nunes, na semana passada,
passei uns três dias em Brasília,
exercitando a minha reconhecida e
proclamada capacidade de falar
sandices. Nisso, modéstia à parte,
sou imbatível. Nessa época do ano,
Brasília é dos lugares mais áridos
do Planeta. É tudo secura e
desolação. O pó vermelho transforma
a “Capital da Esperança” numa
monótona aquarela ferrugem. É certo
que dois ou três ipês amarelos,
raquíticos e desidratados,
brindaram-me com uma frugal ração
de beleza. Mas a beleza, já
afirmava Stendhal, “é apenas a
promessa da felicidade”. Nada além.
Sozinho num quarto de
hotel, comecei a lembrar-me dos
versos que abrem Os
Signos & as Siglas, o mais
triste dos livros de Dobal: “Esta
cidade sem poeira de vida/ se
fecha. Se prende. Se tranca/ em mil
unidades de desespero/ Esta cidade/
desolada isolada/ ilha de poeira
morta/ subverte o silêncio/
submerge os soluços”. Não
resisti à tentação de agradecer a
seu Liberato o fato de ter impedido
que eu me tornasse um candango.
Explico.
Em 1958, não caiu uma
gota de chuva no sertão do Caracol.
No rastro de outros sertanejos, meu
pai encarapitou-se num pau-de-arara
e rumou para Brasília. Estava muito
velho para sair pelo mundo à
procura de trabalho. Mas naquele
imenso canteiro de obras, nem os
inválidos – e não era o caso –
ficavam desempregados. Duas semanas
depois, meu velho deu notícias:
“estou fichado na Pacheco
Fernandes”, de triste
lembrança. Na verdade, estava
cavando valas para enterrar
ilusões. Imediatamente, d. Purcina
começou a arrumar os teréns para
mudar-se, de mala e cuia, para
Brasília. Vislumbrava, na aridez do
cerrado, a possibilidade de “educar
os filhos”, sua mais constante
obsessão e, de quebra, “ganhar um
dinheirinho” vendendo de-comer aos
cassacos. A velha tinha sonhos,
ambições. O que ela não poderia
imaginar é que, oito meses depois,
seu Liberato, “ouvindo o ronco do
trovão”, como a asa branca
da canção, voltou para o seu roçado
e, de lá, só sairia para o
cemitério. Quanto a mim, em vez do
cerrado, migrei para a chapada de
onde não sairei nem para Pasárgada.
Se não estou enganado,
todos os sonhos de Lúcio Costa e
Oscar Niemeyer naufragaram: a
cidade que não deveria ter favelas,
engarrafamentos, mendigos,
violência e outras mazelas que
infernizam as grandes cidades
brasileiras, tem tudo isso e muito
mais. Em frente ao Ministério da
Cultura, para citar apenas um
exemplo, um sem-nada “mora” numa
brasília velha, rota e
enferrujada.
Confesso que, no
segundo dia de minha estada na
capital da República, eu estava a
um passo do desespero. Náufrago
naquela imensa ausência de mar, eu
não via a hora de voltar para a
aldeia. De repente, como que
trazidos por um vento bom, me
aparecem: Edmilson Caminha, Ana
Maria, Climério Ferreira, Paulo
José Cunha, Andrea, Lourdes Lima,
Afonso Ligório, Guido Heleno e mais
um punhado de amigos queridos. E o
que era aridez se fez brandura,
acolhimento. Se nada mais tivesse
acontecido, reencontrá-los já teria
justificado a viagem. Ao
despedir-me de Brasília na manhã de
sábado, senti (por que não
confessar?) uma pontinha de
saudade. Impossível não concordar
com o prof. Wall Ferraz: “A cidade
é o povo”, o mais é paisagem, mesmo
que seja a árida paisagem do
Planalto Central, onde cintilam as
esculturas monumentais de Niemeyer.
Cineas Santos
Professor |